visões da salvação

Carnaval renova energia de movimentos sociais e faz frente ao conservadorismo

'O carnaval deste ano tem tudo para ser um marco na história política do Brasil (...) o recado de respeito e tolerância está dado', afirma o coordenador-geral da Central de Movimentos Populares

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Marchinhas que levantaram a população pelas principais cidades do país deram espaço para um grito em comum: o Fora Temer

São Paulo – “Ano passado eu morri. Raiva, indignação, impotência. Morri golpeado. Pobre diabo sul-americano, cambaio, esfarrapado.” O chamado do bloco Ano Passado eu Morri, Mas Esse Ano Eu Não Morro faz referência à música Sujeito de Sorte (1976), do cantor e compositor cearense Belchior. O cortejo carnavalesco, com forte posição política, tomou as ruas da Vila Anglo, bairro da zona Oeste de São Paulo, na tarde de ontem (28).

Não muito distante dali, as ruas da Pompeia eram invadidas por uma multidão que seguia o bloco Acadêmicos do Cerca Frango. Do alto da sacada de uma casa antiga na rua Saramenha, um grupo de cinco jovens iniciou o canto que, prontamente, foi repetido pela maioria dos presentes. “Olê, Olê, Olê, Ola. Lula, Lula”. Os foliões pediam o retorno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Neste carnaval, as marchinhas e músicas que levantaram a população pelas principais cidades do país deram espaço para um grito comum à grande maioria dos cortejos. Pelas ladeiras e redes sociais, foliões batizaram a festa deste ano como “Carnaval Fora Temer”, que ecoou desde a sexta-feira (24), com o Bloco Afro Ilú Obá de Mim, que abriu oficialmente a programação do carnaval paulistano.

A alegria crítica, que tomou as ruas, mostrou – diferentemente dos debates que inundam as redes sociais, recheados de discursos de ódio e preconceito, alimentados em grande parte por “robôs” de movimentos de direita, como o Movimento Brasil Livre (MBL), Vem Pra Rua, entre outros – que o que se vivenciou neste carnaval foram diversidade, respeito e visões progressistas de ocupação e vivência do espaço público.

 Questionado se a felicidade exposta em sorrisos de crianças, jovens e idosos durante os dias de folia pode refletir esperança de tempos melhores para o país, o coordenador-geral da Central de Movimentos Populares (CMP), Raimundo Bonfim, afirma que “o carnaval deste ano tem tudo para ser um marco na história política do Brasil. Cultura e política estão relacionados. O lado do pessoal que se manifestou pelo impeachment, muitas vezes com discurso de ódio, não teve condição de se expressar. O governo que eles apoiaram está atolado em corrupção”.

Para Bonfim, a manifestação de respeito e alegria do carnaval “pode dar uma grande contribuição ao país. Vivemos um período em que o ódio e intolerância estão muito fortes. Agora o forte recado está dado, fortalecendo o respeito, a tolerância, respeito à mulheres, à população LGBT (…) E não foi um movimento isolado. Diversas cidades se expressaram de forma contundente, com discurso político”.

Fato que existe oposição à alegria, com representação no Estado. Há quem se enfureça com a felicidade do povo. Em São Paulo, a Polícia Militar comandada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), acostumada a reprimir os movimentos sociais, disse ter sido chamada para acabar com a festa de foliões na terça-feira (28), na Praça Roosevelt. A operação foi padrão. Para acabar com o barulho, uma chuva de bombas e spray de pimenta. De acordo com moradores, a forte ação militar contra jovens que por ali bebericavam suas cervejas resultou em gás lacrimogênio dentro das moradias. Um verdadeiro contra-senso.

“Ao entrar na madrugada, a PM e o Choque usaram toda sua truculência para dispersar foliões na Praça Roosevelt. Moradores dos andares mais baixos(dos prédios do entorno) passaram mal devido à quantidade de bombas de gás lacrimogênio e spray de pimenta usados na ação. Este governo reprime quem ousa ocupar o espaço público, não há nenhum relato de morador, usuário ou folião que nos faça entender o motivo da ação. Tomaremos medidas cabíveis. A cidade é nossa, lutaremos por este direito”, afirmou o vereador Toninho Vespoli (Psol).

Bonfim classifica o ato da PM como “absurdo”. “A repressão tem que ser repudiada de forma veemente. A PM de Alckmin faz questão de deixar claro para o Brasil que é a mais violenta e repressora. É uma desconexão completa com o momento cultural. Reprimir manifestação popular é um ato típico de ditaduras militares. Parece que o governador quer passar isso, que a PM de São Paulo é a mais violenta. É uma questão corriqueira em sua gestão”, completou.