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Professores do Paraná

Pressionado na base, Richa sinaliza reajuste, mas não formaliza proposta

Base aliada, liderada pelo PSC, ameaça não fechar questão com governo se não houver proposta de reajuste que reponha inflação. Professores levam 'balas de borracha' para que governo 'corrija erros'
por Ricardo Gozzi, para a RBA publicado 26/05/2015 19h31, última modificação 27/05/2015 09h15
Base aliada, liderada pelo PSC, ameaça não fechar questão com governo se não houver proposta de reajuste que reponha inflação. Professores levam 'balas de borracha' para que governo 'corrija erros'
RBA
Balas de borracha

Borrachas embaladas em papéis de bala, não para apagar o que aconteceu, mas para corrigir

Curitiba – A pressão provocada pela segunda greve realizada este ano pelos professores da rede pública estadual, aliada a um ensaio de rebelião da base aliada na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), levou o governador Beto Richa (PSDB) a recuar hoje (26) de sua posição anterior quanto ao reajuste dos servidores públicos.

Em reunião realizada pela manhã em Curitiba, deputados da base aliada de Richa levaram ao chefe da Casa Civil, Eduardo Sciarra, duas propostas consideradas viáveis para reajustar os salários dos servidores sem que haja perdas para a inflação. Não foram divulgados detalhes claros sobre as propostas, mas integrantes da base asseguraram que ambas de alguma maneira cobririam o mínimo exigido pelos servidores, que é a reposição da inflação de 8,17% nos 12 meses anteriores, segundo o IPCA de maio.

Uma reunião entre integrantes do governo e deputados aliados na Assembleia estava marcada para a noite de hoje no Palácio Iguaçu para definir os detalhes da proposta a ser enviada ao Legislativo.

A coordenadora do Fórum Estadual dos Servidores, Marlei Fernandes, observou que "por enquanto tudo não passa de palavras", uma vez que nenhuma proposta oficial foi encaminhada à Alep nem apresentada ao funcionalismo. Para ela, o surgimento de novas propostas significará uma vitória do movimento grevista, mas ainda é necessário ter cautela. "Toda essa situação causa muita insegurança. Podemos avaliar qualquer tipo de proposta, mas precisamos disso por escrito. Só poderemos chamar nosso comando de greve estadual quando houver proposta concreta", disse Marlei, secretária de Finanças da APP Sindicato, entidade que representa os professores do estado.

"Queremos ver os textos das duas propostas", insistiu Arnaldo Vicente, diretor da APP Sindicato, que acompanhou no início da tarde uma sessão da Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia.

Seja como for, as declarações dos aliados de Richa indicam que o governador tucano está dando os anéis para não perder os dedos. Até a semana passada, Richa insistia em que não dispunha de dinheiro em caixa para pagar mais do que 5% de reajuste em duas parcelas, uma imediata e outra sem prazo determinado. Agora, as propostas que sua base aliada se dispõe a votar contemplam a reposição das perdas da inflação, confirmou o deputado Luiz Claudio Romanelli, líder do governo na Assembleia. Ele disse que não entraria em detalhes, pois esses seriam definidos em reunião marcada para a noite. "Mas não há perda para o servidor", assegurou.

"Qualquer que seja a proposta, ela precisa ser bem elaborada e bem explicada", advertiu o líder da oposição, deputado Tadeu Veneri (PT). "O texto só vai chegar à Assembleia se houver uma probabilidade mínima de que seja aprovado."

A notícia vem à tona no 30º dia da segunda greve realizada pelos professores em 2015. Além dos professores, dezenas de categorias do funcionalismo estão paradas, entre eles servidores da saúde e agentes penitenciários. Hoje, foi a vez de os funcionários do Tribunal de Justiça aderirem.

Ao mesmo tempo em que professores e servidores mantinham cautela e enfatizavam a necessidade de o governo abrir-se para negociações, muito se comentava nos corredores da Assembleia sobre o desconforto da base aliada na defesa de um governador a cada dia mais impopular, com rejeição beirando os 90%, e envolto em crescentes denúncias de corrupção, o que ontem levou um grupo de advogados a protocolar um pedido ainda não apreciado de impeachment na Casa.

Até agora, o governo vinha impondo sua vontade com o respaldo de uma confortável maioria na Assembleia, mas os acontecimentos dos últimos meses desgastaram Richa e levaram muitos de seus aliados a buscar meios de evitar o desgaste. Depois da aprovação de mudanças na Paraná Previdência, votação que culminou no chamado Massacre do Centro Cívico, em 29 de abril, os deputados que votaram a favor do governo tiveram suas fotos expostas em um quadro exibido pela APP Sindicato no qual são rotulados como "inimigos da educação". O quadro já existia desde a primeira greve e ganhou novos rostos com a aprovação das alterações da previdência dos servidores.

Na semana passada, porém, o PSC, detentor da maior bancada na Assembleia e principal alicerce da base de Richa na casa, avisou que não votaria a favor de nenhuma proposta do governo que não repusesse as perdas dos servidores para a inflação.

"A base cansou de apanhar pelo governo", observou o deputado de oposição Requião Filho (PMDB). "Eles (os aliados do governo) não querem mais sangrar por causa do Richa, cansaram de servir de amortecedor."

O deputado Paranhos, líder do PSC, rechaça a interpretação de que o partido tenha se rebelado. "O bom amigo é aquele que fala a verdade. Nós não somos oposição e não vamos virar oposição, mas no caso do reajuste dos servidores não temos condições de apoiar nenhuma proposta que não reponha a inflação", declarou Paranhos. Ainda segundo ele, os cofres públicos começaram receber em abril os recursos provenientes do tarifaço imposto por Richa no fim do ano passado, pouco depois de reeleger-se e posteriormente admitir que os cofres públicos paranaenses encontravam-se à beira do colapso no último ano de seu primeiro mandato.

Por trás do jogo de cena, fontes na Assembleia apontam ainda outros motivos para a postura do PSC no que diz respeito à tentativa de se descolar um pouco de Beto Richa. Nas eleições do ano passado, Ratinho Júnior, filho do apresentador Ratinho, foi o deputado mais votado do Paraná, com mais de 300 mil votos. A boa votação de Ratinho Júnior fez a bancada do PSC na Casa saltar de duas cadeiras na legislatura anterior para mais de uma dezena na atual. Secretário de Desenvolvimento Urbano de Richa, Ratinho Júnior vinha sendo apontado antes da crise como um dos mais cotados para ser o candidato do governo nas eleições de 2018. A atual situação, porém, torna ingrata a missão de quem quer que venha a se candidatar com o apoio de um dos políticos mais impopulares do país, apesar de se considerar que há tempo para contornar a situação, uma vez que o segundo mandato de Richa acabou de começar.

Enquanto isso, às vésperas do aniversário de um mês do Massacre do Centro Cívico, professores distribuíram hoje aos deputados dezenas de "balas de borracha". Borrachas – de apagar, não de reprimir – cuidadosamente embaladas em papéis de bala foram distribuídas no início da sessão. "Não é para apagar o que aconteceu naquele dia, mas para corrigir o que aconteceu", disse o deputado Professor Lemos (PT).