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Entrevista

'O PSDB não está nem aí para o pudor, agora é o vale-tudo eleitoral', diz Haddad

Na segunda parte da entrevista à RBA e à TVT, prefeito de São Paulo fala sobre disputa contra tucanos, projeta Padilha no segundo turno e prevê que manifestações de 2013 não se repetirão
por Sarah Fernandes e Diego Sartorato, da RBA publicado 27/05/2014 10h57, última modificação 27/05/2014 13h04
Na segunda parte da entrevista à RBA e à TVT, prefeito de São Paulo fala sobre disputa contra tucanos, projeta Padilha no segundo turno e prevê que manifestações de 2013 não se repetirão
Raoni Maddalena / RBA
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Sobre o tratamento dado a Alckmin, Haddad afirma preferir "o preço da incompreensão" a ser desleal com o governador

São Paulo – Normalmente avesso a manifestações partidárias, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), elevou o tom das críticas ao PSDB no período de pré-campanha eleitoral: “Hoje, para o PSDB, vale qualquer jogo. Eles não estão absolutamente nem aí para pudor. Tudo saiu de cena e agora é o vale-tudo eleitoral”, afirmou às equipes da RBA e da TVT, quando questionado sobre as ações judiciais que o impediram de implantar o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) progressivo, que reduziria a taxa para os mais pobres e elevaria o imposto nas áreas mais ricas da cidade.

Para Haddad, a postura do principal partido de oposição ao PT existe em um contexto de embate político duro. Falando sobre a composição dos movimentos de rua que se reuniram em junho do ano passado e levaram mais de 100 mil pessoas às ruas em São Paulo, Haddad aponta que, ao lado dos movimentos sociais legítimos, há também os oportunistas. “Tem sempre uma direita espreitando para melar o jogo, tem setores antidemocráticos que querem um pretexto para agir com violência. Isso tudo é verdade também”, pondera. “Não podemos ignorá-los e imaginar que, no Brasil, todo mundo é democrático. Não! O poder econômico aqui apoiou a ditadura militar.”

Confira, abaixo, a segunda parte da entrevista com o prefeito Fernando Haddad, ou releia a primeira parte da entrevista: Haddad: é "impróprio" caracterizar os protestos de motoristas e cobradores como greve.

Existe na base petista a crítica que o senhor, em algumas situações, se colocou muito próximo ao governador Geraldo Alckmin (PSDB), sem marcar posição no discurso, como no caso do reajuste da tarifa do transporte público no último ano, que deu início a uma série de manifestações. Como o senhor vê essa relação?

Os políticos tradicionais têm muita dificuldade em separar o que é política de Estado do que é política de governo e jogam tudo na vala comum da disputa político-partidária. Tem coisa que não é político-partidária e tem que ser discutida como questão de Estado. Essa questão não era uma questão política: o prefeito e o governador de São Paulo foram demandados para adiar para junho um reajuste abaixo da inflação das tarifas do transporte, concordaram com isso para ajudar o país a combater a inflação e fizeram um reajuste bem abaixo da inflação. No caso de São Paulo, menos da metade da inflação acumulada.

Aí nos vimos pressionados a voltar atrás sabendo das consequências para as finanças – e quando eu digo finanças, não estou pensando em dinheiro, estou pensando em hospital, creche, em coisas que vão faltar para a população de mais baixa renda. Não era razoável imaginar que duas pessoas que atenderam a um pedido do governo federal pudessem se desunir em uma hora difícil, sendo que os dois estavam partilhando a mesma situação. Eu não acharia justo e penso que o governador também não acharia justo que um dos dois agissem deslealmente com o outro.

E eu prefiro pagar o preço da incompreensão a ser taxado de desleal, porque a política é uma coisa, mas seus princípios éticos são outra. Esses não estão em jogo. Nunca vou abrir mão de nenhum princípio em função de ficar bem ou mal na foto. Ali era uma questão de ser leal e justo: foi feito um pacto federativo, entre União, estado e município. Por que romperia com isso para me sair bem do ponto de vista da popularidade e romper com um princípio do ponto de vista ético? Não faço e não farei isso.

Como é pertencer a um partido que tem origem em movimentos sociais e comandar uma prefeitura que está sempre sob pressão desses grupos? O poder obriga a adotar posturas mais conservadoras?

Acho que estamos guardando coerência com o que a gente defende. Por exemplo, o movimento de moradia senta nessa mesa com muita frequência e está nos ajudando a fazer o Plano Diretor da cidade avançar. O Plano Diretor não é nada menos que o desenho da cidade para os próximos 20 ou 30 anos. Não é uma peça qualquer. Talvez seja o maior legado que eu possa deixar para a cidade: a organização de um desenho urbano sustentável, que o Plano Diretor expressa com muita energia. Do mesmo jeito que sento com empresários para ajustar textos e colher subsídios, sento com muito mais frequência com as camadas populares. Essa sala aqui está aberta para a sociedade desde que tomei posse.

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O movimento de moradia, apesar dessa abertura, está sempre fazendo muitas manifestações pela cidade. O senhor considera isso parte da democracia ou vê com alguma reserva pelo fato de as negociações estarem em andamento?

Vejo com muita naturalidade as manifestações, mas venho de uma cultura que se manifestava muito e depredava pouco. Sou da geração das Diretas, da campanha do fim da ditadura militar. Estava na Praça da Sé no dia que a emenda das Diretas foi derrubada pelo Congresso Nacional. Os dirigentes que estavam no palanque tinham como principal preocupação não deixar a violência tomar conta do país e garantir que aquele movimento preservasse os objetivos. Se contra a ditadura a gente agiu daquele jeito, tenho dificuldade de entender a razão de um tipo de comportamento que, na minha opinião, não se justifica. A manifestação democrática, o povo na rua reivindicando, isso, para mim, não tem nenhum problema. Pelo contrário, acho que faz parte da cultura política de uma cidade com a pujança de São Paulo conviver com esse tipo de manifestação.

Estamos às vésperas da Copa, com greves e protestos. O senhor acredita na possibilidade de se repetir um fenômeno como o do ano passado?

Não acredito. Pode acontecer e me surpreender, mas acho que junho do ano passado é um caso muito particular, que ainda vai exigir alguma reflexão para ser elucidado.

Do seu ponto de vista, quais fatores levaram a junho? Eles seguem presentes?

Às vezes, o que se vê como um problema é o resultado de políticas de inclusão. Nunca o Brasil conviveu com tantos universitários, nunca o Brasil teve tanta gente matriculada em cursos técnicos, nunca a juventude participou tanto da vida política nacional como hoje. Estou falando do ponto de vista quantitativo. Considere qual era a população universitária no meu tempo de estudante e compare com a população universitária de hoje. Só no governo Lula, nós dobramos o número de universitários. Já superamos os 7 milhões. Veja a reforma que foi feita do Sisu, do ProUni, do Fies, do Sisutec, do Pronatec e a política de cotas. Será que isso não mudou o perfil da juventude, a perspectiva, os anseios e a maneira de fazer política? É evidente que mudou.

Então eu, como ex-ministro da Educação, que tive a honra de liderar esse processo em nome do governo Lula, vejo as manifestações também como resultado do meu trabalho. Hoje, você tem pretos, pobres, amarelos, brancos, gente da periferia, todo mundo na universidade. Tem um caldeirão de cultura ali que não tinha há 10 anos. Quando as classes C, D e E chegavam ao nível superior? Isso vai mudando e vai alternando as coisas.

E óbvio que há riscos. As instituições são sempre muito frágeis, tem sempre uma direita espreitando para melar o jogo, tem setores antidemocráticos que querem um pretexto para agir com violência. Isso tudo é verdade também. É o momento de mais fragilidade institucional e mais risco, mas podemos fazer disso um momento de superação, de mais amadurecimento, mais crítica, de mais vigor democrático, mesmo correndo os riscos.

Não podemos ignorá-los e imaginar que no Brasil todo mundo é democrático. Não! O poder econômico aqui apoiou a ditadura militar. Agora, essa juventude que está chegando à universidade e à educação profissional, está pela primeira vez sentindo o gosto de fazer história. Eles estavam na periferia tomando porrada o dia inteiro. Hoje, se percebem como cidadãos e percebem que têm a oportunidade de tomar o país nas mãos. Ótimo.

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Uma crítica que se faz à política de inclusão dos governos Lula e Dilma é que se deu, principalmente, por meio do poder de consumo, em detrimento de uma ação mais forte de educação política. O senhor vê esse movimento de junho como uma tentativa de “autodidatismo político” dessa população?

Acho que o salto na educação é tão expressivo quanto o salto no mercado de trabalho. Você não dobrou a população economicamente ativa, mas dobrou a população universitária. Pega o caso do Enem, tão criticado na minha época. Hoje, temos 9 milhões de inscritos. Nem a China tem esse número no Enem dela. O que está acontecendo no Brasil? Por que 9 milhões de pessoas se inscrevem? Porque esse exame é o passaporte para a educação.

É um salto. O que era o Enem quando foi criado? Não era nada. Era uma provinha que você fazia pra saber como estava em Português. Hoje é um passaporte que te abre uma dezena de portas. São centenas de milhares de vagas que estão sendo abertas. Os economistas já perceberam que uma parte da queda do desemprego, sabe o que é? Uma parte é o aumento do número de vagas de trabalho, mas outra parte é o adiamento da entrada no mercado de trabalho por uma juventude que quer estudar.

É uma juventude que está percebendo o seguinte: ‘se eu adiar minha entrada no mercado de trabalho, meu salário não vai ser mil, vai ser dois mil, três mil, quatro mil’. Então, vale mais a pena, é um investimento para a vida inteira. Observe os dados sobre emprego e você vai ver vários analistas dizendo que as políticas educacionais explicam o que ocorre no mercado de trabalho. Não é bom para um ex-ministro da Educação ouvir isso?

Quando você educa, tem os dois lados. Tem o lado bom, mas tem o lado dos desafios. O sarrafo fica cada vez mais alto. As pessoas não se contentam mais com o ritmo das coisas, as pessoas querem mais. Querem mais já. As temporalidades da política foram para o saco.

Isso é registrado na mídia tradicional, de forma geral, como desinteresse ou desesperança das pessoas.

Pois é. Mas se eu estou ganhando um pouquinho melhor e posso fazer com que meu filho, em virtude da minha renda, não precise me ajudar e possa se ajudar, se educando mais… É uma decisão racional dos pais. Quando você tem uma renda que te permite sustentar a família, você libera seus filhos pra gozar a juventude. Todo mundo faz isso. Mas agora o pobre também faz isso. Hoje, famílias humildes podem tomar essa decisão, que era impossível 10 anos atrás.

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E como aproximar essa parcela da população do PT e dos partidos?

Esse é o paradoxo. Você cria as oportunidades… Imagina um jovem de 18 anos hoje. Ele não sabe o que foi a era pré-Lula. Até mais. 25 anos. Uma pessoa de 25 anos hoje, tinha 12, 13, quando o Lula tomou posse. O que eles sabem? Quer dizer, se colocou um desafio muito maior, mas temos de conversar com a população sobre o que se avançou. Até para se apropriar dessas conquistas, as pessoas têm de saber o que era o Brasil antes dessas oportunidades surgirem. É um desafio grande. Uma coisa é explicar para uma pessoa de 40 anos o que era o Brasil antes do Lula e outra para uma pessoa de 25, porque ela não viveu. Ela não viveu o desemprego, a inflação, o apagão, falta de oportunidade educacional.

Você lembra como foi quando lançamos o ProUni? Ninguém queria. A imprensa contra, dizendo que não era o caso de gastar dinheiro com universidade e todo o dinheiro tinha de ser concentrado no ensino fundamental. E o que faríamos com a juventude que estava batendo na porta? Por que não aconteceu no Brasil o que aconteceu no Chile, no sentido de a juventude ir pra rua exigir o acesso à educação superior? Porque nós nos antecipamos e abrimos vagas como nunca. Só que esse jovem não seguiu a série histórica. Aí você pergunta a ele: alguém na sua família fez universidade? Aí ele começa a ter consciência do que de fato aconteceu no Brasil. Seu pais não fizeram universidade, seus tios, seus primos não fizeram. Então, alguma coisa aconteceu. Por isso, você está na rua querendo mais. Tua consciência crítica, teu poder de participação, só fez crescer nesse período.

Qual sua leitura para as eleições de presidente e governador este ano? Quais pontos fortes deste governo podem contribuir para a campanha do PT em São Paulo?

O que nós podemos mostrar? Que o que nós falamos na campanha nós estamos fazendo. Hoje, isso parece até insuficiente. Antigamente, criticavam os políticos por não se comprometerem com nada. Tem muito político que até hoje não se compromete com nada. Depois, criticamos outros porque prometiam e não cumpriam. E, agora, estão dizendo que cumprir o que prometeu não é suficiente. Se você pegar a campanha, com todas as dificuldades impostas a esta administração, com aspectos inteiramente novos, como essa coisa do IPTU, da tarifa, da dívida…

Se você pegar o que fizemos, foi o fortalecimento do SUS, a rede Hora Certa, entregamos seis hospitais-dia (hospital de permanência de curta duração ao paciente com serviços de internação parcial) no ano passado, compramos um hospital que vai ser reaberto neste ano, depois de oito anos vamos ter um hospital, redução de 22% da fila do SUS… Que ainda é absurdo, mas caiu pela primeira vez na história. Isso não é qualquer coisa. Fortalecimento do transporte público, aumento de 46% da velocidade e devolução do tempo ao trabalhador, fim da aprovação automática, cursos superiores nos CEUs, 32 CEUs já são também universidades, e isso tudo aconteceu em um ano.

Na semana passada, todo mundo duvidava que seríamos capazes de fazer a coleta seletiva de resíduos sólidos, mas vamos entregar as duas primeiras centrais de triagem mecanizada da América Latina.

Então, por que eu acredito na vitória da Dilma? Porque ela vai ter tempo de TV para mostrar o que ela disse que faria e o que fez. Acho que o Padilha tem uma chance que é fazer o que eu fiz: apresentar um governo que sensibilize as pessoas, que mexa com o imaginário das pessoas. Ele tem uma oportunidade, pela juventude, a energia, a dignidade, de apresentar esse plano às pessoas.

Disse a ele: eu dedicaria tempo ao plano de governo. As pessoas não vão votar por votar, elas querem saber exatamente o que você imagina pro estado. Vai haver uma cobrança, como houve em 2012. Por que um professor universitário, que nunca disputou uma eleição, em um momento até difícil do partido, ganha a eleição em uma cidade onde a gente praticamente não ganha? Porque nós levamos a mensagem de que temos um plano pra cidade. Se ele apresentar um plano pro Estado, ele tem chances.

E na eventualidade de que o PT venha a apoiar a candidatura de Paulo Skaf (PMDB) no segundo turno contra Alckmin? Como o senhor se sentiria, já que ele prejudicou tanto a sua administração?

Nunca fulanizo o debate político. Tem muita água pra rolar. Mas minha intuição diz que quem vai estar no segundo turno é o Padilha.