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Para Jessé Souza, elite global está por trás da atual crise da socialdemocracia

Cientista político afirma que retomada da democracia é desafio enfrentado também em outros países. Soberania popular está sendo soterrada por uma força sem rosto do capitalismo mundial
por Lilian Milena publicado 08/12/2016 10h38
Cientista político afirma que retomada da democracia é desafio enfrentado também em outros países. Soberania popular está sendo soterrada por uma força sem rosto do capitalismo mundial
reprodução/Youtube/GGN
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No Brasil e no mundo, soberania popular está sendo soterrada por uma força sem rosto do capitalismo mundial

GGN – Michel Temer já está no poder há mais de seis meses e a crise política não foi estancada. Analistas, sejam eles economistas, cientistas políticos ou da própria imprensa nem mais arriscam prever o futuro próximo da frágil democracia brasileira.

A instabilidade política é um fenômeno que tem se espalhado não só no Brasil, mas em todos os países nos últimos anos. Se por um lado é difícil prever onde os dados lançados pelos jogadores mais influentes do sistema político-econômico irão levar as populações de cada país, por outro, é possível compreender no exemplo brasileiro os interesses por trás da mudança abrupta no poder, e que levou ao afastamento da presidente Dilma. E um dos principais pensadores desse tema hoje no país é o professor da Universidade Federal de Brasília (UnB), Jessé Souza, autor de dois sucessos literários publicados nos últimos anos, "A tolice da inteligência brasileira" (2015) e "A radiografia do Golpe" (2016).

Em entrevista para Luis Nassif, do Jornal GGN, Jessé esclarece os motivos do desequilíbrio causador da pior crise financeira já enfrentada no país hoje: a inabilidade do grupo que assumiu o poder, através do golpe, de construir uma narrativa coerente com o que prometeu à sociedade, ou seja, de que era necessário derrubar um governo incompetente, em termos de gestão, para colocar o país nos trilhos, revelando que o único interesse real era retomar o poder, pelo poder, incentivados por interesses norte-americanos e, de forma mais abrangente, pelo capitalismo mundial.

O mais interessante, pontua Jessé, é que as elites nacionais podem até pensar, num primeiro momento, que saíram ganhando com o investimento que fizeram na crise política que alterou o governo, mas agora, sem capacidade de tirar o país da tempestade, correm sérios riscos de serem devoradas pela massa sedenta por "justiça" contra a corrupção que ajudaram a criar.

Em relação à participação de grupos estrangeiros na instabilidade política, o fato de o "inimigo" ser maior torna a retomada do controle democrático do poder ainda mais desafiador. E esse é um fenômeno não só enfrentado no Brasil, mas também em outros países, onde a soberania popular está sendo soterrada por uma força sem rosto do capitalismo mundial. Ora, sem saber exatamente quem é o inimigo, como acertar o alvo?

"(Estamos) enfrentando um inimigo de altíssimas proporções e que a reação a ele é sempre local, é fragmentada. Ele se põe de uma forma internacional, como a gente viu no nosso golpe aqui (...), nesse filme novo do Oliver Stones, (chamado) 'Snowden', não por acaso, estava lá (a temática do) controle sobre o petróleo, como barrar empresas como a Petrobras, que há alguns anos atrás tinha uma enorme capacidade de investimento, mais do que o próprio estado brasileiro, isoladamente".

E os donos do poder não trabalham com uma estrutura qualquer, e sim a partir de uma refinada articulação que envolve meios de comunicação e cultura como principais indutores de comportamento das massas, daí o papel importante dos grandes veículos de imprensa em cada país para colocar ou destituir lideranças políticas. Por essa razão, Jesse chama atenção para o perigo da uniformização, cada vez maior, do pensamento.

"A gente está vivendo uma coisa que (Theodor) Adorno dizia, uma sociedade massificada, sem capacidade de reflexão. Você (como elite) retira a reflexão e o fascismo (acaba) vindo de uma forma normal".

O professor também critica os grupos tradicionais de esquerda que chegaram ao poder e contribuíram para a crise institucional, por não terem avançado na reflexão das mudanças em cursos, tanto na forma como o capitalismo financista se rearticulava, como nas manifestações sociais que, aqui no Brasil, podem ser representadas pelas marchas de junho de 2013 e, em termos mundiais, pelas ocupações na Europa e a Primavera Árabe.

Nessa quadra atual de desmanche das instituições, o que você prevê como desdobramento?

Eu acho que nós estamos passando por um esgarçamento institucional, com as piores consequências por conta disso. No meu livro que você citou tentei fazer uma comparação com um assalto a um banco. Como a gente sabe, nos filmes policiais é fácil você arrumar aventureiro para assaltar um banco, mas a coisa começa a esquentar quando você vai dividir o saque. É exatamente o que está acontecendo efetivamente. Você assalta a soberania popular, e na hora de dividir o saque (acontece o conflito) porque, é claro, os atores entraram apostando o que tinham. Quer dizer, o Judiciário com a sua sobrevivência tem a ver com sua legitimação, o mesmo o Congresso, o sistema político. Embora isso (a crise política que levou ao golpe) tenha sido baseado em uma mentira construída midiaticamente, numa distorção sistemática da realidade, o fato é que sendo verdadeiro ou não essas legitimações enredaram os seus atores. Sem contar com a mídia, ainda, que fez o papel de criar um simulacro de realidade, para os fins mais mesquinhos e venais. Por enquanto ela ainda está pautando a realidade, mas eu acho que a médio prazo isso vai ter uma crise importante de confiança.

Para mim essa é a história, não se mexe em coisas como soberania popular, achando que você pode encontrar um substituto para isso. Não existe isso, (a democracia) é o único acordo societário possível.

Quando a gente vê a crise da social democracia, ou dos estados nacionais em vários locais, o Judiciário qual que será o protagonismo dele aqui? Vai ser caça às bruxas?

Acho difícil de antecipar até porque estou pasmo como nós todos. O tema do judiciário tem a ver com o espaço de uma luta interna dentro do aparelho de estado por duas razões: dinheiro, vantagens. Obviamente é um judiciário que eu acho que agora que está se mostrando quanto ganha, suas vantagens, certamente não tem outro paralelo no mundo o que os juízes ganham, e acho que está entrando também outro aspecto que é do controle da agenda do estado, que está avançando.

Mas eu acho que, obviamente, eu não acredito que seja aquela caminhada da vitória para um aprofundamento desse processo, acho que tem a ver com o desespero também. Montou-se uma narrativa da qual ela não está correspondendo na realidade, no fundo era o afastamento da esquerda, e que estava atingindo o sistema político inteiro, e também os partidos que são os partidos base da banca rentista como o PSDB. Obviamente isso não pode chegar ao PSDB, porque foi a banca rentista que bancou o golpe inteiro. Acho que essas coisas todas estão sendo postas agora de modo muito nu.

Essa questão do PSDB, você tem uma blindagem da mídia... você pega esse negócio dos 23 milhões do Serra (repassados pela Odebrecht para caixa 2), O Globo não deu nada. Mas a existência das redes sociais, se por um lado também elas são muito segmentadas, é possível manter esse tipo de jogo sem calar as redes sociais?

É difícil. O fato é que a gente tem uma parte importante do público cuja opinião é moldada pela grande mídia, e essa grande mídia, no fundo, tem uma enorme influência sobre as redes. Existem pesquisa que 80% do conteúdo das redes é pautado pela grande mídia.

É, uma parte desconstruindo, fazendo uma releitura, e uma parte endossando.

Exato, temos um espaço importante nas redes, mas ele ainda é um tanto limitado. Mas voltando na questão do desespero, por exemplo, o apoio popular também tem diminuído. Essas últimas (manifestações em favor da Lava Jato)... apesar de ter sido engrandecido.

Tentaram transformar 130 mil na opinião nacional.

Exatamente, e obviamente é uma porcentagem mínima do tipo de manifestação que a gente tinha o ano passado. Você vê que é o seguimento mais radicalizado, com coisas como 'militares já', ou seja, é a pulsão fascista, que foi transformado em fascista por uma mídia histérica.

Confira a íntegra da entrevista com Jessé Souza no Jornal GGN

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