Lula pelo Nordeste

Caravana prestigia acampamento do MST e homenageia Marcelo Déda e Eduardo Dutra

Em Sergipe, ex-presidente almoça com sem-terras em acampamento onde vivem 54 famílias, cita coragem de governador do PMDB por resistir a impeachment e lembra líderes que fizeram história no estado

Cláudia Motta/TVT/RBA
A espera de lula

Formação de ‘cercas humanas’ à beira da estrada para saudar a passagem de caravana

Estância (SE) – A caravana segue pela rodovia que liga Salvador a Aracaju pelo litoral em longos trechos ladeados por vegetação, quilômetros e quilômetros sem uma cidade à vista. Mas basta os ônibus que acompanham a caravana Lula pelo Brasil passarem por algum vilarejo e as ruas se enchem de gente para acenar.

A chegada neste domingo (20) ao acampamento Valdir Macedo, no município de Jandaíra, divisa da Bahia com Sergipe, também foi assim. Centenas de trabalhadores formavam uma espécie de cerca humana entre o terreno e a a estrada. O acampamento leva o nome de uma liderança local do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Luiz Inácio Lula da Silva era esperado para o almoço, no local onde vivem cerca de 54 famílias. A estrutura é precária, sem água nem luz, e as pessoas se acomodam em algumas dezenas de casas pré-moldadas ou barracos montados em palha e sapê. O MST ocupa a área há quatro anos e seis meses, e pleiteia a posse da Fazenda Cambuí, um latifúndio improdutivo, segundo os sem-terra.

Dona Ildenei diz rezar pela volta do petista à Presidência. E comemora esse dia de festa junto com a família, na casinha de madeira pintada de azul e toda enfeitada para receber a caravana. “Abracei ele”, conta a lavradora depois de ver o ex-presidente entrar pela porta da frente junto com toda a muvuca que cerca cada passo dessa caravana. Ela vive ali com as cinco filhas e três netos, e batalha diariamente entre a roça os serviços domésticos, na esperança de que a terra “sem uso” seja regularizada para que o acampamento vire assentamento e passe a receber benfeitorias. 

Para Diana Ramos dos Santos, moradora na ocupação desde seu início ao lado do marido e do filho, foi o dia mais “chique” do acampamento. “Não é? Já pensou, receber um presidente?”, brinca, já pensando na volta à rotina nas horas seguintes, entre se revezar na vigilância, na pesca e nas roças. “A gente planta macaxeira, amendoim, quiabo, cana, fava (feijão)… A gente planta de tudo aqui. Achando um lugar a gente planta.”

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Assentamento preparou almoço e festa. Para Idelvina e Diana, gratidão e esperança

Leia também no Brasil de Fato: Lula andou pelo acampamento, ouvindo as histórias dos acampados. O ex-presidente conheceu também a biblioteca comunitária da ocupação, que leva o nome de “Dona Maurina”, em homenagem a já falecida mãe do assentado Adailton Monteiro, que foi educadora popular na região por muitos anos. A biblioteca é um dos maiores orgulhos da ocupação.

Cidadão Estanciano

Estância, com 70 mil habitantes, a 66 quilômetros da Aracaju, é a primeira parada da etapa sergipana da caravana. Na cidade onde o petista nunca perdeu eleição, a recepção é uma grande festa. O ex-presidente agradeceu ao governador Jackson Barreto (PMDB), que contrariou seu partido e apoiou a permanência de Dilma Rousseff contra o impeachment. Pelo gesto, segundo Lula, seu governo está sendo tratado a “pão e água” por Brasília.

O petista lembrou que esteve no estado, em 1985, quando pela primeira vez houve eleições para as prefeituras das capitais. Era o primeiro ano após o fim do ciclo de governos militares iniciado com o golpe de 1964. “E eu fui convidado para ir a Aracaju, porque aqui a gente tinha um menino desaforado, bom de gogó, inteligente e esperto como o quê, era candidato a prefeito”, disse, citando o ex-governador Marcelo Deda, morto em dezembro de 2013.

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Jackson Barreto (PMDB): a pão e água por resistir ao impeachment. Marcelo Déda e José Eduardo Dutra: referências

Lula lembrou dos debates eleitorais ao vivo, com tempo limitado e as falas interrompidas caso o tempo acabasse. “Poucas vezes vi um cabra tão competente para não perder um segundo como o Marcelo Déda. Ele falava no tempo exato. Teve uma votação extraordinária e começou uma caminhada política que o transformou em governador do estado”. Déda perdeu a eleição para Jackson Barreto, que seria vice na eleição vencida para governador em 2006 e 2010.

Eliane Aquino, viúva de Déda, ouvia emocionada. “Tive câncer primeiro que ele e ia ao hospital para dar conselho a ele, que era preciso ter disciplina, enfrentar com coragem. O câncer dele foi num lugar mais delicado e o Marcelo morreu vai fazer quatro anos agora. Foi uma perda muito grande para a política brasileira e para a política de Sergipe. Mas acontece que nós não morremos simplesmente. Nós renascemos em nossos filhos, netos, bisnetos. E certamente outras Dedas, outros Dedas virão por aí. Tá aí o João Marcelo, quase do tamanho do pai.”

Lula também homenageou o ex-senador José Eduardo Dutra. “Foi um dos melhores senadores que esse país já teve, naquela época (1995-2002) foi o único cara capaz de enfrentar o ACM e um dos melhores presidentes de toda história da Petrobras (2003-2005). Foi o companheiro que começou a política de desenvolvimento da Petrobras e esse companheiro também morreu de câncer (em outubro de 2015). Então, estou aqui em Estância e faltam esses dois companheiros e falta minha companheira”, disse o ex-presidente, em lágrimas ao lembrar a morte de Marisa Leticia, em 3 de fevereiro.

“O que é importante é que essas pessoas se vão, mas deixam exemplos. E essas meninas e meninos têm motivo de sobra para se orgulhar do pai que tiveram e do que representou para esse estado e esse país”, disse olhando aos filhos de Déda.

Lula se dirigiu aos sergipanos que lotavam o ato em que foi homenageado como Cidadão Estanciano. “Quero revisitar o Brasil, ver o que aconteceu nesse país de bom, o que aconteceu de ruim e o que está sendo construído agora. Tenho consciência do que nós fizemos pelo estado de Sergipe e que nunca teve um presidente que tratou Sergipe como Dilma e eu tratamos”, disse, ovacionado, principalmente ao mencionar os feitos na área de educação, como os 16 mil alunos do ProUni, as cinco novas escolas técnicas, a ampliação da universidade federal para além da capital e os investimentos em infraestrutura.

“Quero discutir sonhos e esperanças com vocês, porque não é possível uma sociedade caminhar pra frente, evoluir, melhorar de vida, se a gente não tiver sonhos. E na hora que a gente constrói o sonho da gente, temos de começar uma caminhada para tornar esses sonhos realidade”, disse, explicando os motivos que o levaram a fazer uma nova caravana, 24 anos depois da primeira edição. A viagem terá sequência por mais quatro municípios de Sergipe – Lagarto, Itabaiana e Nossa Senhora da Glória nesta segunda (21) e Aracaju na terça-feira. Na quarta-feria, segue para Penedo, já em Alagoas, onde passará também por Arapiraca e Maceió.

“Talvez a gente não tenha feito tudo, talvez a gente tenha cometido erros, mas essa gente que deu o golpe, dizia que o país ia melhorar. Colocaram esse tal de Temer e o povo está vivendo sem esperança. Porque essa gente não sabe governar, essa gente quer vender o Banco do Brasil, a Caixa Econômica, a Petrobras, a BR. Porque se eles fossem um trabalhador comum que ficasse desempregado, em vez de procurar emprego eles iriam vender até a mulher para poder resolver o problema da incompetência deles”, disse, sob os gritos de “fora Temer”.

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Grupo recebe com batuque quebra-coco em Estância

Lula encerrou lembrando do título de Doutor Honoris Causaque foi proibido de receber em Cruz das Almas, na sexta-feira (18), repetindo que o título está em cada estudante pobre que chega à universidade. “Por isso eu proibi, quando cheguei à Presidência, de usar a palavra gasto quando se falava em educação. Educação é investimento e é o melhor investimento que um país pode fazer para sair do atraso.”

Selma dos Santos Silva, 40 anos, se considera um fruto desse pensamento, a necessidade de o Estado investir em educação, ao conseguir concluir um curso superior pelo Prouni. “Eu não teria oportunidade nenhuma de me formar, sendo que teria de desembolsar um certo valor que eu não tinha”, diz. Hoje orientadora comunitária, Selma conta com orgulho sua história. “Sou umbandista, negra, e aplaudo sim o Lula, porque ele deu vez e voz ao povo negro, de matriz africana e deu oportunidade de um filho pobre hoje ter um diploma na parede.”

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Em Estância, ao lado de Eliane, viúva de Déda


O mesmo sentimento de gratidão que flui da voz de Selma se ouve de Eliana, viúva do ex-governador. “Falar em Lula em Sergipe é falar muito obrigada. Pelo companheirismo, pela parceria com Marcelo Déda que fez esse estado se transformar num estado onde as pessoas começaram a viver com dignidade. Onde a extrema pobreza começou a ser diminuída. Obrigada por chegar aqui fazendo homenagem a Déda e a José Eduardo Dutra, que foram dois grandes nomes para esse estado. Eu mais uma vez estou aqui pra falar muito obrigada presidente. Todas as vezes que eu o vejo perto desse povo, meu coração acelera. Isso é confiança. Muito obrigada! E volta, presidente.”