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Lava Jato

Destruir capacidade produtiva do país 'é incompatível com projeto de nação'

Além das dificuldades econômicas e erros do próprio governo, Brasil pode pagar caro por ofensiva da oposição contra empreiteiras. 'Querem colocar gasolina no fogo', diz professor da UFABC
por Eduardo Maretti, da RBA publicado 27/06/2015 12h04, última modificação 29/06/2015 14h51
Além das dificuldades econômicas e erros do próprio governo, Brasil pode pagar caro por ofensiva da oposição contra empreiteiras. 'Querem colocar gasolina no fogo', diz professor da UFABC
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Dilma Rousseff

Dilma tem três anos e meio para lutar contra campanha de ódio, recuperar confiança de eleitores e do mercado

São Paulo – A confusão entre pessoas ou indivíduos acusados de corrupção e as empresas potencialmente capazes de grandes investimentos está indo muito além de combater a corrupção, está destruindo a capacidade de investimento do país. Para um governo cercado por uma oposição feroz e pela crise econômica, além de distante da própria base que o elegeu – sem contar a atuação do Congresso mais conservador desde a redemocratização , a Lava Jato pode funcionar como levar à paralisia do desenvolvimento do país, diz Giorgio Romano Schutte, professor de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC).

"Na Lava Jato, vemos um protagonismo absurdo de algumas pessoas, por parte do Judiciário. Não se separam as pessoas das empresas, como deveria ser feito. Se você quer desestabilizar (o governo) de vez, é a gota d’água. É totalmente incompatível com qualquer projeto de nação. Você destrói o que existe de capacidade produtiva no país", afirma.

Na opinião de Marcio Pochmann, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e presidente da Fundação Perseu Abramo, embora seja necessário "cortar o mal" da relação permeada por corrupção entre o Estado e o mercado, "é um equívoco misturar empresa com pessoas que cometeram erros". Em sua opinião, os indivíduos "devem pagar pelos erros, o que não significa impedir que as empresas continuassem operando".

"Há um mal estar nesse sentido, porque se está misturando as coisas, ao não permitir identificar que uma coisa é a prisão de empresários, outra coisa é esse patrimônio que são essas empresas, num país como o nosso, serem impossibilitadas de continuarem operando." Para Pochmann, "a Lava Jato está de certa maneira inviabilizando tentativas de fazer uma política de desenvolvimento".

Aos efeitos da Lava Jato na economia do país e no "caldo" da crise política, junta-se a ferocidade de uma oposição sem paralelo no Brasil pós ditadura. Para Schutte, a estratégia atual da oposição ao governo Dilma é emblematizada por uma declaração do economista Edmar Bacha ao jornal Valor Econômico há cerca de um mês. Perguntado sobre o fato de o PSDB ter sido contra o fator previdenciário (criado pelo governo FHC) em recente votação no Congresso Nacional, e se a luta política está acima da coerência, Bacha, um dos criadores do Plano Real, respondeu que "é pedir demais para uma oposição que ela se comporte tecnicamente de forma tão coerente".

"Bacha é um intelectual, um dos formuladores do Real. Não seria de se esperar que vai fazer panelaço na rua, imaginava-se. No entanto ele disse que não é a hora de pedir coerência deles. Os seja: querem colocar gasolina no fogo. Não querem repetir o 'erro' de 2005 (época em que explodiu o mensalão), quando falaram: 'já está sangrando, deixa sangrar'. Aconteceu que o Lula, em um ano, se recuperou, fez o segundo governo e saiu com 85% de aprovação. Agora é diferente: 'está no chão, está sangrando? Pisa em cima e joga gasolina'. Eles querem destruir o PT e pegar o Lula", diz o professor da UFABC.

Em sua opinião, a calculada "incoerência" da oposição em votações como a do fator previdenciário e outras, como a da ampliação da aposentadoria, na última semana, são mais gasolina no fogo, jogada pelos "oportunistas do PMDB e do PSDB, que vão no Congresso e votam 'a favor' do trabalhador".

Erros do governo

Ao cenário juntam-se os próprios erros de cálculo do governo Dilma Rousseff, cujas medidas a afastaram de sua própria base e, pior, num cenário em que os efeitos da crise econômica internacional finalmente chegaram ao país.

Para Giorgio Romano, embora o governo Dilma tenha pegado uma situação muito complicada em seu primeiro mandato, decidiu fazer uma defesa do emprego e da agenda do trabalhador "custasse o que custasse".

"Ela conseguiu. Por isso ganhou as eleições. Mas isso teve um custo alto, que era razoável se tivesse uma reação dos investimentos privados. Era insustentável manter o padrão de crédito subsidiado do BNDES e todos os gastos que envolviam a política do primeiro mandato. A política estava certa, mas ela não conseguiu impulsionar os investimentos privados."

Os problemas começam, acredita o professor, na comunicação. Para ele, Dilma "não explicou muito bem o que estava fazendo e as consequências disso" e o problema da comunicação, que existia no primeiro mandato, se ampliou no segundo. "Claro, ela precisava ganhar as eleições. Não ia dizer que entre as consequências de manter emprego e renda estava o déficit. Mas podia ter dito isso em 2013. Quanto custa isso? Ajuste para quê? Por quanto tempo? Qual a estratégia de longo prazo? Essa narrativa não apareceu. Quando você precisa fazer  um ajuste fiscal, a questão é quem vai pagar. Um governo do PT não pode ir na televisão e dizer 'todos nós temos que contribuir com esse ajuste'. Porque ela foi eleita pelos trabalhadores. O certo seria dizer que quem pode mais, paga mais; quem pode menos, paga menos. Em que país do mundo dividendos da bolsa de valores não são taxados?"

Para Marcio Pochmann, as políticas exitosas do primeiro mandato de Dilma são seriamente ameaçadas com a opção do governo por um ajuste fiscal de matriz liberal ortodoxa. "No caso da situação econômica, que no meu modo de ver deriva de uma crise de natureza política não resolvida no ano passado, o governo fez uma opção de desconstrução de parte da política que foi implementada desde 2008 e prosseguiu no primeiro governo Dilma (2011 a 2014), que eram as políticas de sustentação da economia evitando os efeitos nocivos da crise internacional. Essas políticas foram exitosas, porque o país continuou crescendo, embora menos, mas um crescimento que resultou no combate à pobreza, à desigualdade e conseguimos manter um nível de emprego elevado."

Na opinião do economista da Unicamp, com o ajuste fiscal, criam-se "condições para internalizarmos os efeitos da crise externa, e não responder de forma altiva a um problema que vem do exterior". Ele entende que não há como aliar uma política de desenvolvimento enquanto houver o atual quadro.

"Do ponto de vista de política desenvolvimentista não se faz ajuste fiscal na recessão. Não é possível combinar política desenvolvimentista com uma opção recessiva como o governo fez. Uma coisa é política desenvolvimentista, outra coisa são políticas ortodoxas que estamos implementando."

Apesar do cenário sombrio, Schutte ainda vê alguns aspectos que, talvez, possam apontar para um horizonte menos conturbado. O "grosso" do ajuste já foi feito, incluindo os aumentos do preço de energia e da gasolina, que caíram imediatamente na conta do consumidor. "Talvez seja bom que tenham feito de uma vez, um choque de inflação, uma inflação que certamente vai cair. Pode ter sido uma estratégia acertada, um pouco como Maquiavel: fazer todas as maldades de uma vez, e, no ano que vem, Dilma cante vitória"

Além disso, espera-se o anúncio do plano quinquenal que será anunciado pela Petrobras, pelo qual "cria-se um horizonte, uma perspectiva de investimento e geração de emprego e renda no país", nas palavras do professor da UFABC.

"Dilma tem três anos e meio para se recuperar. Uma vez que o governo recupere a confiança, poderia baixar os juros e, com clima de confiança, haveria investimento. Seria o início do pós-ajuste. É possível. O problema de tudo isso é que a base dela está desorientada, P da vida. E existe a Lava Jato e a campanha do ódio mortal contra o PT e o Lula."

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