Justiça social

Lula: governo transforma conquistas da população em gasto

'Quem está errado não é quem quer, quem está errado é quem nega', diz ex-presidente na abertura de congresso da Contag. 'Não se trata de ser candidato, é preparar o povo para não haver retrocesso'

Ricardo Stuckert / Instituto Lula
Lula fala no congresso da Contag

Em vez de cobrar o trabalhador rural, “por que não cobrar o agronegócio exportador?”, questionou o ex-presidente Lula no congresso da Contag

São Paulo – Na abertura do 12º congresso da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), ontem (13) à noite, em Brasília, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o governo Temer quer transformar em “gasto” todas as conquistas da população, citando educação, saúde e Previdência. Para desenvolver o país, disse Lula, era preciso implementar políticas de inclusão,  “colocar os sem-direito dentro do orçamento da União”. Dirigindo-se aos 2 mil delegados do congresso, que vai até sexta-feira (17), com eleição da nova direção, o ex-presidente afirmou que é o momento de “levantar a cabeça”: “Quem está errado não é quem quer, quem está errado é quem nega”.

“Não se trata de ser candidato em 2018, porque a natureza é implacável, se trata da gente preparar o nosso povo para lutar não deixar haver retrocesso”, disse Lula, dizendo estar disposto a “voltar a ter 35 anos” e andar pelo Brasil para alertar a população. “Este país está precisando mais de vocês do que já precisou, agora que esta gente está mostrando a que veio. O que está em jogo não é pouca coisa, é a soberania deste país.” O ex-presidente fez menção às propostas de reformas trabalhista e da Previdência, em discussão no Congresso. “Vocês acham que eles querem fazer reforma trabalhista para melhorar o que nós temos?” Em vez de cobrar o trabalhador rural, “por que não cobrar o agronegócio exportador?”, questionou.

Lula lembrou da aprovação da Constituição, em 1988, que o PT não assinou. “Vocês vejam como éramos radicais. A gente queria mais”, comentou, ao defender a Carta aprovada, com avanços, segundo ele, pelo esforço da esquerda, mesmo minoritária, diante do chamado Centrão, bloco conservador com “maioria avassaladora, como hoje”. Um desses avanços foi justamente a inclusão dos rurais entre os beneficiários da Previdência.

Papa: teto, trabalho e terra

O secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Leonardo Ulrich Steiner, citou “três palavrinhas” repetidas pelo Papa Francisco desde o primeiro encontro com os movimentos sociais, em Roma: teto, trabalho e terra. Catarinense de Forquilhinha, lembrou de sua origem na agricultura familiar e afirmou que do campo “poderá vir uma nova ética, uma nova solidariedade”. E afirmou que “seria muito interessante” discutir, no congresso da Contag, a questão da Previdência.

O presidente da confederação, Alberto Broch, disse que a reforma pretendida pelo governo prejudica a todos, mas 80% dos trabalhadores rurais poderão perder seu direito à aposentadoria se a proposta “perversa” for aprovada. “Precisamos rever a nossa capacidade de indignação, sair da zona de conforto”, afirmou, defendendo “grandes mobilizações em defesa dos nossos direitos e das políticas públicas que conquistamos com tanto sacrifício”. 

Segundo ele, a agricultura familiar faz “contraponto ao modelo agroexportador, representado pelos grandes fazendeiros, que concentram a terra e a riqueza”, ao produzir a maior parte dos alimentos consumidos pelos brasileiros, e por isso é preciso discutir o modelo do país. “Quais os alimentos que desejamos comer em nossas mesas? Quem vai produzir? Como serão produzidos? Qual o papel da reforma agrária, da agricultura familiar na soberania alimentar e na segurança alimentar? Os grandes fazendeiros e o agronegócio não são a salvação do Brasil”, disse Broch, também criticando o governo Temer pela extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário.

Dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Alexandre Conceição falou em um encontro unitário de todos os movimentos do campo, citando Contag e Via Campesina, em “ofensiva para derrotar as políticas neoliberais”. E lembrou que no próximo domingo (19) haverá manifestação em Monteiro (PB), com a presença de Lula – foi naquela cidade que o presidente Michel Temer esteve há poucos dias. “A transposição do (rio) São Francisco foi o povo nordestino que fez. Essas águas do São Francisco não pertencem a quem deu o golpe.”

O presidente da CUT, Vagner Freitas, afirmou que os golpistas “aprofundaram em um milhão” os problemas brasileiros. “Não vamos permitir que usurpem os nossos direitos. Não existe reforma, o que existe é desmonte da Previdência. Precisamos derrotar a reforma da Previdência, não tem como remendar”, disse o dirigente, lembrando do dia nacional de paralisações marcado para amanhã (15). 

“Conquistamos um ambiente político razoável, que empoderou esta nação, não podemos ver tudo isso desconstruir e achar que tudo isso está certo”, defendeu o presidente da CTB, Adilson Araújo, para quem é hora de “botar nosso bloco na rua”. “É dever nosso sacudir a poeira e dar a volta por cima.”