50 anos do golpe

‘Peço a Deus todos os dias que Jango não tenha sido envenenado’

Filho do ex-presidente aguarda resultados da exumação do corpo do ex-presidente, cobra investigações e lamenta postura do Ministério Público. Ele também é favorável a uma releitura da Lei da Anistia

marcello casal jr./arquivo abr

Restos mortais de Jango foram recebidos em novembro por Dilma (ao lado da viúva, Maria Theresa Goulart) com honras de chefe de Estado

São Paulo – Conseguir uma resposta para uma questão que já atravessa quatro décadas, se João Goulart foi ou não envenenado, é uma obrigação da família e do Estado brasileiro, diz João Vicente, filho mais velho do ex-presidente. O pedido ao Ministério Público foi feito em 2007. No ano passado, com apoio da Comissão Nacional da Verdade, foi feita a exumação do corpo de Jango, morto em 1976, e esperam-se resultados ainda este ano. Mas ele cobra investigações por parte do Brasil, diante das informações disponíveis. “Peço a Deus todos os dias que ele não tenha sido envenenado. Mas as evidências são tantas que parece só estarem esperando um documento do Geisel (o penúltimo general-presidente, Ernesto Geisel, de 1974 a 1979) registrado em cartório.”

A queixa principal destina-se ao MP. “Estamos esperando até hoje que o Ministério Público tenha a coragem, a soberania e principalmente a dignidade de abrir essa investigação. Lamento que o nosso MP continua cego e calado a esse respeito”, critica João Vicente. Recentemente, ele se encontrou com o novo procurador-geral, Rodrigo Janot, que tomou posse há sete meses, e diz ter esperanças de que o pedido será atendido.

A família do ex-presidente quer que sejam ouvidos agentes norte-americanos que teriam participado de reunião em que se tramou a troca de um dos remédios que Jango usava. “Nós queremos esgotar todas as possibilidades, até o fim, para não sermos omissos nessa luta.” Ele lembra que há um processo penal em curso na Argentina, onde Jango morava quando morreu. Segundo João Vicente, autoridades argentinas já disseram que, se o Brasil não o fizer, elas pedirão a realização de oitivas com os agentes dos Estados Unidos. Entre eles, Frederick Latrash (ex-chefe da CIA no Uruguai) e Michael Townley, que teria ajudado a montar, no Chile, uma laboratório para desenvolver venenos destinados a eliminar opositores da ditadura daquele país.

O pedido de ação civil pública, em 2007, foi feito em nome do Instituto Presidente João Goulart. Além de diversos documentos, a família de Jango se baseia em depoimento do ex-agente uruguaio Mario Neira Barreiro, que teria participado da operação. Goulart era vigiado e chegou a ter correspondência furtada em sua própria casa, em 1975, no Uruguai. Um agente não identificado chegou a tirar fotos durante a comemoração de aniversário de Jango.

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João Vicente também se mostra favorável a uma nova leitura da Lei da Anistia, aprovada no Congresso em 1979, ainda sob o regime autoritário. Ele acredita que o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) possa rever sua posição sobre o caso – como já aconteceu em países como Argentina e Uruguai. “O Supremo analisou a Lei da Anistia e a referendou. As sociedades evoluem. O debate sobre os crimes (da ditadura, nos 50 anos do golpe) têm modificado a opinião pública. O STF também muda.”

O filho do ex-presidente acredita que a própria Comissão Nacional da Verdade, que em dezembro apresentará o relatório final, vai recomendar uma reinterpretação da lei. A própria criação da CNV já é uma vitória do governo Dilma e da democracia, aponta. “É uma conquista. Temos mais de 25 anos de sucessivos governos democráticos e a democracia é lenta em sua evolução”, afirma. Para João Vicente, a comissão nacional também deixará muitas “filhas”, que são as comissões estaduais, municipais e temáticas espalhadas pelo país.

João Vicente esteve hoje (10) em São Paulo, para uma entrevista coletiva, organizada pela Agência Sindical e realizada no Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé. À parte, participou de encontro na sede do Sindicato dos Jornalistas.

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