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Casa da Morte

Coronel defendeu laboratório de torturas e mortes montado pelo Exército

'Ele não mostrou arrependimento', diz advogada da CEV-Rio, após depoimento do coronel Paulo Malhães sobre a Casa da Morte, em Petrópolis. Militar é intimado a depor na Comissão Nacional da Verdade
Publicado por Renata Sequeira, especial para RBA
Política
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Juliana Dal Piva/Folhapress (12/2012)
Casa da Morte

Casa da Morte, Petrópolis. Imóvel foi desapropriado pela prefeitura e organizações querem instalação de memorial

Rio de Janeiro – As arcadas dentárias e os dedos das mãos eram retirados. Um corte profundo no abdômen era feito para impedir que o cadáver emergisse. O corpo era, então, posto em um saco impermeável, que não pertencia ao Exército, e jogado em um rio da Região Serrana do Rio de Janeiro. Os métodos utilizados tinha a finalidade de evitar a identificação de presos políticos que passaram pela Casa da Morte, centro clandestino de tortura que funcionou, durante o regime militar em Petrópolis. Esses detalhes foram, enfim, conhecidos ao se tornar público o depoimento do coronel reformado Paulo Malhães, 76 anos, à Comissão Estadual da Verdade do Rio.

O militar, que atuava no Centro de Informações do Exército, foi ouvido pela advogada Nadine Borges, membro da CEV-Rio, e pelo jornalista Marcelo Auler, assessor do órgão. Eles estiveram com Paulo Malhães em duas ocasiões: 18 de fevereiro e 11 de março deste ano, totalizando mais de 20 horas de depoimento. No primeiro momento, o ex-militar se recusou a falar, mas depois de ouvir quais eram os objetivos da comissão, aceitou conversar em sua casa, na Baixada Fluminense.

“Ele não mostrou nenhum arrependimento. Disse que era uma luta anticomunista, do bem contra o mal, e que guerra era guerra e, por isso, era preciso combater o inimigo. Impressionou-me a precisão com que ele contava os fatos e o orgulho que sentia por ter servido ao comando do Exército”, comentou Nadine Borges.

O depoimento de Paulo Malhães trouxe um dado novo: a Casa da Morte era considerada, pela repressão, uma espécie de laboratório. O formato de centro clandestino, alugado por temporada, foi levado para outras partes do país, como São Paulo e Rio Grande do Sul e, mais um, no Rio de Janeiro, em Itaipava (também na Região Serrana). A descoberta do espaço em Petrópolis só foi possível porque a única sobrevivente a sair viva do local, Inês Ettiene Romeu, escreveu um depoimento que foi entregue, em 1979, à Ordem dos Advogados do Brasil.

Paulo Malhães cita Inês em seu depoimento: “A morte dela foi decretada, mas com fins políticos. Um membro do gabinete do ministro tinha de matá-la. Eles iam tornar isso público, o ministro cairia e subiria outro general”. Não é possível precisar quantas pessoas passaram pela Casa da Morte, mas pelas mãos do coronel passaram, segundo ele, 40.

O coronel disse também que foi o responsável pelo desaparecimento do corpo do deputado Rubens Paiva, dois anos após a sua morte, em 1973. O restos mortais do parlamentar foram jogados em um rio da Região Serrana, mesmo destino das vítimas da Casa da Morte. Na edição de domingo passado (16) do jornal O Globo, Paulo Malhães deu outra informação: os restos de Rubens Paiva teriam sido enterrados em uma praia e, depois, jogados ao mar. Para o presidente da CEV-Rio, Wadih Damous, “já passou da hora” de o Exército brasileiro contar a verdade: “O Exército precisa vir a público e contar o que de fato aconteceu. Só as Forças Armadas podem esclarecer o que aconteceu e dizer se é verdade ou não o que contou o coronel Paulo Malhães. Já passou da hora do Exército pedir desculpas ao povo brasileiro e contar a verdade”.

Nadine Borges tem a mesma opinião e diz que, diante dos fatos revelados, o Exército precisa apresentar as fichas funcionais dos oficiais que atuavam no serviço de inteligência e operações. Para a advogada as revelações podem não ser verdadeiras, por isso o que se espera é que o Exército brasileiro apresente as fichas funcionais desse e de outros oficiais que atuaram no serviço de inteligência e operações. “O coronel dizia que era anistiado e que, por isso, nada ia acontecer com ele, mas os crimes que ele cometeu são de lesa humanidade e devem ser denunciados pelo Ministério Público Federal”, disse.

Na próxima terça-feira (25), a Comissão Nacional da Verdade realiza, às 9h30, no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, uma audiência pública sobre a Casa da Morte. Na ocasião, a CNV apresentará um relatório preliminar e mostrará filmes, fotografias e documentos.

Ontem, segundo a Folha de S.Paulo, a Polícia Federal intimou o coronel Malhães a prestar também depoimento à Comissão Nacional da Verdade.