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Renovação e resistência são os desafios do PT após o declínio nas eleições de 2016

Para sobreviver à crise, partido precisa compreender o "novo" papel de ser uma oposição programática, como já foi, reconhecer os erros, renovar a direção, se abrir para a juventude e voltar às bases
por Eduardo Maretti, da RBA publicado 06/10/2016 13h53
Para sobreviver à crise, partido precisa compreender o "novo" papel de ser uma oposição programática, como já foi, reconhecer os erros, renovar a direção, se abrir para a juventude e voltar às bases
Paulo Pinto / AGPT
PT

Campanha de Fernando Haddad não conseguiu chegar ao segundo turno, mesmo com apoio de Lula

São Paulo – Diante do pior desempenho em eleições municipais em 20 anos, o PT tem diante de si a necessidade de empreender uma revisão de seu papel enquanto partido de esquerda, manter a resistência diante do permanente processo de desconstrução e criminalização e renovar seus quadros. A reconstrução do partido enquanto agregador das forças de esquerda deve, ao mesmo tempo, levar em conta seus próprios erros e o afastamento das bases ao longo do período em que esteve no comando do país.

“Eu vejo três tarefas para o PT: primeiro, resistir a esse golpe continuado, que tirou a presidente eleita, criminalizou o PT, quer colocar o Lula na cadeia e tirar direitos do povo brasileiro. Temos que fazer um trabalho de unidade e resistência. Em segundo lugar, retomar os vínculos com o povo brasileiro, fortalecer os vínculos com movimentos sociais e mobilização popular. Terceiro, pactuar uma grande mudança dentro do PT, com oxigenação, renovação e mudança geracional. Abrir o PT para a juventude e atualizar a formulação sobre o Brasil.” O didático resumo é do deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP).

Teixeira também defende a necessidade de se trabalhar por uma direção afinada com os novos tempos e mudar seu comando. “Qual a agenda de repactuação? É construir uma direção muito qualificada, retomar a elaboração sobre o Brasil, retomar suas relações com os movimentos sociais.” Na opinião do parlamentar paulista, é essencial “abrir esse processo para a juventude e o PT constituir-se como partido formador e pedagógico”.

O deputado federal Enio Verri (PT-PR) destaca que o partido precisa entender o processo de ataques que sofre dos meios de comunicação e das elites do país desde 2005, quando explodiu o processo do chamado “mensalão”, e também fazer uma autocrítica. “Nós vamos ter que rever o partido, compreender tanto o que a grande mídia e a elite fizeram conosco, como também o que aconteceu por conta dos nossos erros, pois não podemos achar que só os outros são responsáveis”, diz.

Na opinião do deputado paranaense, esse processo impõe a necessidade de antecipar a mudança da direção do partido nos municípios, estados e também no diretório nacional. Ele defende que a renovação nas três esferas seja antecipada do segundo semestre de 2017 para o início do mesmo ano. Segundo Verri, discute-se a possibilidade de se realizar um congresso partidário, que pode ser em março.

“Nele, poderemos discutir de maneira firme e até científica, à luz da história, o caminho da esquerda no Brasil e como conduzir um projeto de esquerda. E, claro, dentro disso, nossa própria organização partidária, o modelo de organização do PT.” Para Verri, essa reavaliação tem necessariamente de se dar a partir de um debate com as bases, formadas pelos militantes do partido.

Oposição programática

A professora Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos, vê um desafio novo, embora paradoxal, para o PT: reaprender a conviver com seu novo papel enquanto força política, de certa maneira voltando ao que já foi um dia. “O PT vai ter que voltar a ser uma oposição programática, como já era antes de chegar ao governo. Quanto mais conseguir dar conta desse novo papel, mais vai conseguir a adesão de parte da sociedade. O que chama a atenção hoje é a perda do eleitorado, mas há outra questão séria, intrapartidária. Como vão se reorganizar internamente a partir da crise dentro do partido? Mais do que isso: quem vai ficar de fato no partido?”

Como boa parte dos parlamentares, Maria do Socorro considera que o PT vive um “um momento muito complicado” tanto pelos problemas internos como pelos ataques que sofre da grande mídia, de parte do Judiciário e de “nossas castas políticas”, que farão o possível para impedir que ele volte a ser uma expressão política importante no país. “O partido tem que repensar muita coisa, mas também precisa atuar nesse contexto em que todas essas forças se uniram contra ele.”

A analista prevê que, para conseguir se reerguer, a legenda precisa fazer uma profunda análise de sua atuação e de seus erros, que não foram poucos nem desprezíveis. Uma das primeiras coisas a fazer é repensar a relação do PT com o financiamento privado.

“A gente sabe da dificuldade de um partido chegar em pé de igualdade com outros partidos fortes se não tiver dinheiro suficiente. Mas não por meio de uma relação que eu chamo de ‘promíscua’ com os partidos da base no Congresso. Para não depender disso, vai ter que formar uma base muito mais ampla com a sociedade”, avalia a professora. “O partido precisa fazer uma revisão da continuidade dessas práticas criticadas pelo próprio PT. Afinal, é um partido que vem pela esquerda.”

Para Maria do Socorro, o principal fator sobre o qual o partido precisa refletir é exatamente o papel que desempenhou enquanto líder de um governo de esquerda. “Não tivemos reformas estruturais no país, isso é um fato. O partido tem que se repensar em relação à questão programática. O próprio Lula, com o apoio com que saiu das urnas, principalmente no segundo mandato, tinha condições de mexer em alguns aspectos estruturais que não foram adiante. E no fim das contas, os setores conservadores que apoiaram a coalizão com o governo puxaram para trás e reduziram o fôlego da força política que Lula tinha.”

Números

A dimensão do declínio do partido em 2016 pode ser medida por números simples. Das 26 capitais do país, elegeu apenas um candidato no primeiro turno, o atual prefeito de Rio Branco (AC), Marcus Alexandre, com 54,9% dos votos. O número de capitais conquistadas vem caindo desde 2004, o que indica que o partido demorou a fazer a chamada “autocrítica”. A principal aposta do PT em 2016 era a reeleição do prefeito Fernando Haddad. Mas, diante da avalanche conservadora pós-impeachment, nem o apoio de Lula foi suficiente para evitar a derrota para o tucano João Doria.

Em 2004, elegeu nove prefeitos em capitais. Em 2008, foram cinco e, em 2012, quatro. O partido só disputa mais uma capital, Recife, com o ex-prefeito João Paulo (PT), contra o atual prefeito, Geraldo Julio (PSB).

No cômputo geral, o PT elegeu 256 prefeitos no primeiro turno, contra 630 em 2012, e chegará, no máximo, a 263 municípios, se ganhar nos sete que ainda disputa. É uma enorme queda, que ficará entre 59,4% e 58,2%, dependendo do que conseguir no segundo turno, o que não deve ser muito.

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