Seca em SP

Após ser comunicado por e-mail sobre racionamento, prefeito estuda ação contra Alckmin

A partir de hoje, 850 mil pessoas em Guarulhos, 75% da população, se somam às 200 mil que já enfrentavam racionamento há cerca de um mês. Prefeitura entende que cidade está sendo discriminada

André Vicente/Folhapress
sebastião almeida

Almeida: “Você não interrompe o fornecimento de um produto de necessidade básica de um dia para o outro”

São Paulo – O prefeito de Guarulhos, Sebastião Almeida (PT), afirmou hoje (14) que estuda o formato de uma ação judicial contra o governo do estado pela forma como a cidade foi comunicada do racionamento de água que irá atingir 850 mil pessoas, três quartos da população. A prefeitura foi comunicada apenas dois dias antes, por um e-mail dos técnicos do governo estadual endereçado ao Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), e os moradores só ficaram sabendo por meio de entrevista coletiva realizada ontem, transmitida pela televisão. Desde o mês passado, outras 200 mil pessoas já passavam por desabastecimento, somando um total de um milhão de pessoas sem pleno acesso a água na cidade.

O racionamento ocorrerá em seis “blocos”, que compreenderão uma quantidade de bairros ainda a ser definida pela prefeitura; em três dos blocos, o fornecimento de água ocorrerá dia sim, dia não. Na outra metade dos bairros haverá um dia de fornecimento normal e três sem água. Haverá rodízio entre as residências que terão água dia sim, dia não, e as que ficarão até três dias com as torneiras secas. Nesta sexta-feira, o nível do Sistema Cantareira atingiu novo recorde negativo: está com 15,5% da capacidade total, e segue em tendência de queda de 0,2 ponto percentual por dia.

“Nós entendemos que tem de reduzir o consumo do Sistema Cantareira, mas esse volume poderia ser recomposto com os reservatórios do Alto Tietê, que não sofrem com desabastecimento. Além disso, é discriminatório que apenas Guarulhos passe pelo racionamento. Por que? Já sofremos déficit há muito tempo”, reclamou. “O e-mail dos técnicos do governo estadual chegou nesta semana, simplesmente informando que de um dia para o outro perderíamos o montante de água que eles retiraram.” O volume de água vendido pela Sabesp à autarquia municipal por cerca de R$ 100 milhões por ano foi reduzido de 4 mil litros por segundo para 3,6 mil litros por segundo.

Almeida se vale do exemplo de São Caetano para afirmar que Guarulhos está sendo discriminada: a cidade do ABC paulista, que também compra água por atacado da Sabesp, não teve o volume oferecido pela Sabesp reduzido. Em nota oficial divulgada à imprensa ontem (13), a empresa estadual afirmou que Guarulhos não teve resultados satisfatórios com a campanha de redução do consumo de água, diminuindo em apenas 2% o consumo das residências. São Caetano, que tem um décimo da população de Guarulhos, teve redução de 18% e está livre do racionamento por enquanto.

“O que nós reiteramos é que, numa situação como essa, você precisa fazer tratativas pessoais e, em segundo lugar, precisa haver tempo para que o governo e as pessoas possam se programar. Quer dizer, você não interrompe o fornecimento de um produto de necessidade básica de um dia para o outro”, lamentou Almeida.

Moradores da cidade se dividem sobre a forma como foram comunicados sobre a falta d’água: enquanto uma parte da cidade soube do racionamento por meio da imprensa local. Outros, como Márcia Maria, moradora do bairro Santa Maria, dizem ter recebido um telefonema da Sabesp. “Ligaram aqui e disseram para economizar água, e que haveria o racionamento. Aqui tem água dia sim, dia não”, conta. “Agora está pior, mas o problema aqui é antigo. Sempre falta água.”

Margarida Silva, moradora do bairro Jardim Cumbica há quatro anos, confirma que, embora a água esteja mais escassa agora, o problema na cidade é antigo. “Desde que eu cheguei aqui, a água é dia sim, dia não. Para mim, não muda nada. Tenho conhecidas aqui no bairro que já vivem aqui há 20 anos, e desde sempre teve problemas, principalmente na periferia”, lamenta.

Posição

Por meio da assessoria de imprensa, a Sabesp informou que realizou reunião presencial com os prefeitos de cidades que compram água em atacado do estado em 7 de fevereiro, e, naquela ocasião, os avisou da possibilidade de racionamento – à época, em seus pronunciamentos públicos, Alckmin negava a possibilidade de haver racionamento em São Paulo.

Sobre a suposta discriminação de Guarulhos, a Sabesp afirmou que tinha um acordo com as prefeituras: as cidades que conseguissem reduzir o consumo por meio do programa de descontos nas contas d’água em até 15% estariam livres de cortes. Guarulhos registrou redução de 2% do consumo de água com a implantação do programa. São Caetano, com um décimo da população de Guarulhos, teve redução de 18% e está livre do racionamento por enquanto.