Após as urnas

‘Vitória da direita é resultado da criminalização e desilusão com política’

Segundo Maria do Rosário, eleição 'consolida o ambiente político do golpe, mas a máscara pode cair rapidamente'; Jandira Feghali diz que eleitor 'respondeu positivamente à criminalização da esquerda'

Luis Macedo / Câmara dos Deputados
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Maria do Rosário: vários fatores podem influenciar reversão do pessimismo sobre reorganização da esquerda

São Paulo – Duas representantes aguerridas da esquerda brasileira, as deputadas federais Maria do Rosário (PT-RS) e Jandira Feghali (PCdoB-RJ) avaliam o Brasil pós-eleições municipais como um país desiludido com a política e cujo eleitorado referendou a proposta dos setores mais conservadores de criminalizar a esquerda. As cidades do Rio de Janeiro e Porto Alegre, duas das principais capitais do país, ilustram o quadro.

“O crescimento da direita se consolida, ao mesmo tempo em que o crescimento da desilusão com a política. É um fenômeno articulado. Esses dois aspectos são dois lados de um mesmo fenômeno”, diz Maria do Rosário. A própria capital gaúcha é um exemplo acabado do atual quadro. “Aqui em Porto Alegre, 63% dos eleitores não escolheram o prefeito eleito (Nelson Marchezan Jr., PSDB). Ou votaram no outro candidato (Sebastião Melo, PMDB), ou não compareceram, ou votaram branco ou nulo. O eleito teve só 37% dos votos da capital.” De 1.098.517 eleitores aptos a votar, Sebastião Melo obteve os votos de 402.165 deles.

Para Jandira Feghali, a eleição foi marcada por uma abstenção muito alta e reflete “um país onde a maioria disse ‘não’ e respondeu positivamente à criminalização da política, principalmente a criminalização da esquerda”. “É um Brasil que sai pior, fortaleceu forças que vão acentuar a retirada de direitos do próprio povo, e desafia mais a esquerda do que o Brasil de antes.”

A conta no Rio de Janeiro, segunda maior cidade do país, é muito semelhante à de Porto Alegre. De 4.898.044 eleitores aptos a exercer o direito ao voto, 3.198.014, ou 65,3%, não votaram em Marcelo Crivella (PRB), “a ponta de lança do projeto político da Igreja Universal”, segundo o jornal espanhol El País.

Diferentemente de Porto Alegre, porém, o Rio de Janeiro tinha um candidato de esquerda, Marcelo Freixo (Psol). Na opinião de Jandira, “a principal razão da derrota de Freixo foi a onda conservadora que varreu o Brasil inteiro, inclusive aqui no Rio”. Mas, para ela, a campanha do Psol cometeu “um erro importante” ao não incorporar os outros setores da esquerda no segundo turno.

“A esquerda não foi incorporada à campanha dele. A estratégia era nos esconder. Recusou a vinda do Lula, nos escondeu da campanha inteira, não nos chamou para nada, nem na televisão, nem nos comícios, nem para dar opinião, nem nas redes sociais, nem em lugar nenhum”, diz a deputada comunista. Para ela, o resultado eleitoral de Freixo em 2016 tem praticamente o mesmo perfil e a mesma votação proporcional de 2012. “Foi concentrada na zona Sul do Rio de Janeiro.”

Marcelo Freixo teve 1.163.662 votos, ou 40,64% dos votos válidos. Em 2012, Eduardo Paes (PMDB) foi reeleito no primeiro turno e Freixo chegou em segundo, com 914.082 votos (28,15%).

Rearticulação

Maria do Rosário não concorda com avaliações segundo as quais, após as derrotas de 2016, com o golpe que derrubou Dilma Rousseff e o péssimo desempenho nas eleições municipais, a esquerda vai demorar por volta de 20 anos para se reorganizar e voltar ao poder. “Acho que não é possível dar um prazo. Não consigo dizer um prazo no qual a esquerda vai conseguir se rearticular para ser uma alternativa de poder novamente no Brasil e ganhar eleições”, afirma.

“É fato que a vitória desses setores de direita e do PSDB consolida o ambiente político do golpe que deram no Congresso. Mas eu não creio que alguém possa dizer que vamos demorar cinco, dez ou vinte anos para rearticular a esquerda. As mudanças são muito rápidas também.”

Para ela, vários fatores podem influenciar uma reversão das expectativas mais pessimistas sobre a reorganização da esquerda. “Um deles é que esse governo Temer nasceu do golpe, consolida sua base eleitoral agora, nessas eleições, sem dúvida, mas está fazendo mudanças nefastas ao interesse do país muito rapidamente. Por um tempo eles ainda vão continuar enganando a população, mas a máscara com a qual eles se mostraram, contra a política, os ataque ao PT, pode cair rapidamente com essas medidas de tirar os direitos dos trabalhadores.”