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Golpe

Maria do Rosário: 'Transformaram o plenário em colégio eleitoral pior que na ditadura'

Deputada lembra que parlamentares sequer apreciaram questão jurídica na votação, e professora Maria Victoria Benevides viu a sessão com "horror": "Pior momento foi Jair Bolsonaro citando um torturador"
por Eduardo Maretti, da RBA publicado 17/04/2016 23h43, última modificação 18/04/2016 00h08
Deputada lembra que parlamentares sequer apreciaram questão jurídica na votação, e professora Maria Victoria Benevides viu a sessão com "horror": "Pior momento foi Jair Bolsonaro citando um torturador"
twitter / arquivo pessoal
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A deputada Maria do Rosário, durante votação do impeachment na Câmara: 'triste espetáculo'

São Paulo – Com o voto do deputado Bruno Araújo (PSDB-PE), às 23h07 deste domingo (17), a Câmara dos Deputados chegou aos 342 votos necessários para a Casa autorizar a abertura do processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff. Para a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), o "triste" episódio é apenas "a primeira etapa".

"Estamos tratando isso aqui como a primeira etapa. Uma triste etapa, mas uma primeira etapa. É uma hipocrisia essa sessão dirigida por Eduardo Cunha para cassar a presidenta Dilma. As pessoas alegaram argumentos pessoais,  religiosos, de família. A questão jurídica não está aqui neste Plenário", disse à RBA, quando a votação estava ainda em andamento, mas praticamente definida.

"O que está aqui é o oportunismo. Transformaram este Plenário num colégio eleitoral para Michel Temer. É pior do que o colégio eleitoral da ditadura, porque é um colégio eleitoral de candidatura única, a de Temer."

A historiadora Maria Victoria Benevides afirma que viu a sessão da Câmara "com horror total". "Não apenas pela quantidade de votos no impeachment, mas também os motivos que alegaram. Falaram em decência, em 'me olhar no espelho', em consciência, em 'olhar para os meus filhos', defendendo o impeachment e entregando a decisão para corruptos como o presidente da Casa. Isso é um acinte a todos nós, diz.

Para ela, nesse espetáculo de "horror", "o pior momento foi Jair Bolsonaro citando um torturador, e, pior, falando 'em nome' dele (Carlos Alberto Brilhante Ustra). Isso foi absurdo. Foi um espetáculo doloroso. Falaram de filho, de mãe, de neto e tudo em nome da democracia e da decência", diz Maria Victoria. Para ela,  Bolsonaro ter sido aplaudido e abraçado foi uma "patada dolorosa".

Em sua conta no Twitter, o deputado Chico Alencar (Psol-RJ) comentou: "Não pode ser normal um parlamentar eleito exaltar um torturador símbolo de um regime de exceção. Ditadura nunca mais!", escreveu, ainda durante a sessão. "Para quem tinha dúvidas, esta sessão está sendo exemplar. Mas nem eu sabia que o nível político era tão baixo, que a demagogia era tão galopante."

A historiadora disse que não tinha "nenhum otimismo" a respeito do resultado. "Mas não esperava essa diferença. Eu estou muito mal impressionada. Felizmente houve votos valorosos, como aqueles que reclamaram da situação penal do presidente como ilegítimo para conduzir o processo ", lembra Maria Victoria.

No momento de seu voto, o deputado Glauber Braga (Psol-RJ) dirigiu a palavra ao presidente da Câmara: "Eduardo Cunha, você é um gângster. O que te dá sustentação nessa cadeira cheira a enxôfre", afirmou, numa sessão em que dezenas de deputados dedicaram o voto pelo impeachment a Deus.

"Essa Câmara tem um lado podre muito forte. Mas é daqui para a frente que a gente vai ter que pensar em propostas muito sérias para o que virá, tanto na economia como no sistema político", avalia Maria Victoria.

STF

A professora comentou ainda o posicionamento do Supremo Tribunal Federal, que na quinta-feira (14) chancelou os procedimentos de Eduardo Cunha quanto à ordem de votação e rejeitou as alegações da Advocacia-Geral da União (AGU), a qual alegou que o relatório de Jovair Arantes (PTB-GO) desrespeitou o direito à ampla defesa de Dilma flagrantemente.

"Há muito tempo eu não confio no STF. Acho que o STF está sendo muito influenciado por gente da pior espécie, como Gilmar Mendes, a quem, aliás, se agregou o Dias Toffoli. O STF dificilmente tomaria uma atitude de acordo com a sua obrigação constitucional."

Maria do Rosário não quis comentar as decisões do Supremo. "Só lamento ele ter permitido Eduardo Cunha estar presidindo esta sessão."