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Discursos durante ato em São Paulo enfatizam a tentativa de golpe

Publicado por Helder Lima, da RBA
18:28
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São Paulo – “Estamos sofrendo uma doença semelhante à que acometeu o país em 1964”, disse ontem (16) o jurista Fábio Konder Comparato no ato em defesa da legalidade democrática, no Teatro Universidade Católica de São Paulo (Tuca). “É melhor morrer em pé do que acoelhado”, enfatizou o economista Luiz Gonzaga Belluzzo frente às ameaças de golpe.

“Essa mulher é uma sobrevivente, foi duramente torturada. Seja quais forem as críticas a ela, ela é uma batalhadora e empenhou sua juventude no porões da ditadura para defender a democracia”, afirmou o jurista Celso Antônio Bandeira de Mello sobre a presidenta Dilma Rousseff. “Temos de conversar com os nossos vizinhos, temos de ganhar gente que está dividida”, destacou como estratégia de lua a psicanalista e membro da Comissão Nacional da Verdade Maria Rita Kehl.

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Jurista Fábio Konder Comparato:

“Estamos sofrendo uma doença semelhante à que acometeu o país em 1964. A crise que estamos vivendo hoje tem duas causas. Uma é a situação econômica, que é periclitante e reflexo da crise mundial. A China no ano passado teve o menor crescimento dos últimos 25 anos e o Brasil recuou ,3,8% (PIB). Aqui no Brasil o capitalismo industrial está se transformando em capitalismo financeiro. Os bancos ganham rios de dinheiro com a especulação financeira. Além disso, há o impacto da tecnologia, a robotização na China e milhões de empregados ficam ao Deus-dará.

O outro fator é a crise política. Lula foi o primeiro da classe proletária que assumiu a chefia de Estado em toda a história e agora é acusado de corrupção. Em 1997, o então presidente FHC estava no fim do primeiro mandato e chamou seu grande auxiliar Sérgio Motta, que comprou grande parte do Congresso para mudar a Constituição e permitir a reeleição de FHC. Isto foi aceito no país do futebol. Quebraram a Constituição em 1997 e não houve reação.

Agora, a causa mais profunda da crise é a decadência da civilização capitalista. Perto de 1% das pessoas no mundo possuem metade da riqueza mundial. No Brasil, as classes A e B são 18,6% da população e concentram 64% da massa total de renda no país.

Não tenha ilusão, trata-se de um trabalho de longo prazo. É preciso unir movimentos, sindicatos, grupos sociais e religiosos no combate ao capitalismo para deslegitimar a dominação das classes oligárquicas. Esses grupos ligados com agentes estatais impõe a necessidade de educação política para o povo exercer a democracia e isso se faz pela mídia. Mas 90 redes de rádio e tevê pertencem a seis famílias no Brasil.

Também é preciso reduzir a desigualdade socioeconômica. A nossa revolução tem de ser ética. É preciso renunciar ao egoísmo que é a marca registrada da sociedade capitalista e ensinar a juventude a viver de maneira altruísta, e ter compaixão, porque é só isso o que nos dá felicidade.”

Luiz Gonzaga Belluzzo:

“Só quem perde a democracia sabe valorizar, e eu a perdi aos 21 anos. Trabalhei 19 anos com Ulisses Guimarães, ele era um liberal, um político raro. Lula fundou o PT e eu continuei no MDB de Ulisses. Mas é muito dolorosa a perda da democracia. E digo isso como quem abandonou o Direito e virou economista. Não sei porque fiz isso, mas é uma coisa pela qual eu tenho cada vez mais desprezo. Agora, os economistas acham que são cientistas, mas são armas de destruição em massa. É melhor morrer em pé do que acoelhado.”

Celso Antônio Bandeira de Mello:

“É uma honra e uma alegria estar aqui, vendo que a minha faculdade, da qual hoje sou professor emérito, lutar pela democracia e defesa dos direitos. É uma tradição da nossa faculdade. Tivemos de enfrentar momentos piores do que os atuais. O maior inimigo do povo brasileiro é a imprensa golpista (Nesse momento, Bandeira de Mello é interrompido pelo público, em coro: “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura…”). Tudo vem dos meios de comunicação e eu reconheço a eficiência. Mas a Folha de S.Paulo é um jornal que não merece que a gente leia. Esse tipo de gente nos intoxica diariamente. Todo dia uma campanha contra Dilma. Essa mulher é uma sobrevivente, foi duramente torturada. Sejam quais forem as críticas a ela, ela é uma batalhadora e empenhou sua juventude no porões da ditadura para defender a democracia. Ela deu sangue e não foi metaforicamente. E quem agora está sendo atacado é o primeiro chefe de Estado que cuidou do bem-estar do povo. A Constituição é para criarmos uma sociedade livre, justa e solidária. Qualquer estudante de Direito sabe que não se pode conduzir uma pessoa coercitivamente a não ser que haja resistência. O Moro cabulou aula nesse dia. Não leu os princípios de razoabilidade, é uma violação ao Direito. E o que o Judiciário faz frente à violação do juiz do Paraná? Por que esse homem faz isso?

A primeira qualidade de um magistrado é a imparcialidade. O magistrado é um ser equânime. Mas aqui se usa métodos medievais para obter confissão. O STF já chamou a atenção para isso. ‘Ou delata ou fica na cadeia’ – a delação é uma característica aceita na sociedade norte-americana, mas no Brasil a gente aprende de modo diferente, porque o dedo-duro é alguém que ninguém respeita. O dedo-duro é um traidor. Tomar a palavra de um traidor como regra depõe contra o senso de dignidade do brasileiro. O dedo-duro não merece ter amigos, ele representa a corrupção oficial da dignidade do brasileiro. É péssimo o momento que estamos vivendo. São coisas que nunca tínhamos visto. Temos de nos insurgir contra a delação premiada. Todo dia o golpe está sendo preparado.”

Maria Rita Kehl:

“Este espaço do Tuca é pequeno se considerarmos as forças da reação que temos de enfrentar com inteligência. Este é um espaço de reconhecimento entre nós. Encontramos aqui as pessoas que estão na luta há muito tempo, desde o tempo da ditadura. O que está em jogo, como sempre, é a luta de classes. É muito alentador ver que há uma reação. No momento de crise não são os empresários que perdem, mas as pessoas. A gestão do PT no governo é fundamental neste momento de crise para manter os direitos. A crise internacional vem avançando, e os partidos como o PT são considerados como os que inventaram a crise. Mas entre os polos dessa crise tem muita gente confusa e desinformada. Temos de conversar com os nossos vizinhos, temos de ganhar gente que está dividida.”