Clima conturbado

Mudanças de posição sobre impeachment surpreendem governo e oposição

Dia foi de rearticulação depois de votação do relatório na comissão especial. PP disse que sai do governo, mas parte dos deputados deve votar contra afastamento da presidenta

Lula Marques/Agência PT/fotos públicas
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Aperto: defensores do impeachment e os contrários se confrontaram durante sessão de votação do relatório

Brasília – Depois da aprovação do relatório sobre o impeachment na comissão especial, ontem (11), a terça-feira foi um dia de recontagem de votos entre as bancadas na Câmara dos Deputados, buscando um cálculo o mais real possível sobre o resultado da votação, tanto por parte do governo como da oposição. Apesar dos prognósticos de que, se a votação fosse hoje, a base aliada venceria com pequena margem de votos, ninguém se arrisca a fazer apostas. Contribui para esse clima de indefinição o comportamento de partidos como PMDB e PP – que comunicou durante a tarde sua saída do governo, embora haja deputados dizendo fiéis ao Executivo.

Na comissão especial, o PP, por meio de seu representante, Aguinaldo Ribeiro (PB), anunciou que liberava a bancada para votar como bem entendesse. Mas os deputados mudaram o rumo das conversas com o Palácio do Planalto, e a legenda anunciou nesta terça que está saindo da base aliada e que votará pelo impeachment de Dilma – o que provoca mais preocupação do Executo, nas negociações com os parlamentares de diversos partidos.

Mesmo com as duas siglas anunciando o desembarque do governo, nem todos os deputados votarão pelo impeachment. Mas a situação de dúvidas cria problemas para o Palácio do Planalto e também para os cálculos da oposição. Por parte do PMDB, a situação considerada negativa para o governo foi o anúncio feito ontem pelo líder da sigla na Câmara, Leonardo Picciani (RJ), liberando a bancada para votar da forma como quiser, até uma decisão oficial da executiva nacional.

No final desta tarde, os deputados peemedebistas se reuniram outra vez para redefinir a questão, mas o tema terminou adiado em função de um novo encontro marcado pelo presidente nacional do partido, senador Romero Jucá (RR), para quinta-feira (14). Eles vão decidir se haverá questão fechada sobre o assunto ou não, mas, de qualquer forma, a iniciativa de Picciani frustrou ministros da articulação política que esperavam mais discrição por parte do líder, para conseguir maior número de votos dos peemedebistas.

Picciani tem dito, há semanas, que dos 77 votos de deputados do PMDB pelo menos 27 votarão contra o impeachment de Dilma Rousseff. Muitos parlamentares da oposição dizem que esses votos não chegarão a 10. Para reforçar o número, três ministros da legenda que ocupam cargos no governo vão se licenciar a partir dos próximos dias para votar em apoio à presidenta: Marcelo Castro (Saúde), Celso Pansera (Ciência e Tecnologia) e Mauro Lopes (Aviação Civil).

Divergências

No PR, outro partido que apresenta divisão entre os deputados,  o líder que  assumiu hoje, Aelton Freitas (MG), disse que os deputados da legenda são contrários ao impeachment e que a maioria da bancada votará em apoio à presidenta Dilma e contra o seu afastamento. Mas as divergências são grandes dentro da sigla e a conquista de votos por parte dos líderes da base aliada e por representantes do Palácio do Planalto – além das articulações, também, por parte dos oposicionistas – são pelos votos de cada deputado, um por um. O PR tem bancada formada por 40 deputados. Destes, o líder diz que 28 votam contra o impeachment.

Ninguém aposta, porém, nesse resultado com certeza antes do domingo. Em nota oficial divulgada hoje, o partido diz que tem intenção de “confirmar ampla maioria contra o impeachment na votação”.

Para completar esse quadro, o PRB decidiu, após nova reunião também hoje, que todos os seus deputados vão votar a favor do impeachment. Até ontem, o PRB – que já tinha anunciado há mais de um mês a saída da base aliada – contava com quatro parlamentares que diziam estar indecisos quanto à forma como iriam se posicionar durante a votação.

Indecisos

Com tantas surpresas, e a perspectiva de outras a cada dia, a tentativa agora é de busca por apoios entre os partidos pequenos e médios. “Nosso foco é tentar conquistar os indecisos de legendas como PP, PR e PSD, mesmo diante de posicionamentos oficiais das suas executivas”, afirmou o líder do PT na Casa, Afonso Florence (BA).

“O jogo é duro, mas vamos ganhar domingo na Câmara dos Deputados e encerrar, de uma vez por todas, mais este turno das eleições de 2014. Espero que desta vez respeitem o resultado”, afirmou, em tom de ironia, o ministro Celso Pansera (PMDB-RJ). Ele é um dos parlamentares que preferiram ficar com o governo, em vez de seguir a decisão da executiva nacional do partido.

Por parte da oposição, os discursos não são tão claros em termos de votos e siglas, mas os deputados também não dão o braço a torcer. “O resultado vai ser o impeachment. Nossas contas são favoráveis e a cada dia aumenta o número de parlamentares que vem nos procurar para dizer que estão conosco”, afirmou Bruno Araújo (PSDB-PE).

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