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Jean Wyllys: 'Câmara se transformou em uma arma apontada para a sociedade'

Deputado do Psol fez ontem (16), no grande expediente da Câmara, discurso de 21 minutos sobre o ataque à democracia. Para ele, o impeachment de Dilma é "um dos maiores crimes já perpetrados contra a democracia"
por Redação RBA publicado 17/08/2016 12h13
Deputado do Psol fez ontem (16), no grande expediente da Câmara, discurso de 21 minutos sobre o ataque à democracia. Para ele, o impeachment de Dilma é "um dos maiores crimes já perpetrados contra a democracia"
Luis Macedo/Câmara dos Deputados
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Jean Wyllys: "Maioria desse Congresso legisla em benefício dos interesses dos financiadores de campanha"

São Paulo – O deputado Jean Wyllys (Psol-RJ) tomou a palavra ontem (16) na sessão de grande expediente da Câmara dos Deputados, na presença de pouquíssimos parlamentares, para fazer um discurso marcante sobre o ataque à democracia em vigor no país depois do afastamento da presidenta Dilma Rousseff, há quase 100 dias. "Boa parte do parlamento hoje trabalha para abolir os princípios que dão sentido à sua própria existência: a existência da Câmara Federal. Está se transformando, dessa forma, em uma perigosa arma apontada para a sociedade que nos elegeu para representá-la", disse.

Para o parlamentar, a votação favorável ao processo de impeachment foi "um dos maiores crimes já perpetrados contra democracia na sua história". "Nos próximos dois anos, pelo menos, o Brasil será presidido ilegitimamente por um conspirador que o povo não elegeu e que se concorresse para um cargo na eleição democrática e livre, jamais chegaria a ter sequer 5% dos votos".

"A maioria desse Congresso legisla em benefício dos interesses dos financiadores de campanha, das corporações políticas e econômicas, das igrejas de alguns parlamentares e dos interesses deles próprios", denuncia Jean, que diz ter vergonha da Casa.

Leia um trecho do discurso do parlamentar:

Precisamos falar de democracia, uma das principais funções desse parlamento deveria ser, e eu digo “deveria”, porque na prática não é isso que vem acontecendo. Então, deveria ser a defesa da democracia. Não apenas como sistema político como forma de eleição das autoridades e de decisão dos assuntos públicos, mas, principalmente, como forma de vida. A democracia é muito mais que uma eleição a cada dois anos e nem está sendo respeitada, quando este parlamento decide passar por cima de 54 milhões de votos.

A democracia é muito mais do que um sistema de representação e nem isso está acontecendo quando este parlamento legislar em favor de interesses particulares, dos parlamentares, de suas igrejas, seus financiadores de campanha e suas corporações, esquecendo os interesses e as necessidades do povo brasileiro.

(...)

Eu digo que precisamos falar sobre democracia porque nos últimos tempos boa parte desse parlamento, longe de cumprir sua função de defender a democracia, tem se transformado no principal obstáculo para sua existência. Eu nunca senti tanta vergonha de conviver com boa parte dessa Câmara, como senti no último ano, quando esse processo de desrespeito à democracia, que vem de longe, foi radicalizado de forma perversa e assustadora. Boa parte desse parlamento se transformou em inimigo da democracia, tanto no que diz respeito aos pressupostos formais mínimos necessários para a sua existência, quanto em relação às questões mais profundas. Nossa agenda política está cada dia mais pautada pela abolição da democracia em todas as suas formas, em todas as suas consequências políticas, sociais e culturais e em todas as ordens da vida pública e privada. É uma absoluta e imperdoável inversão de valores.

Boa parte do parlamento hoje trabalha para abolir os princípios que dão sentido à sua própria existência: a existência da Câmara Federal. Está se transformando, dessa forma, em uma perigosa arma apontada para a sociedade que nos elegeu para representá-la.

Precisamos falar de democracia, precisamos mesmo. A maioria desse parlamento cometeu em 2016 um dos maiores crimes já perpetrados contra a democracia na sua história. Ignorando a Constituição, as leis da república e, sobretudo, ignorando o resultado das últimas eleições, a maioria desse parlamento deu um golpe de Estado, que cassou 54 milhões de votos e suspendeu a presidenta eleita Dilma Rousseff.

Nos próximos dias, provavelmente, ela será afastada de maneira definitiva do cargo para o qual foi eleita pelo povo. Nos próximos dois anos, pelo menos, o Brasil será presidido ilegitimamente por um conspirador que o povo não elegeu e que, se concorresse para um cargo na eleição democrática e livre, jamais chegaria a ter sequer 5% dos votos. Ele governará, como já começou a fazer, com o ministério integrado nos cargos mais relevantes por dirigentes dos partidos que perderam as quatro últimas eleições presidenciais. Aliás, um ministério sem mulheres, sem negros, sem representantes da classe trabalhadora, sem a diversidade da sociedade brasileira. Um ministério de homens, todos eles brancos ricos, héteros, cristãos, conservadores e golpistas.

Hoje, temos um governo sem voto que está aprofundando o programa de reformas antidemocráticas, um programa que se tivesse sido apresentado ao povo brasileiro, jamais permitiria nenhum candidato ganhar uma eleição. Todos nós sabemos disso. Ninguém venceria uma eleição propondo aos eleitores o que Michel Temer quer fazer com o nosso país. O retrocesso que está em marcha só poderia ser feito através de um golpe, por isso não se trata apenas da destituição injusta, conspiratória, golpista, inconstitucional de uma presidenta eleita, trata-se da imposição de um plano de governo que não foi votado por ninguém.

O vice-presidente que assumiu o governo interino acompanhou não apenas a chapa da presidente deposta, como também um programa com o qual ela concorreu, que nada tem a ver com essa ponte para o passado, porque o que ele propõe não é a ponte para o futuro, mas uma ponte para o passado. Contudo, sem sombra de dúvidas, o golpista Michel Temer tornará pública a pior parte do seu pacote de maldades, quando o Senado confirmar sua posse, uma espécie de eleição indireta. Quando esse pacote de maldades for apresentado para a sociedade, a abolição da democracia será aprofundada.

(...)

A maioria deste congresso tenta abolir direitos e restringe liberdades. A maior parte deste congresso trabalha para destruir a legislação trabalhista para aprofundar a desigualdade econômica e social, para reduzir os controles ambientais, para prejudicar os mais pobres e para aumentar o estado penal, e atacar de forma cada vez mais raivosa os direitos das mulheres e da população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais.

Como eu sei que não terei avanço legislativo, eu opto por dialogar com a sociedade, criando espaços políticos. Faço isso porque a democracia precisa de nós, daqueles e daquelas que acreditamos de verdade nela, para propor uma agenda para o presente... para que os direitos das pessoas comecem a valer mais do que os interesses dos poderosos, para que a liberdade se imponha sobre o autoritarismo e o dogmatismo. Para que a democracia derrote os golpes e as manobras palacianas.

Esse dia vai chegar apesar de Temer, apesar de Cunha e de todos os golpistas, como canta Chico Buarque naquela música que voltou a ser atual e com a qual eu encerro a minha fala.

Apesar de você, Temer. Apesar de vocês, golpistas. Amanhã há de ser outro dia, ainda pago para ver o jardim florescer qual vocês não queriam. Vocês vão amargar, vendo o dia raiar sem lhes pedir licença e eu vou morrer de rir que esse dia há de vir antes do que vocês pensam.

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