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Manifestações

Briga entre MBL e MTST em frente ao Congresso reflete antagonismo entre Brasis

Movimentos trocaram gritos, tapas e bofetões, num episódio que mostrou bem as contradições e sectarismos à flor da pele observados nos últimos meses pelas ruas do país
por Hylda Cavalcanti, da RBA publicado 31/10/2015 17h07, última modificação 31/10/2015 19h28
Movimentos trocaram gritos, tapas e bofetões, num episódio que mostrou bem as contradições e sectarismos à flor da pele observados nos últimos meses pelas ruas do país
Fábio R. Pozzebom / ABr
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Despreparo para a prática democrática marcou a reação do MBL à chegada de manifestantes do MTST

Brasília – Poucas vezes dois Brasis puderam ser tão bem definidos como numa discussão observada no gramado do Congresso Nacional, na última quarta-feira (28). De um lado, barracas de camping bem arrumadas e estudantes da classe média abrigavam manifestantes do Movimento Brasil Livre (MBL) com camisetas que estampavam fotos de roqueiros e jeans arrumadinhos. Do outro, integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), em camisetas vermelhas, muitos com calças rasgadas e ferramentas improvisadas, que utilizam na tentativa de erguer barracas com pedaços de madeira e panos velhos.

Nunca estes grupos estiveram tão próximos, chegando, segundo relatos, a parecer misturar-se. Nunca, ao mesmo tempo, destoaram tanto em seus protestos. Os primeiros estão acampados lá desde a semana passada, imaginando pressionar o Congresso a tocar adiante o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Afirmam que vão demorar a sair. São cerca de 60 pessoas – em 50 barracas–, em sua maior parte paulistas, lideradas pelo estudante Kim Kataguiri, coordenador do MBL. Os segundos, cerca de cem pessoas, vieram da região administrativa de Samambaia, no Distrito Federal, em quatro ônibus.

Conforme contaram os membros do MBL, eles têm usado banheiros dos ministérios e sofrido com o clima seco de Brasília desde que chegaram. As mazelas, porém, têm sido compensadas por fartas refeições oferecidas por apoiadores do impeachment residentes na capital federal.

Já entre os do MTST, a estadia foi de um único dia e teve, como intuito, pressionar o Senado a rejeitar o projeto que tipifica o crime de terrorismo (e terminou sendo aprovado), pela compreensão de que a matéria cria brechas para impedir a manifestação de movimentos sociais. Eles levaram o próprio lanche que, disseram, foi insuficiente para alimentar a todos os presentes.

Quebra de regras

Tudo deveria ser um simples exercício da prática democrática em frente ao Congresso Nacional, com direito a gritos e palavras de ordem expressando opiniões sempre antagônicas entre si. Porém, mais uma vez a democracia foi desrespeitada. Integrantes do MBL tentaram impedir os do MTST de acampar no mesmo local.

Na prática, nenhum dos dois grupos estava com a razão. Desde 2001 o gramado do Congresso Nacional é uma área proibida para manifestações, com a justificativa de preservar o espaço, mas também para impedir que protestos e manifestações populares "extrapolem",  chegando próximos demais dos plenários dos senadores e deputados. A determinação consta em ato assinado pelos presidentes da Câmara, o então deputado Aécio Neves (PSDB-MG), e do Senado, Edison Lobão (PMDB-MA).

Naquela quarta-feira, ao ver a chegada do MTST, o pessoal do MBL passou a afirmar que o atual presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), os tinha autorizado pessoalmente a ficarem lá. Uma das coordenadoras do MTST , Ulianne Costa, rebateu de pronto: "Queremos saber direitinho porque vocês podem ficar aqui e a gente, não."

O conflito virou mais que ideológico. O MBL passou a acusar os manifestantes do MTST de estarem querendo desmobilizá-los numa ação contra o pedido de impeachment de Dilma. “Não é nada disso. Não estamos aqui por causa de vocês ou por essa manifestação. Nosso objetivo é acompanhar a votação do projeto sobre a lei antiterrorismo”, replicou Ulianne.

Segundo a reportagem do site Congresso Em Foco, o grupo do MTST perguntou, antes, se poderia ficar. E foi autorizado por policiais da segurança legislativa que, sem muita orientação a respeito, não viram motivos para, ao liberar o local para um movimento, impedir o acesso ao outro. Foi o que bastava.

Uma sucessão de gritos, empurrões, tentativas de agressões mais sérias e troca de tapas chamou a atenção de jornalistas e assessores parlamentares que foram até o local.

A briga foi amenizada com a atitude de um dos integrantes do MTST, que resolveu montar o acampamento atrás da área onde estavam os estudantes, estabelecendo uma espécie de linha imaginária separando os movimentos. A chuva, que caiu logo depois, pareceu ter ajudado a esfriar a temperatura entre os manifestantes.

Linha imaginária

"Coxinhas, burguesinhos de m...., filhinhos do papai", gritava o MTST. "Elho, elho, elho, nunca vamos ser vermelhos", devolvia o MBL. Assim seguiram os dois acampamentos pelo restante do dia, até os ônibus do MTST virem buscar os manifestantes do movimento. À repórter Grasielle Castro do Brasil Post, um dos líderes do MTST, Eduardo Borges, reclamou: "Isso é uma vergonha! Que arquiteto dividiu o gramado em uma linha imaginária? De um lado ficam os senhores de engenho e do outro os escravos, no Brasil sempre foi assim."

Em uma nota, o MTST reiterou que recebeu, de fato, autorização dos policiais para ficar no local. E destacou que reagiu porque pessoas do movimento foram agredidas. "Reagimos como deve se reagir com fascistas. É o velho preconceito da elite, que quer construir a ideia de que as mobilizações do povo pobre são motivadas por interesses menores. O gramado do Congresso não é propriedade dos 'coxinhas'!", enfatiza a nota.

O advogado do MBL, Rubens Nunes Filho, afirmou que um dos líderes do movimento, Renan Santos, teria sido atingido três vezes por um espeto na região das costas. O episódio, que acabou sem que fossem registradas prisões e agressões mais sérias, refletiu, num único dia e num pequeno espaço em frente ao centro do Poder Legislativo, as divisões e reações populares que têm sido observadas cotidianamente nas ruas do país.