Entrevista

Jean Wyllys: ‘Preferem uma quadrilha à frente da República para implementar as reformas’

Deputado do Psol diz que serão necessários anos para reverter maldades de Michel Temer, cujo governo tem 'desprezo completo pela educação e pela cultura'

Gabriela Korossy/Câmara dos Deputados
Jean Wyllys

“Não há gestão da cultura no governo Temer. Ele tem um desprezo completo pela educação e pela cultura”, diz deputado

São Paulo – Na opinião do deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ), a política de destruição de direitos sociais pelo governo Michel Temer não apenas é grave como pode custar décadas para ser revertida, se as forças progressistas retomarem o poder.

“Eles congelaram por 20 anos, na Constituição Federal, gastos com saúde e educação, e portanto cultura. Quer escândalo maior do que esse? Os impactos disso para o desenvolvimento do país são terríveis”, diz o deputado em entrevista à RBA. “Precisa de muitos anos pra reverter isso. Se ocorrerem eleições em 2018 – e nem disso temos certeza –, ainda que seja eleito um Congresso um pouco mais progressista, esse Congresso não vai conseguir reverter os efeitos desse golpe.”

Jean Wyllys comenta a crise do Ministério da Cultura: “Não há gestão da cultura no governo Temer. O governo Temer tem um desprezo completo pela educação e pela cultura”.

Fala das declarações de economistas ligados ao Instituto Millenium segundo as quais as eleições de 2018 ameaçam as reformas neoliberais do governo: “Não vi, mas não me espanta, porque isso está na boca dos tucanos, dos caras do DEM e do PPS o tempo inteiro lá na Câmara. Não preciso ouvir esse instituto de plutocratas de merda pra saber disso”.

O deputado do Rio afirma ser, no Psol, “uma das pessoas que mais defendem o ex-presidente Lula como alguém possível de se candidatar’. Para Wyllys, “a candidatura dele é uma questão democrática”. “A maneira como a Justiça agiu em relação a ele é arbitrária, a gente não pode aceitar isso”, diz. 

Porém, critica a reconhecida característica conciliatória de Lula. “Não vou deixar de criticar esse tipo de concepção de pacto que o Lula tem, que já se provou que é um equívoco“, afirma o deputado.

Ele acha “bizarro” considerar a possibilidade de Jair Bolsonaro (PSC-RJ) disputar um segundo turno com Lula. “Bolsonaro tem teto, não passa disso. É um estúpido”, diz. “Alguém que diz que uma mulher não merece ser estuprada porque é feia pra mim é um estúpido.”

Em abril, a Comissão de Ética da Câmara rejeitou, por 9 votos a 4, pedido de suspensão do mandato de Wyllys, acusado de cuspir em Bolsonaro.

Confira a entrevista.

Como vê a gestão do Ministério da Cultura de Temer, do qual o terceiro ministro, João Batista de Andrade, se demitiu recentemente?

Não há gestão da cultura no governo Temer. Nunca houve. O governo Temer não tem qualquer compromisso no campo da Cultura, no sentido mais senso comum do termo, digamos assim, e nem com os assuntos próprios do ministério: a gestão, o fomento das artes e espetáculos, financiamento.  Primeiro, a decisão dele de acabar com o ministério da Cultura. Depois volta atrás da decisão porque os artistas, produtores culturais e trabalhadores da cultura no país inteiro se organizam e fazem ocupações dos equipamentos de cultura, sobretudo das Funartes. Depois de um périplo por pessoas famosas como Marilia Gabriela, Daniela Mercury, que negaram, ele achou o Marcelo Calero disposto a cumprir esse papel.

Calero sai acusando o presidente de favorecer um ministro corrupto, que é Geddel Vieira Lima. Pelo menos teve uma atitude honesta ao sair do ministério se dizendo pressionado pelos interesses do PMDB no subterrâneo da República. Depois cabe o ministério ao PPS, da tríade dos partidos golpistas, que são o PMDB, o PSDB e o PPS, os principais partidos que deram o golpe da presidenta Dilma e sustentam esse governo, fora os partidecos de aluguel que compõem a base rachada do governo na Câmara e no Senado, PR, PP e que tais. O Roberto Freire não tem qualquer intimidade com o campo da cultura, e na primeira grande denúncia, fingindo-se surpreso com essas denúncias contra Michel Temer, como se já não soubesse, ele sai.  O Batista (de Andrade) entra, não dá tempo de esquentar a cadeira e o ministério está sem ninguém. Diante desse histórico não se pode falar em gestão. Não existe gestão da cultura. O governo Temer tem um desprezo completo pela educação e pela cultura.

Quando se cortam verbas em cultura, educação, ciência e tecnologia, para recuperar isso pode levar décadas. Que perspectivas o país pode ter nessas áreas?

Perspectiva nenhuma, cara. O golpe não foi só contra uma presidenta democraticamente eleita e não só pra retirar um partido como o PT do condomínio do poder. O golpe tem como objetivo último implementar políticas neoliberais que não foram aprovadas nas urnas nas últimas quatro eleições. A população vem rejeitando esse modelo de gestão do país. E conseguiram fazer isso num golpe. Eles congelaram por 20 anos, na Constituição Federal, gastos com saúde e educação, e portanto cultura. Que escândalo maior do que esse? Os impactos disso para o desenvolvimento do país são terríveis.

A cultura deveria ser uma chave fundamental de desenvolvimento sustentável da nação. Era algo que se desenhou na gestão de Gilberto Gil e que o Juca (Ferreira) tocava com dificuldade no governo Lula e no governo Dilma. Os governos Lula e Dilma já tendiam a políticas neoliberais, mas num embate de forças que garantiam por outro lado políticas sociais e uma gestão da cultura que apontava para um futuro melhor. Isso foi jogado por terra.  A cultura deixa de ser uma chave estratégica para o desenvolvimento sustentável da nação para ser um penduricalho das elites econômicas do país, com orçamento baixíssimo, sem financiamento público. A Lei Rouanet só serve ao financiamento de projetos das grandes fundações, Roberto Marinho, Bradesco, Itaú, que têm um corpo de advogados prontos a adequar os projetos às exigências do ministério. A criminalização que os meios de comunicação de massa fizeram das ONGs durante a gestão petista obrigou a própria gestão petista a ser rigorosa e todo esse rigor só prejudicou os pontos de cultura, os produtores culturais, os pequenos grupos de teatro, as cooperativas, os quilombolas.

Precisa de muitos anos pra reverter isso. Se ocorrerem eleições em 2018 – e nem disso temos certeza –, ainda que seja eleito um Congresso um pouco mais progressista, esse Congresso não vai conseguir reverter os efeitos desse golpe.

Você disse que não há certeza se vai haver eleição em 2018. Economistas ligados ao Instituto Millenium disseram esta semana que as eleições de 2018 representam risco à agenda de reformas. Viu isso?

Não vi, mas não me espanta, porque isso está na boca dos tucanos, dos caras do DEM e do PPS o tempo inteiro lá na Câmara. Não preciso ouvir esse instituto de plutocratas de merda pra saber disso, porque é o que eles dizem o tempo inteiro lá. As reformas têm que acontecer. Eles não têm nenhum pudor de subir na tribuna e dizer claramente. “Se for preciso derrubar a democracia, a gente vai derrubar”. Como eles já fizeram.

Ninguém aposta muito no futuro do governo Temer, mas num futuro sem democracia pode ser que muita gente aposte…

Eu não sou mãe Dinah, não posso dizer se eles vão conseguir ou não. Eles não conseguirem depende de nós, o campo progressista, o campo democrático à esquerda, que quer o país com desenvolvimento sustentável, que quer reverter os índices de desemprego, garantir direitos trabalhistas, previdenciário, as centrais sindicais não pelegas. E o próprio Lula, que tem que se tocar também, que fica dando declarações estapafúrdias de ser preciso repactuar. Repactuar com quem, cara pálida? Com as mesmas elites que deram o golpe e tiraram o PT do condomínio do poder? Sob que níveis? Quais são as nossas condições de repactuar de modo a garantir direitos trabalhistas e previdenciários a um povo que já não tem direito?

Às vezes eu tenho a impressão de que o Lula ficou preso no século 20. Eu sou uma das pessoas dentro do Psol que mais defende o Lula como alguém possível de se candidatar. A candidatura dele é uma questão democrática. Garantir que o Lula esteja elegível em 2018 é algo que pertence ao campo democrático. A maneira como a Justiça agiu em relação a ele é arbitrária, a gente não pode aceitar isso, fere o estado democrático de direito. Mas também não vou deixar de criticar esse tipo de concepção de pacto que o Lula tem, que já se provou que é um equívoco.  

Quando os donos do  poder, os poderes fáticos, decidiram que derrubariam o PT, eles o fizeram, criaram uma ficção, que foram as pedaladas. Permitiram que um bandido do naipe de Eduardo Cunha conduzisse o processo de impedimento de uma presidenta. Ele hoje está na cadeia. Os poderes fáticos permitiram que alguém como Michel Temer, que hoje é tratado pela imprensa como chefe de uma organização criminosa, assumisse a presidência da República. Geddel Vieira Lima é homem forte do governo. Romero Jucá também! Entenderam que é preferível que uma quadrilha esteja à frente da República para implementar as reformas. Então, se eles vão conseguir ou não, se vai ter eleição ou não, depende de mim, de você, de todos nós. Temos que ter eleições diretas. Ainda que a gente não consiga para esse ano, a gente tem que investir nesse grito de diretas já pra garantir o avanço do progressismo em 2018 e um Congresso Nacional um pouco mais progressista do que esse. Um presidente eleito com um Congresso pior do que esse não sei se vai conseguir governar.

O que acha do cenário apontado por pesquisas de disputa entre Lula e Bolsonaro?

Eu acho até bizarro vocês considerarem a possibilidade de Lula e Bolsonaro. Primeiro que nas últimas pesquisas ele teve queda. Eu não acho que esse cenário vá acontecer. Bolsonaro tem teto, não passa disso. Ele tem um eleitorado fascista, uma classe média ignara, preconceituosa, que sempre existiu no Brasil. Não tô falando de toda a classe média, mas um certo setor da classe média que é racista, classista, meritocrata.  É essa gentalha que vota nele. Quando o debate eleitoral acontecer pra valer, ele vai ser engolido por figuras como Ciro Gomes, como a própria Marina. Bolsonaro é um estúpido. Se cair de quatro não levanta. Aliás, acho até um erro ficar apontando que ele é homofóbico. Quem vota nele gosta da homofobia dele, gosta do racismo dele. O que tem que evidenciar em Bolsonaro é o que o porta-voz da direita paulistana, o Marco Antonio Villa, uma figura de intelectualidade questionável, disse – que o Bolsonaro é um estúpido. Não tem competência nenhuma pra sequer figurar em pesquisas, imagina estar num segundo turno com Lula.

Mas é a própria grande imprensa que tem sustentado esse quadro…

É, mas ela mesma já está voltando atrás, porque não se sustenta. Ele na verdade foi picado pela mosca azul, no delírio dele, por causa da eleição de Donald Trump. Ele acha que pode repetir aquele fenômeno. Nosso processo eleitoral é diferente do americano. O Trump está, acho, alguns níveis acima desse imbecil, e do ponto de vista numérico o Trump foi derrotado. A maioria dos americanos não queria aquele homem lá. Não acho que Bolsonaro cresça para além do que já cresceu.

Alguém que usa arroba, uma medida de peso para animais, gado em especial, pra se referir ao povo quilombola, pra mim é um estúpido. Alguém que diz que uma mulher não merece ser estuprada porque é feia pra mim é um estúpido. Que quando perguntado sobre economia do país só repete duas palavras, nióbio e grafeno, pra mim é um estúpido. Contra fatos não há argumentos.

 

 

 

 

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