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Em Currais Novos, escola modelo do sertão. Em Mossoró, memória de resistência

Passagem de caravana no Rio Grande do Norte enaltece papel da educação na emancipação de jovens e mulheres. E reúne multidão na cidade que já peitou Lampião e conquistou o primeiro voto feminino
por Cláudia Motta, especial para a RBA publicado 28/08/2017 23h57, última modificação 29/08/2017 00h37
Passagem de caravana no Rio Grande do Norte enaltece papel da educação na emancipação de jovens e mulheres. E reúne multidão na cidade que já peitou Lampião e conquistou o primeiro voto feminino
Cláudia Motta/TVT/RBA
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Francisca Lina (à frente, de óculos) e as companheiras do Mulheres Mil

Mossoró – A caravana Lula pelo Brasil deixou a cidade de Currais Novos (RN) nesta segunda-feira (28). Antes, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concluiu sua passagem pela cidade no campus do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), onde foi recebido por estudantes, professores e funcionários da unidade criada em 2006, umas das 282 escolas técnicas instaladas no país durante a gestão petista.

Além do acesso a ensino público de qualidade, os jovens valorizam muito a política de interiorização do ensino técnico de referência. “Antes era um acesso muito mais restrito, você tinha de se deslocar à capital para ter acesso a um instituto federal como esse. E hoje, pessoas do interior, das cidades circunvizinhas têm isso”, disse Marilia Gabriela Dantas Felix, 18 anos, aluna do último ano do curso de Manutenção e Suporte à Informática. “Lula simboliza isso: um avanço na educação, uma oportunidade do filho do preto, do pobre, da periferia ter acesso a uma educação como essa.”

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Vinicius: 'o instituto mudou minha vida'
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Micael, 1º da família a estudar em escola federal

Engenheiro de alimentos, o professor Jonas Almada, 40 anos, dá aulas no instituto desde a inauguração. “É claro pra muita gente que o instituto tem uma importância muito grande para o interior e para essa geração, já que na minha a gente não teve essa oportunidade. E aqui, no Instituto Federal de Currais Novos a gente vive essa realidade, de trazer tecnologia para o sertão, aqui para o Seridó, com professores mestres e doutores que estão vestindo a camisa da educação, mudando a realidade, tanto dos alunos que passam por aqui quanto das pessoas do entorno. Trabalhamos num com educação presencial e à distância, e com viés de pesquisa e extensão. Na área de extensão, a gente tem contribuído muito para as comunidades de toda região do Seridó.”

A qualidade dos cursos é outro diferencial. “A rede melhorou a qualidade do ensino, que é superior às outras escolas públicas. Os professores são qualificados, mestres, doutores. E também tem o envolvimento dos alunos e a energia das escolas que é muito boa”, diz o aluno do curso de Alimentos, Vinicius Coelho de Moraes, de 16 anos, da cidade de Acari. “Tive oportunidade de ter bolsa aqui, trabalhei no laboratório e a gente sai qualificado para trabalhar. Mudou minha vida.”

Colega de Vinicius, Gabriela dos Santos, 18 anos, quer seguir estudando e fazer Medicina. “O instituto foi uma oportunidade muito grande para nós e para as cidades que o aportam. Ele traz benefícios para os alunos, qualifica, e a gente tem oportunidade de terminar o ensino médio tendo um emprego, seja como técnico em alimentos ou informática, e isso ajudar na nossa formação como pessoas, que vamos ser o futuro do país.”

Micael Lucas, 19 anos, faz questão de lembrar que antes não era assim. “Antes (do governo Lula) eram dois institutos federais, hoje são 21. Eu, por exemplo, vim do interior, onde tinha um professor para três matérias. Sentia muita dificuldade, necessidade de uma infraestrutura, de qualificação e até mesmo de salário para os meus professores”, compara. O estudante lembra a “loucura” que foi quando surgiu a oportunidade de entrar no Instituto Federal. “Fui o primeiro aluno da escola em que eu estudava a entrar, eu e um outro menino. E da minha família eu sou o primeiro a estudar em escola federal e serei o primeiro formado técnico por uma escola federal. Antes eram 1,5 mil estudantes, hoje são 34 mil.”

Micael cursa Informática no campus de São Gonçalo do Amarante, é presidente do grêmio estudantil e diretor LGBT da União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas de Natal. “A gente vê que tem pobre virando doutor, tem gay virando doutor, tem sapatão virando doutora. Tudo isso é de uma importância muito grande para nós, porque a gente está na luta, e a gente vê o quanto resistimos, e quando nós resistimos vale muito a pena”, disse, ressaltando que os estudantes foram obrigados a ocupar mais de 10 campus do IFRN para lutar contra o corte de verbas. “Tem aluno que está saindo do campus, tem aluno que está pedindo transferência para tudo quanto é canto porque não está tendo condições. E tudo isso por conta do golpe que foi se alastrando até nós, que somos pobres e da sociedade civil”, lamenta, em mais uma menção ao impeachment de Dilma Rousseff e às mudanças promovidas por Michel Temer na política de governo.

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Discurso de Lula em Currais Novos, na noite deste domingo (27): celebração com a população que conquistou mais direitos

Círculo virtuoso de qualidade de vida

Outra frase sempre nos discursos do ex-presidente durante as paradas da caravana pode ser conferida na realidade de Francisca Lina de Araújo e Iraci Amorim. Elas são colegas no curso de recicladoras do projeto Mulheres Mil. Aos 68 anos, Francisca já passou também pela formação de manipuladora de alimentos, pelos cursos de alimentos e derivados do leite. “Esse Instituto para nós é um orgulho e uma benção. Aqui temos alunos não do nosso município e de outros vizinhos. Os que aqui se formaram hoje se dão muito bem. Inclusive nós, que fizemos Mulheres Mil. A gente já fabrica produtos de boa qualidade e vende para a merenda do IF e das escolas públicas de Currais Novos e cidades próximas”, conta Francisca, com o orgulho de mulher que cuida da própria vida.

“Antes desse instituto era muito difícil para o jovem ingressar numa universidade”, reforça Iraci. “Esses programas do tipo Fies, Prouni ajudam muitos jovens. E a questão das cotas, para que todos tenham direitos iguais. E além de o jovem ter o acesso à universidade, os profissionalizantes que aqui acontecem, profissionalizam até mesmo nós, que não somos mais jovens, mas estamos aqui nesse projeto Mulheres Mil, que é um incentivo para quem já está há muito tempo fora do mercado de trabalho, para que possa voltar a ter sua própria renda, se tornar autônoma, dona de seu próprio negócio, para que você possa se sentir melhor, a autoestima elevada”, disse Iraci, quase usando as mesmas palavras que Lula usa, quando diz que “mulher só pode ficar com homem porque gosta, não porque precisa”.

Iraci, aos 53 anos, conta que aprendeu muito sobre “essa questão de que hoje a gente está vivendo da ideologia de gênero, que precisa ser colocada de uma forma ampla, que somos iguais mesmo pensando diferente, cada um no seu quadrado como se diz, mas fazendo a coisa certa, vivendo do jeito que lhe faz feliz. Esse espaço nos proporciona tudo isso e muito mais”. Cearense, ela mora em Currais Novos há 33 anos e comemora a passagem de Lula. “Estamos aprendendo a reaproveitar, porque assim a gente também ajuda a natureza. Quantas coisas se joga no lixo, quando elas podem ser reaproveitadas e assim a gente deixa de poluir o meio ambiente e o mais importante: a gente vai ensinando as crianças o que pode e o que não deve ir para o lixo de jeito nenhum."

Mossoró de tantas histórias

Cláudia Motta/TVT/RBA Lula em Mossoró
Estação das Artes de Mossoró. Cerca de 40 mil pessoas em celebração de esperança e resistência

Já passava de 11h, quando a caravana pegou estrada para Mossoró, no Oeste Potiguar, onde estava marcado para 18h um ato com os movimentos sociais, na Estação das Artes. Novamente, o percurso de pouco mais de 200 quilômetros foi marcado por paradas extras, em ruas e estradas tomadas pela população apesar da temperatura de 36º à sombra. Em Florânia, Maria Josineide de Souza, 46 anos, dona de casa trabalhadora da roça, comemorava o que nunca imaginou que fosse ver. “Eu amo o Lula, deixei de ir pra casa pra ver ele. Tô muito emocionada, graças a Deus que consegui. E nesse calorão mesmo! É Lula no coração.”

O agricultor Miguel Augusto Dantas dava lição a quem quisesse ouvir. Aos 79 anos, tinha na ponta da língua as razões por que “todo esse povo aí” tinha para fazer tanto sacrifício para ver a caravana passar: “O que tinha antes de Lula era pobreza sofrida, não tinha quem olhasse para o agricultor. Chegava o ano escasso, o pobre não tinha cobertura, vinha atacar a feira pra não morrer de fome. Depois de Lula nós tem energia em casa, nós tem cisterna. Eu mesmo que sou aposentado não faço, não, mas meus filhos fazem empréstimo. Tudo projeto de Lula. Minha filha tem gado, comprou com os projetos. A vista do que nós era... Nós era esquecido. Hoje é Deus no céu e Lula na terra. Por isso o povo está mostrando isso aí, nas cidades, todo mundo, o povo, a classe pobre que não tinha quem olhasse pra ninguém”, disse, apontando o ato que tomava conta da beira da estrada em Florânia.

“Hoje, graças a Deus chega luz nos sítios, as casas dos pobres tudo tem energia, e era tudo no escuro. Há seca, mas nós tem água na cisterna, tem os carros que bota. Por isso nosso povo tá mostrando a Lula aí, mostrando em todo canto, porque foi ele quem olhou pro Nordeste. Por isso que os ricos têm despeito, porque os pobre vivia pedindo um dia de serviço até pelo amor de Deus, porque não tinha um ganho. E hoje o povo tá dizendo aí: se ele sair candidato, daqui a capote, em vez daqueles outros candidatos safados que tem aí, iludindo o povo, quando depois da eleição faz é subir imposto, subir gasolina, pra tirar das costelas do agricultor.”

O caminho para Mossoró ainda teve paradas em Jucurutu, Campo Grande e Upanema, onde até foi montado um palco, com chalana tocando. “Eu tinha uma crença de que era possível melhorar a vida do pequeno produtor rural do nosso país, a educação e permitir que filhos de gente pobre pudessem fazer uma universidade, uma escola técnica”, disse o ex-presidente aos moradores de Upanema, explicando as razões de ter saído nessa caravana. “O que estamos vendo agora é um processo de destruição do país, um governo tentando vender aquilo que a gente construiu durante 100 anos, não para melhorar a vida do povo, mas para pagar dívidas que contraiu”, disse Lula, pedindo aos sertanejos que não percam a esperança.”

Os Lampiões são outros

Cláudia Motta/TVT/RBA Miguel Augusto Dantas
Seu Miguel: 'Hoje tem luz, tem água, minha filha tem gado, comprou com os projetos. A vista do que nós era... Nós era esquecido'

Mossoró é uma cidade de economia diversificada. Consegue ser um campeão nacional de produção de melão e, ao mesmo, líder na indústria do sal e da extração de petróleo em terra. Os royalties do óleo garantiram aos cofres municipais R$ 10 milhões no primeiro semestre deste ano. Embora há muito o tempo dezenas de municípios potiguares desfrutem do subsolo rico no mineral, nos últimos 12 anos houve uma ofensiva dos governos Lula e Dilma no sentido de ampliar a participação da Petrobras no mercado mundial em em busca da autossuficiência.

“Vínhamos alcançando avanços enormes em termos de produção, ampliação de refinarias, sondas, não só aqui mas em nível nacional”, diz o funcionário da Petrobras Joacir de Oliveira, 62 anos, 33 de casa e diretor do Sindpetro local. “Só que quando assumiu este golpista ele começou a desfazer a Petrobras. E hoje vivemos uma situação muito complicada, estão pondo à venda para companhias estrangeiras refinarias e, inclusive, campos de exploração terrestre. Isso é inadmissível. Enquanto tivermos condições de lutar, vamos lutar, porque a Petrobras é sinônimo de soberania nacional.” (A Petrobras divulgou nesta segunda-feira que venderá seus direitos de exploração, desenvolvimento e produção em três conjuntos de campos terrestres, em um total de 50 concessões, nos estados do Rio Grande do Norte e Bahia. A empresa irá ceder 100% de seus direitos de exploração, desenvolvimento e produção.)

Em seu discurso, Lula voltou a criticar a política destrutiva do governo Temer em relação à empresas estratégicas para o desenvolvimento nacional. E mencionou a importância da população do Rio Grande do Norte nesta resistência – “não se trata de um projeto eleitoral, trata-se do futuro de um país” – citando o passado de “lutas memoráveis” de Mossoró.

A cidade, de 300 mil habitantes e uma das principais economias e grande polo de investimento do Nordeste, guarda em sua memória cultural e social alguns feitos históricos. Nos anos 1870, assistiu ao Motim das Mulheres, quando centenas delas saíram em passeata contra a obrigatoriedade do alistamento militar. Em 1883, cinco anos antes de a Princesa Isabel assinar a Lei Áurea, a cidade aboliu a escravidão. Já no século 20, Mossoró registraria o primeiro voto feminino no Brasil, em 1928 – o direito constitucional ao voto só seria assegurado à mulheres de todo o país em 1934, durante o governo do presidente Getúlio Vargas. Além disso, a cidade entrou para a história por ter protagonizado um dos raros movimentos de resistência vitoriosa ao bando de Lampião, há 90 anos.

Na noite desta segunda-feira, uma multidão estimada em 40 mil pessoas lotou a Estação das Artes para receber a caravana de Lula pelo Brasil. E parece ter acolhido com entusiasmo a mensagem de esperança e resistência a essa nova leva de “cangaceiros”, que hoje desfruta da cumplicidade do governo, do Congresso, da imprensa e de parcela do Judiciário para saquear sua cidade e seu país.

A caravana segue na manhã desta terça-feira (29) para Quixadá, no sertão do Ceará.