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Passado e futuro

Debate em SP expõe divergências sobre resultados da era Lula-Dilma

Para economista Marcio Pochmann, Brasil deu salto social; já sociólogo Ricardo Antunes não vê mudança estrutural e afirma que "Se um tucano ganha as eleições neste ano, numa tacada se desmonta tudo"
por Eduardo Maretti, da RBA publicado 24/04/2014 20h32, última modificação 25/04/2014 10h19
Para economista Marcio Pochmann, Brasil deu salto social; já sociólogo Ricardo Antunes não vê mudança estrutural e afirma que "Se um tucano ganha as eleições neste ano, numa tacada se desmonta tudo"
Divulgação/PT
Marcio Pochmann

'Brasil vive uma fase parecida à que se registrou na década de 1930', diz Márcio Pochmann

São Paulo – O economista Marcio Pochmann disse hoje (24) que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva simboliza a mutação social ocorrida no Brasil entre as décadas de 1930 e 1970. Para ele, o período marcou a transformação de uma sociedade majoritariamente agrária da primeira metade do século 20 para uma sociedade urbana e industrial. “Lula (que deixou o meio rural em busca de oportunidades na metrópole) simboliza isso. Apesar da pobreza ainda marcante nas grandes cidades, ainda assim era melhor do que a vida no meio rural, e o ex-metalúrgico é um ícone da parcela da população que conduziu essa mudança.

A análise foi parte de sua intervenção no debate “Mobilidade Social no Brasil: inclusão social e crescimento econômico”, durante seminário promovido pelo escritório Crivelli Advogados Associados, em que polemizou com o sociólogo Ricardo Antunes.

Para Pochmann, os governos de Lula e Dilma Rousseff foram ainda responsáveis por uma nova fase de transformações a partir da base da pirâmide social. Segundo ele, esses governos promoveram com eficiência uma inversão da política de “regressão econômica” da época dos governos de Fernando Henrique Cardoso. E acrescenta que os atuais índices de desemprego, reduzidos a cerca de metade dos verificados no final da era FHC, ilustram uma opção inclusiva de modelo econômico.

No debate cortês, mas acalorado, Ricardo Antunes discordou. E foi categórico em afirmar que Lula e Dilma não promoveram “mudanças estruturais” no Brasil. “Lula passou longe de quebrar interesses poderosos, como os dos bancos e do agronegócio”, afirmou. “O crescimento se baseou em pilares do neoliberalismo. Nunca os bancos ganharam tanto dinheiro.”

Mercado pessimista

Em entrevista após o debate, Pochmann argumentou que o suposto pessimismo do mercado financeiro em relação ao Brasil contradiz essa interpretação: “É uma dissonância entre o que está sendo feito pelo governo e o que eles (o mercado financeiro) gostariam que fosse feito. Não estamos implementando uma política econômica que os Estados Unidos e a União Europeia, os países ricos, querem. Fazemos uma política diferente, que tem um tempo de maturação”, analisou.

“O Brasil vive uma fase parecida à que se registrou na década de 1930, com uma crise no capitalismo internacional. O país hoje tem feito opções diferentes em relação aos países ricos, opções que produzem resultados no médio e longo prazo”, comparou o economista. “Se analisarmos a crítica nos jornais na década de 30 sobre política cambial, que o Brasil fazia diferente de Estados Unidos e Europa , diziam que a política estava errada, não produzia resultados. É semelhante a hoje. Um tempo depois se percebeu que as políticas de Getúlio Vargas foram fundamentais para o Brasil se posicionar no mundo. Da mesma maneira, de 2003 para cá.” Para Pochmann, Vargas conduziu o Brasil a uma condição superior ao que era na década de 1920.

Entre os avanços possibilitados pelos governos petistas a partir da base da pirâmide social, Pochmann menciona a ampliação do acesso à educação e a moradias por segmentos que não teriam condições pela via do mercado. “Em transferência de renda, numa crise do capitalismo global, houve uma inversão de prioridades e reinventou-se o mercado através da distribuição de renda”, defendeu o economista, presidente da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT.

Para Ricardo Antunes, as conquistas não são estruturais. “Temos crescimento econômico e tivemos incorporação de milhões de trabalhadores ao mercado. Mas em abril de 2014 o cenário econômico brasileiro não é o mesmo de alguns anos atrás”, observou o sociólogo.

Em sua visão, se as mudanças fossem de estrutura elas não correriam o risco a que estão expostas hoje. “O epicentro da crise hoje é nos países do norte. Mas se ela voltar a ter como epicentro os países intermediários, como Brasil, China, Índia etc., perdemos isso numa tacada. Se o tucanato ganha as eleições neste ano, numa tacada se desmonta tudo. Estruturalmente não ferimos os pilares da exploração do trabalho no Brasil”, critica. “O governo trouxe benefícios para os trabalhadores e para os setores mais pauperizados, com o Bolsa Família, mas enriqueceu profundamente e ampliou a concentração de capitais de setores nefastos, como sistema financeiro, agroindústria, e isso vai para a conta do Lula e da Dilma.”

2015

Sobre  as perspectivas para 2015, com as eleições, Pochmann não tem dúvidas. “De 2003 para cá, o Brasil se reposicionou no mundo sob vários aspectos. Tem um papel destacado no cenário internacional que não tinha, reconstituiu o mercado interno e reinventou o mercado do ponto de vista da micro e pequenas empresas, por exemplo. Ampliou o emprego e reduziu a desigualdade de renda”, diz. “Medidas que precisam  continuar. A presidenta Dilma é a que melhor tem condições de continuar a tocar essas modificações.”

O cenário a partir de 2015, para Antunes, considerando as possibilidades das pré-candidaturas colocadas, não são muito alvissareiras. “Eduardo Campos se mostra como um Collor civilizado. Vai surfar com a centro-direita. A declaração dele de que ninguém é a favor do aborto é um exemplo disso. Ele diz isso porque quer apoio do catolicismo, dos neopentecostais, das oligarquias e do verde amarelado.”

As outras duas possibilidades, acredita o sociólogo e professor da Universidade Esadual de Campinas (Unicamp), só diferem quantitativamente. “A diferença entre a política social assistencialista do Lula difere da política assistencialista de Fernando Henrique porque uma atingiu 2 milhões, outra atinge 12 milhões de famílias. É uma diferença quantitativa grande. A discussão é sobre a qualidade.”