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O verdadeiro golpe

Rogério Sottili: 'Sai o ser humano do centro da política, entram o capital e o lucro'

Para o ex-secretário nacional de Direitos Humanos, se confirmado, o impeachment trará ônus brutais com que o país terá de conviver durante muito tempo até recuperar sua legitimidade democrática
por Redação RBA publicado 29/08/2016 13h30, última modificação 29/08/2016 16h43
Para o ex-secretário nacional de Direitos Humanos, se confirmado, o impeachment trará ônus brutais com que o país terá de conviver durante muito tempo até recuperar sua legitimidade democrática
Wilson Dias / Abr
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Para Sottili, atual processo de impeachment 'rasga a Constituição'

São Paulo – Para o ex-secretário nacional de Direitos Humanos Rogério Sottili, o verdadeiro objetivo do processo de impeachment contra o mandato de Dilma Rousseff é a troca de um projeto que tem o ser humano no centro das políticas públicas, por outro que privilegia o capital e o lucro. "O caminho que o governo interino aponta é muito ruim para o país e para o povo brasileiro. É o caminho em que as políticas públicas não estarão mais voltadas para os mais vulneráveis, e sim o caminho da privatização, o fim da política para pequenos agricultores, o fim do pré-sal, o fim do Prouni, o fim do Minha Casa, Minha Vida, do programa Luz para Todos. São dois projetos: num está o ser humano no centro da política, no outro está o capital, os bancos, as grandes empresas e os lucros", afirmou Sottili.

Para ele, o dia de hoje, com a presidenta depondo no Senado, "é uma mistura de emoções e de entendimento sobre o que está acontecendo". Por um lado, diz sentir tristeza por assistir, depois de 50 anos, um "retrocesso inaceitável" da democracia, referindo ao golpe militar de 1964. "O que pode se configurar é um afastamento por meio de um golpe envolvendo o sistema de Justiça, o parlamento brasileiro, o setor privado – que já promoveu outros golpes –, um retrocesso que terá um ônus muito grande para a sociedade brasileira, não só por aquilo que ela já vinha conquistando do ponto de vista de direitos, mas também do ponto de vista da sinalização do que pode acontecer com o Brasil, sem respeito algum ao Estado de Direito, sinalizando que aqui é 'terra de ninguém', aqui você rasga a Constituição. Esta sinalização é brutal", pondera.

Sottili considera que o impeachment, se confirmado, é consequência de um processo ainda inacabado de reconquista da democracia, após o período de ditadura civil e militar vivido pelo país. "Talvez tudo isto seja a conta que estamos pagando por não termos revisto a Lei da Anistia, por não termos até hoje responsabilizado os autores do Golpe de 1964, os autores das mortes, das torturas, por termos promovido uma transição em que fica tudo como está. Isto tem um preço e este preço, estamos pagando hoje."

Apesar disso, Sottili acredita que o processo de impeachment despertou setores democráticos do país, como o movimento cultural e parte da sociedade civil. "São setores que começam a se manifestar e entenderam que o que está acontecendo é um golpe para derrubar um governo legítimo. Em se confirmando o golpe, se abre um novo processo, de resistência, de luta e de tentar recuperar a legitimidade democrática no Brasil. Essa é uma situação que talvez tenhamos que lidar daqui para frente e que pode impor aos movimentos sociais, sindical, cultural e a sociedade civil, uma grande mobilização", afirmou.