Eleições x Futebol

Tucanos dizem não torcer contra; historiadora vê Copa pouco decisiva nas urnas

Para deputado de Minas Gerais aliado de Aécio Neves, não há correlação entre resultados no campo e nas urnas; especialista cita exemplos de 1998 e 2002

Cacalos Garrastazu/ObritoNews
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Serra Alckmin e Kassab, no bairro ‘nobre’ do Itaim Paulista, durante jogo da seleção brasileira da Copa 2010

São Paulo – Apesar de comentaristas políticos recorrentemente ponderarem que um eventual fracasso da seleção brasileira na Copa do Mundo poderia ter efeitos negativos para a campanha de reeleição da presidenta Dilma Rousseff (PT), deputados tucanos afirmam que consideram equivocadas as especulações de que estariam torcendo contra o time de Luiz Felipe Scolari por motivos eleitorais. Para o deputado federal Marcus Pestana (PSDB-MG), presidente do partido de Aécio Neves em Minas, tal especulação não é respaldada pelos fatos. “Evidências históricas mostram que não há correlação entre resultado no campo e eleição. Houve ano em que a seleção ganhou e o governo de então perdeu, e anos em que a seleção perdeu e o governo ganhou”, diz Pestana.

A historiadora Lívia Magalhães, doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense e autora do livro Histórias do Futebol (pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo), tem a mesma opinião. “Em 1998, Fernando Henrique (Cardoso, PSDB, 1995-2002] se reelege com o Brasil perdendo a Copa. Em 2002, o candidato de Fernando Henrique (José Serra) perdeu e Lula foi eleito após o Brasil ganhar a Copa. Acho muito complicado garantir que uma eleição seja baseada num campeonato de futebol”, avalia. “Os fatos não confirmam que isso possa levar a uma garantia de manutenção ou não de poder.”

Para Lívia, o futebol pode até levar a efeitos negativos ou positivos em uma campanha eleitoral, mas a influência não chega a ser decisiva. “Claro, a conquista do título gera um consenso, uma melhora na imagem do país, mas é uma coisa muito curta também. Em 1998, várias pessoas falavam: ‘O Brasil tem que perder para o Fernando Henrique perder’, mas a derrota de 1998 não teve impacto nenhum na eleição”, lembra.

Embora, em conversas informais, alguns tucanos considerem uma derrota do Brasil como facilitadora para a oposição a Dilma, o deputado estadual de São Paulo Bruno Covas (PSDB) diz que, se algum tucano considera essa hipótese, “é uma pessoa equivocada”.

No início do ano, o deputado estadual do Rio de Janeiro Luiz Paulo (PSDB), presidente do partido no estado, admitiu à RBA que uma derrota brasileira no Mundial poderia favorecer os tucanos. “Este é um ano que tem dois tempos, o tempo antes da Copa e o tempo depois da Copa. E o tempo antes da Copa e o tempo depois da Copa têm duas hipóteses: a primeira é o Brasil ganhar. Quem é governante fica mais distendido, mais relaxado. A segunda vertente é o Brasil perder a Copa. Evidentemente, tanto os candidatos da oposição como a vertente daqueles que não são governo se fortalecem, e isso tudo perpassado pelos protestos das ruas”, disse o parlamentar.

Para o mineiro Pestana, uma aposta em resultado de Copa do Mundo como influenciador de eleições é uma visão ultrapassada. “Isso infantiliza um pouco o cidadão brasileiro. Acho que é uma visão paternalista, de que as pessoas não têm discernimento. Mas elas não vão votar no Neymar, vão votar na Dilma, no Aécio e no Eduardo Campos”, afirma. “A democracia brasileira é muito mais sólida e a sociedade brasileira muito mais madura do que esses raciocínios superficiais.”

Segundo o parlamentar, considerado o “braço direito” de Aécio em Minas, as pessoas estão separando as críticas do processo político. “Estão rejeitando a Copa pelos gastos, pelos desperdícios, pela falta de eficiência na conclusão principalmente do legado de mobilidade urbana, e achando que o Brasil talvez tivesse outras prioridades, mas, na hora em que o time entra em campo, a maioria absoluta do povo brasileiro torce por ele”,  acredita. “Aécio gosta de futebol demais, eu também e tantos outros. Não existe esse negócio, é uma bobagem. Ontem, eu quase enfartei de tanto esgoelar durante o jogo.”

Mercado

Mas, se medir a torcida pelo Brasil na Copa do Mundo segundo interesses político-eleitorais não é tão simples, devido ao próprio aspecto teatral da política, o mesmo não ocorre quando estão em jogo os interesses mais concretos do mercado financeiro, principalmente o internacional.

Segundo o gestor de fundos de investimento Raphael Juan, a não ser que haja sinalizações consistentes da presidenta Dilma Rousseff na gestão da economia, o mercado já fez sua escolha. O termômetro dessa opção seria a alta da bolsa e a queda do dólar que acompanham a diminuição da intenção de votos na candidata petista. “Se acompanhar o dólar e a bolsa recentemente, você vê que o mercado já optou por preferir a oposição, Aécio ou Campos”, diz. “Principalmente o investidor estrangeiro mostrou interesse pela mudança de governo. O mercado financeiro, principalmente o investidor estrangeiro, vê poucas chances de mudanças macroeconômicas (se Dilma se reeleger)”.

Mesmo assim, Juan ressalva que, no mercado, “é difícil destrinchar o que é resultado da eleição e o que é reajuste” do próprio mercado.

De acordo com ele, o mercado anseia por mudanças na condução da economia. “Ele quer mais transparência com o superávit e as contas públicas, por exemplo. Foram feitas algumas manobras fiscais para chegar a um superávit (artificial) e o mercado não gosta disso. A primeira coisa que o mercado gostaria de ouvir do governo seria ele dizer: ‘o cenário é este’, seja bom seja ruim.”

Segundo Juan, a principal mudança seria no Ministério da Fazenda. “Hoje, o ministro da Fazenda fala e ninguém mais ouve, perdeu a credibilidade. Se a Dilma se reeleger e se mudasse alguns pilares do governo, mudasse o Guido Mantega, colocasse alguém de peso, acho que já voltaria a ter fluxos bem interessantes de investimentos nas empresas brasileiras, em títulos com maior risco, como em renda variável”, explica. “Mas o mercado não vê essa obstinação por mudança e trabalha com um cenário de que se Dilma se reeleger a economia vai continuar igual.”

Já para o economista e consultor Jorge Mattoso, presidente da Caixa Econômica Federal entre 2003 e 2006, pode até existir uma oscilação para cima da Bolsa com a queda de Dilma nas pesquisas e vice-versa, mas as especulações, subidas e descidas das cotações têm mais relação com o caráter especulativo do mercado do que com uma aposta efetiva na derrota da presidenta. “Por mais que a Bolsa caia por causa do efeito Dilma, se ela ganhar as eleições, vai estabilizar. Talvez fique menos volátil do que hoje, mas volta ao normal”, analisa.

Segundo o economista, a subida da Bovespa tem mais a ver com o funcionamento do mercado em si do que com as eleições. “Até quarta-feira (11), subiu de maneira sistemática, mas tem mais a ver com a entrada de recursos e dólares no país, que foi grande. As informações mostram isso”, diz Mattoso.

“Bolsa é especulação. Cria-se uma história que amanhã cai, mas aí você já vendeu para depois comprar. É um jogo. Pode ter um elemento de subida ou de queda momentânea, mas é do jogo”, aponta o economista. “A Bolsa subiu muito durante muito tempo, depois, nos últimos dois anos, estagnou. Teve a ofensiva contra a Petrobras, com efeito grande nas ações da companhia. Como isso, tem efeito sobre a média do Ibovespa, acabou afetando, mas isso é apenas uma especulação a mais.”