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Pela legalidade

'Farsa é ver acusados de corrupção querendo derrubar a presidenta', diz diretor teatral

Aderbal Freire Filho esteve entre artistas, cientistas, sociólogos, escritores, cineastas e intelectuais que entregaram 21 manifestos de solidariedade ao mandato de Dilma
por Hylda Cavalcanti, da RBA publicado 31/03/2016 15h47, última modificação 31/03/2016 16h29
Aderbal Freire Filho esteve entre artistas, cientistas, sociólogos, escritores, cineastas e intelectuais que entregaram 21 manifestos de solidariedade ao mandato de Dilma
Lula Marques/ Agência PT
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Ao lado de Dilma, a atriz Letícia Sabatella disse estar presente para "clamar por realidade"

Brasília – Coube ao diretor teatral Aderbal Freire Filho fazer a melhor comparação hoje (31) entre a política e o mundo artístico do país, durante solenidade na qual artistas, escritores e intelectuais entregaram 21 manifestos à presidenta Dilma Rousseff, pela legalidade democrática e contra o seu impeachment. Segundo ele, há tempos se usam metáforas teatrais para descrever os movimentos políticos, como “protagonismo” de determinados partidos, “cena” política ou afirmando que “tal deputado está fazendo teatro”. Mas neste momento, a seu ver, o que está sendo usado em gênero teatral é “a farsa”.

De acordo com Aderbal Freire Filho, enquanto editoriais de grandes veículos chamam de farsa o discurso de que o que está em curso é o golpe, a farsa é exatamente o contrário. “A farsa que estamos vendo é quando personagens rotundos, fanfarrões, empurrados até o pescoço em corrupção, pedem o impeachment da presidenta sem qualquer crime contra ela. Estamos assistindo a uma farsa e digo mais, a uma comédia de costumes que poderia se chamar ‘os virtuosos ridículos’”, afirmou.

O diretor criticou a manipulação da mídia e de grupos que querem a saída da presidenta a qualquer custo. Ressaltou que as tentativas de explicar que impeachment está previsto na Constituição Federal não estão erradas e, de fato, não se constitui em golpe. Mas é preciso entender que impeachment sem crime cometido, aí sim, é golpe. “Fazemos parte de uma geração do teatro brasileiro que foi amordaçada pelo golpe de 1964 e não queremos que isso se repita no país, tenha o nome que tiver, seja 'golpe' ou 'revolução militar', como muitos chamaram naqueles tempos”, acrescentou.

'Clamor por realidade'

Também chamou muita atenção no evento, que contou com a participação de vários ministros do Executivo e parlamentares, o discurso da atriz Letícia Sabatella. “Vim aqui clamar por realidade”, disse ela.

“A vida não é uma novela, não é um reality show editado. Vim aqui clamar por democracia, porque nossa democracia é nova, neocoronelista. Sou oposição ao seu governo, presidenta, mas pertenço a um Estado que tem de preservar a democracia e a liberdade. O que estamos vendo é um golpe maquiavélico de pessoas que querem tirar a senhora do poder na marra. Tirar, não por erros que tenham sido cometidos, mas pelos seus acertos”, destacou, ainda, a atriz.

Letícia afirmou que tem “sérias restrições” ao atual governo. “Confesso isso, mas entendo que há boicote a uma transformação social verdadeira no país. Uma vez que demos um grande passo no sentido de garantir mais inclusão social e reduzir as desigualdades, não podemos agora andar para trás”, ressaltou.

A cineasta Ana Muylaert, diretora do filme premiado Que Horas Ela Volta, que traduz a realidade de uma empregada doméstica e a filha universitária na forma de conviver com a família formada pelos seus patrões, foi a escolhida para entregar o principal manifesto à presidenta e falar em nome dos cineastas. Ana lembrou que em março de 2010, esteve no mesmo Palácio do Planalto para participar de um jantar com a presidenta e outras cineastas, no qual Dilma lhes falou sobre a importância de elas mostrarem o ponto de vista das mulheres nos filmes.

“Agora estou aqui para me solidarizar com a presidenta e dizer que encontrei, ao longo do ano, várias pessoas me abraçando e dizendo ‘eu sou Jéssica’(numa referência à principal personagem do seu filme, que conseguiu chegar à faculdade por conta das políticas de inclusão social). E isso é possível por causa do trabalho desenvolvido por este governo, pelo governo anterior da presidenta e pelos dois governos do ex-presidente Lula.”

'Presidenta, resista'

O neurocientista Miguel Nicolelis, que se manifestou por meio de um vídeo, disse que os tempos são de rompimento de questões éticas, truculência, arbitrariedade e violência.

“Sou um brasileiro que viu o país dos seus sonhos começar a ser realizado apenas nos últimos 13, 14 anos. Foi quando investimos na educação e na promoção de programas voltados para a inclusão social. O que está acontecendo aqui, o mundo inteiro sabe e está acompanhando, é uma tentativa de retirar do cargo uma presidenta, por meio de iniciativas que foram iniciadas já no primeiro dia em que ela ganhou a eleição. O recado que tenho a passar é: 'presidenta, resista, porque a senhora não está sozinha. Resista por todos os brasileiros e, principalmente, pelo princípio de que golpes são coisas do passado”, afirmou Nicolelis.

No total, foram entregues manifestos de 21 grupos de artistas, cineastas, escritores, intelectuais, professores, antropólogos, profissionais de artes cênicas, sociólogos, psicólogos, cientistas e cientistas políticos, entre outros profissionais. Da sambista Beth Carvalho, aos atores Antonio Pitanga, Tássia Camargo, Elisa Lucinda, Marcos Prado, Sérgio Mamberti e o escritor Fernando Morais, entre vários outros. Até o ator norte-americano Danny Glover mandou uma mensagem, por vídeo, de solidariedade à presidenta.

Dilma Rousseff, ao agradecer todos os manifestos e o movimento dos artistas e intelectuais, afirmou que todos da sua geração aprenderam a lutar pela democracia da pior forma possível, que foi dentro de um presídio vendo as pessoas sofrerem. E, além dessa forma, muitos outros brasileiros também lutaram dentro das universidades, dentro de sindicatos, empresas e em outros locais, motivo pelo qual ela sabe da força dos brasileiros para combater esta nova tentativa contra a democracia.

“Nós lutamos para ter uma democracia que tivesse muita densidade, que fosse capaz de garantir a estabilidade da economia, que ajudasse a combater as desigualdades no nosso país. Estamos fortes porque sabemos que ninguém que trabalha, cuida da família e é cidadão pode ser muito frágil”, disse.

A presidenta também aproveitou para passar um recado aos adversários e aliados de que o governo, segundo ela, está levando adiante seu trabalho, mesmo em tempos tão difíceis.

“Não estamos parados como muitos dizem, mas precisamos de estabilidade política no país e do fim desse processo todo. É muito grave quando uma médica se recusa a tratar uma criança porque a mãe pertence ao PT. Este país nunca teve esse lado fascista. Sabemos que há horas em que há um fundamentalismo, mas o que está acontecendo é uma estigmatização forte contra pessoas que pensam de forma diferente. E isso não pode mais acontecer”, frisou.

Dilma disse ainda que os brasileiros precisam resolver a questão do impeachment logo, porque o Brasil não pode ser cindido em duas partes. “Temos de lutar para superar esse momento político, voltar a crescer e criar um clima de união. Fazer dessa fase nova não a consolidação de um golpe, mas a retomada do crescimento e da reconstrução.”