Aposentadoria

Sarney confirma a rádio do Amapá que não concorrerá mais a eleições

Ex-presidente da República e ex-presidente do Senado encerra a carreira política mais longa do Brasil em janeiro de 2015. Avesso ao papel de oposição, integrou todos os governos desde 1964

Marcos Oliveira/ Agência Senado
sarney

Sarney passa em frente à galeria de retratos de ex-presidentes do Senado durante cerimônia oficial

São Paulo O ex-presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), afirmou hoje (24) em entrevista à rádio Diário FM, do Amapá, que não concorrerá à reeleição neste ano. A aposentadoria representa o fim da carreira política mais longa da história brasileira: foram 59 anos como deputado federal e governador pelo Maranhão, senador pelo Amapá e presidente da República entre 1985 e 1990, após ser eleito indiretamente pelo Congresso como vice na chapa encabeçada por Tancredo Neves, que faleceu naquele ano.

Alvo de vaias todas as vezes que teve o nome mencionado em evento em Macapá na última segunda-feira (23), Sarney negou que o receio de não se reeleger para o quarto mandato consecutivo de oito anos no Senado tenha levado à decisão; os motivos para encerrar a vida pública, segundo o senador, foram a idade avançada e o estado de saúde da esposa, Marly.

Eu não tenho de maneira nenhuma receio de eleição, tenho pesquisas na minha mão que me dão uma situação muito confortável. Uma delas, 50,6% de preferência do eleitorado [para o Senado]. O problema é que, realmente, com 84 anos, minha mulher doente, precisando do meu apoio, principalmente agora, neste momento em que já estamos bastante idosos, eu não posso deixar de estar presente”, afirmou, ao radialista Luiz Melo. “Acho muito difícil que eu volte atrás nessa decisão. Vou procurar convencer a todos que estão empenhados para que eu volte para fazê-los entender minha posição”, completou.

Nos últimos anos, o senador passou por diversos problemas de saúde. Em abril de 2012, ficou internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, e passou por um cateterismo. Em julho do ano passado, o parlamentar voltou a ser internado, no UDI Hospital, em São Luís, no Maranhão, depois de passar mal no casamento de uma das netas, sentindo calafrios e febre.

À Agência Brasil, no entanto, o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), afirmou que o desconforto com as regras vigentes de aliança política teriam tido influência sobre a decisão. “Quando o STF quebrou a verticalização [das alianças partidárias nos estados, em 2006] não foi uma coisa boa para a política brasileira. Meu partido tem uma aliança com a Dilma, mas nos estados pode fechar aliança com o DEM e o PSDB, que são partidos de oposição. Essa decisão é muito ruim”, afirmou.

A presidenta Dilma Rousseff (PT) foi uma das pessoas avisadas ontem da decisão de Sarney, além dos dirigentes do PMDB. Sarney integra a coalizão governista liderada pelo PT desde 2005, depois que as denúncias que provocaram o escândalo midiático do chamado “mensalão” fragilizaram a imagem do Partido dos Trabalhadores. Até então, o PT governava apenas com o apoio dos partidos de esquerda, com os quais tem aliança desde 1989, e os partidos “nanicos” de centro e centro-direita com os quais compôs aliança em 2002. Antes disso, Sarney ofereceu seu apoio e o de seu partido aos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB, 1995-2002), Itamar Franco (1992-1994) e Fernando Collor de Mello (atualmente no PTB, 1990-1992), com o qual só rompeu às vésperas do pedido de impeachment.

Durante seu mandato como presidente, o Brasil enfrentou grave crise econômica e investiu em diversos planos monetários e financeiros que tiveram sucesso apenas parcial em lidar com a herança deixada pela ditadura civil-militar (1964-1985), da qual foi apoiador: embora tenha sido eleito vice-presidente já filiado ao PMDB, onde está desde 1984, Sarney havia sido filiado à Arena, partido de sustentação do regime autoritário, desde sua fundação, em 1964. Antes disso, entre 1955 até o golpe, pertenceu à UDN, partido radical de direta que fez oposição ao governo trabalhista de João Goulart (1919-1976).

A aposentadoria de Sarney ocorre ainda no mesmo ano em que a oposição a seus correligionários pode levar o governo do Maranhão pela primeira vez desde 2006, quando Jackson Lago (PDT, 1934-2011) derrotou a filha do senador, Roseana Sarney (PMDB), apenas para ser retirado do cargo por decisão judicial em 2009. Antes disso, foram mais de duas décadas de dominância do grupo de Sarney na política estadual do Maranhão; só Roseana governou o estado em quatro oportunidades (1995-2002, 2009-2014).

Desta vez, é Flávio Dino (PCdoB) que promete abalar o domínio do clã Sarney: na última pesquisa eleitoral realizada no Maranhão, em março deste ano, o comunista apresentava 60% das intenções de voto, contra 18% de Edison Lobão Filho (PMDB), filho do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, candidato de Roseana.

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