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Caravana de Lula

‘Negar o acesso ao ensino público foi uma forma de perpetuar a desigualdade’

Em Lagarto (SE), ex-presidente recebeu título de Honoris Causa e destacou que país só será sociedade moderna 'na hora em que a universidade deixar de ser privilégio e passar a ser um direito de todos'
Publicado por Redação RBA
18:41
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Ricardo Stuckert e Cláudia Motta
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Lula recebe título do reitor da UFS. Vice da UNE, Jessy saúda objetivos da caravana. Ex-aluno e hoje professor se emociona

Lagarto (SE) – “Minha mãe era empregada doméstica, analfabeta, então não teve condição de me colocar em uma escola que me proporcionasse entrar em uma universidade. Mas, quando entrei, tinha o Reuni (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), cotas, e foi por meio dessas políticas que pude acessar a Universidade Federal do Sergipe e ser a primeira da minha família a entrar em uma universidade pública.”

O depoimento de Jessy Dayane, vice-presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), era similar ao de muitos jovens presentes ao evento em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Sergipe (UFS), no início da tarde desta segunda-feira (21), na cidade de Lagarto. O município, de 105 mil habitantes e a 70 quilômetros de Aracaju, abriga o campus de Saúde da UFS. Mais uma vez, em sua caravana que já passou pela Bahia e agora percorre o Sergipe, o ex-presidente foi recebido por centenas de pessoas.

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“O ensino, quando interiorizado, garante que a população de baixa renda, principalmente a população rural, tenha acesso ao ensino de qualidade, a um ensino com dignidade e a opções futuras no mercado de trabalho”, conta Ricardo, estudante de 19 anos do curso de Nutrição da UFS. A interiorização a que ele se refere é um dos aspectos da expansão da Universidade Federal do Sergipe ocorrida a partir de 2006, no âmbito da política promovida à época de levar a educação superior para o interior do país.

Itabaiana foi a primeira cidade contemplada por essa política, com um campus inaugurado em 2006. No ano seguinte, foi a vez de Laranjeiras receber cinco cursos de ensino superior. Já em 2011, foi aberto o campus da Saúde em Lagarto e o Campus do Sertão, em Nossa Senhora da Glória, foi inaugurado em setembro de 2015.

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Ricardo conseguiu entrar no curso de Nutrição e Uilma do de História. Neto de dona Lídia faz Medicina

Lídia, de 79 anos, foi recepcionar Lula por causa de seu neto, formado em Medicina pela UFS, e pelo pai dele, que também se formou na universidade. “O pai do rapaz era pobre, humilde, não podia fazer faculdade e hoje já tá trabalhando, fez Terapia Ocupacional”, conta. “Se ele for candidato, tem 10 anos que não voto, mas volto a votar pra Lula.”

Na leitura da resolução do Conselho Universitário da UFS pela concessão do título de Honoris Causa, o texto destacou o “apoio incondicional do seu governo às instituições federais de ensino superior”, o que tornou Lula “o grande mentor da ampliação desse sistema público de ensino, proporcionando um crescimento de matrículas superior a 100% no período entre 2003 e 2011”.

“Não tem como fazer a leitura da Universidade Federal do Sergipe sem considerar antes e depois do Reuni. Antes, tínhamos 10 mil alunos, 500 professores, 180 doutores, seis programas de mestrado e um de doutorado. Com o Reuni passamos a ter 30 mil alunos, 1,5 mil professores, nós passamos a sair da capital e ir para o interior”, disse em seu discurso o reitor da UFS Angelo Antoniolli. Da criação do Reuni, em 2007, até abril de 2015, o número de municípios atendidos pela rede pública de ensino federal passou de 114 para 289.

O caráter libertador da educação

Em seu discurso, Lula ressaltou a melhora na oferta do ensino superior no Brasil, mas destacou que ainda falta muito para que o país atinja um patamar razoável nesse aspecto.

“Como vocês sabem, o número de matrículas nas universidades brasileiras passou de 3,5 milhões em 2003 para 8 milhões em 2014. Ainda é pouco. Ainda é motivo pra gente ter vergonha por termos poucos alunos na universidade. O Chile, proporcionalmente, tem mais. A Argentina tem mais. E o Brasil precisa compreender duas coisas: primeiro, a educação não é gasto, é investimento. E esse país só será grande e competitivo com uma sociedade moderna, com uma sociedade vivendo um padrão de decência, na hora em que a universidade deixar de privilégio e passar a ser um direito de todos”, disse.

O ex-presidente falou das dificuldades que teve para implementar o Reuni. “Não pensem que foi um programa fácil de introduzir, tinha uma parte dos estudantes das universidades federais, normalmente filhos de gente muito rica, que, quando propusemos aumentar o número de alunos nas universidades, eles passaram a fazer discursos de que pioraria a qualidade do ensino. Em vários estados quebraram reitorias, ameaçaram bater em reitores porque uma parte da elite brasileira não admite que pobre entre na universidade.”

Em meio a diversas menções elogiosas ao ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, Lula disse que garantir o direito de acesso à educação “é obrigação do Estado”. “Triplicamos o orçamento do Ministério da Educação. Fizemos isso por entender que a democracia é real quando o pai de família sabe que seus filhos, por meio da educação, terão oportunidades de uma vida melhor”, apontou.

“Até a metade do século 20, a maioria da população brasileira ainda era analfabeta. O acesso ao ensino básico só foi universalizado agora, no século 21, e assim mesmo com boa parte das escolas em condições precárias”, lembrou. “Negar o acesso da maioria ao ensino público de qualidades sempre foi uma forma de perpetuar a desigualdade nesse país. Elites retrógradas mandavam seus filhos estudarem na Europa, enquanto negavam ao povo brasileiro esse direito sagrado, porque sempre temeram o caráter libertador da educação.”

Depois de Lagarto, a caravana se deslocou 42 quilômetros até Itabaiana, para ato com lideranças populares e políticas locais na Associação Atlética. Em pronunciamento, Lula criticou quem reduz os objetivos de sua peregrinação pelo Nordeste a campanha eleitoral. Disse que se quisesse fazer isso, adotaria uma prática mais cômoda de desembarcar somente nas capitas para dar um entrevista e se reunir com a classe política local.  

“Não precisaria viajar 22 dias pelo interior do país para fazer política. Eu estou viajando para a gente ver se consegue descobrir neste país”, disse, referindo-se ao período posterior à deposição de Dilma por meio de um golpe. “Quando eu quis ser presidente, tinha um compromisso com minha o consciência de fazer com que o Nordeste fosse menos desigual que o restante do país. No Nordeste tinha menos universidades, menos estudantes e mais analfabetos, mais evasão e menos doutores”, listou, ao dizer que só sabe fazer política olhando nos olhos das pessoas e que a região só é a mais pobre do país por conta da irresponsabilidade de políticos ao longo dos últimos 300 anos. 

Depois de Itabaiana, o ex-presidente encerra a agenda do dia em Nossa Senhora da Glória, onde recebe título de Cidadão Gloriense e retorna a Aracaju. Nesta terça (22), cumpre agenda na capital. Na quarta, abre nova etapa, em Penedo, já em Alagoas.

Com reportagem de Cláudia Motta