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Manifestante paulista tem boa renda e instrução, mas é seletivo contra a corrupção

Mensalão petista é considerado grave por 99%, assim como a corrupção na Petrobras. Operação Zelotes, que investiga sonegação por grandes empresas e milionários, é considerada grave por apenas 58,8%
por Rodrigo Gomes, da RBA publicado 18/08/2015 18h41, última modificação 19/08/2015 11h09
Mensalão petista é considerado grave por 99%, assim como a corrupção na Petrobras. Operação Zelotes, que investiga sonegação por grandes empresas e milionários, é considerada grave por apenas 58,8%
Marcia Minillo/RBA
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Embora peçam o fim da corrupção, manifestantes têm tolerância que varia de acordo com os investigados

São Paulo – Manifestantes que foram à Avenida Paulista, em São Paulo, no domingo (16), pedir o impeachment da presidenta Dilma Rousseff têm percepção diferenciada quando questionados a respeito da gravidade dos esquemas de corrupção denunciados no país. Pesquisa realizada por professores da USP e da Unifesp na manifestação mostra que os antipetistas misturam ideias antidemocráticas com outras que aprofundariam a democracia, ao pensar em soluções para o momento do país.

O mensalão petista é considerado grave por 99% dos manifestantes, mesma avaliação da corrupção na Petrobras, investigada pela Polícia Federal na Operação Lava Jato. Já o mensalão tucano tem a mesma percepção de gravidade para 80% deles. E a Operação Zelotes, que investiga sonegação de impostos estimados em R$ 19 bilhões por grandes empresas e milionários brasileiros por meio de suborno a integrantes do Conselho Administrativo de Recurso Fiscal (Carf), foi considerada grave por apenas 58,8% dos indignados com a corrupção.

O número de respostas “não sei” nesses casos também é revelador: 12,6% sobre o mensalão tucano. A corrupção no Metrô paulista, 7,4%. E a Operação Zelotes, 38%.

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Os dados da pesquisa revelam ainda que os manifestantes têm uma percepção confusa do que poderia ser feito para resolver a crise. Quando perguntados sobre a solução para o atual momento, revelam acreditar em salvadores da pátria. A maioria concorda que a solução seria “entregar o poder para um político honesto” (87,7%). Outros 63,7% consideram que o melhor seria um juiz honesto governar o país. E 28,2% afirmam que é melhor os militares assumirem o poder.

Quando instados a dizer o nome de um político ou figura pública que acreditam não estar envolvida com corrupção, espontaneamente, 9,36% deles disseram: Jair Bolsonaro, deputado federal pelo PSC paulista, conhecido por suas declarações homofóbicas, machistas e em defesa da ditadura (1964-1985). Em seguida, aparecem o juiz Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato, e o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa.

A presidenta Dilma é considerada corrupta por 89,6% dos entrevistados. Com avaliação pior, só o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL): 93,8%. O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), contra quem não existe nenhuma denúncia ou suspeita de corrupção, foi avaliado como corrupto por 77%. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), tem a mesma avaliação de 41,7% dos manifestantes. E o senador tucano Aécio Neves é considerado corrupto por 37,8%.

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), suspeito de receber US$ 10 milhões em propina no esquema de corrupção na Petrobras e que foi poupado de críticas pelos organizadores do ato de domingo, é considerado corrupto por 70,9% dos manifestantes.

Ao mesmo tempo, 76,8% concordam que seria bom para o país “tomar decisões políticas por consulta popular e plebiscitos”. Outros 59,3% defendem que é preciso fortalecer ONGs e movimentos sociais. E 73,3% disseram ser contra o financiamento empresarial de campanhas eleitorais.

Está bem confuso. E esta é uma questão-chave quando se tem uma crise. Ao mesmo tempo que tem uma parte buscando soluções extrapolíticas, tem também tendências de aprofundamento democrático”, destaca o professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP Pablo Ortellado, um dos organizadores da pesquisa.

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A posição dos manifestantes destoa das principais lideranças responsáveis pela convocação do ato, defensores de ideais radicalmente neoliberais, como privatizações e redução de impostos. Para 96% dos entrevistados, o Estado deve prover serviços públicos de saúde e de educação para todos. Mesmo a tarifa zero tem aceitação significativa dos manifestantes: 50,4% concordam. A concordância entre organizadores e manifestantes limita-se a considerar a carga de impostos no país alta demais.

Para nós, o principal achado é esse desacordo com as propostas liberais dos grupos, que pregam o Estado mínimo. Não devemos observar só o que dizem estas lideranças, mas o que pensam as pessoas que estão se mobilizando”, avalia Ortellado.

A manifestação deste domingo foi significativamente menor que a de 15 de março. O Instituto Datafolha estimou a participação em 135 mil pessoas. Foram ouvidas 405 pessoas, sendo que 65,4% têm ensino superior completo, 76% têm acima de 30 anos sendo 39,5% acima de 50 anos. São 70,9% que ganham acima de cinco salários mínimos, 48,4% ganham acima de dez salários, e 73,6% se identificaram como brancos.

Por fim, dados que revelam o perfil conservador da maioria dos manifestantes se repetiram. Para 86,4% deles, a melhor maneira de conseguir paz na sociedade é aumentando a punição aos criminosos. As cotas raciais não deveriam existir, pois são um tipo de privilégio para 79,5%. Outros 74,8% são contra o programa Mais Médicos e 48,7% defendem que “estrangeiros que pedem asilo tiram trabalho dos brasileiros e não deveriam ser aceitos no país”.

Mas ainda aqui houve certa contradição nos posicionamentos. Para 50,3%, a maconha deve ser legalizada, 60,5% não discriminam relações homoafetivas e 78,8% discordam que a roupa de uma mulher seja justificativa para estupro.