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Rádio Brasil Atual

Vannuchi: Grella não ficou ‘bem na foto’ ao defender ação

Para comentarista da Rádio Brasil Atual, no contexto em que jovem foi ferido durante protesto no sábado, não cabe à polícia formar prova e decidir se a vítima era ou não uma ameaça
por Redação RBA publicado 28/01/2014 18h56, última modificação 28/01/2014 19h14
Para comentarista da Rádio Brasil Atual, no contexto em que jovem foi ferido durante protesto no sábado, não cabe à polícia formar prova e decidir se a vítima era ou não uma ameaça

São Paulo –  O cientista político Paulo Vannuchi, jornalista e comentarista da Rádio Brasil Atual, criticou hoje (28) declaração do secretário da Segurança Pública do Estado de São Paulo, Fernando Grella, por defender os policiais que atiraram contra o jovem Fabrício Proteus Chaves. Fabrício, de 22 anos, está internado desde o sábado depois de ter sido baleado no bairro de Higienópolis.

Durante entrevista coletiva, Grella argumentou que “imagens que me foram mostradas são de uma agressão que em tese justificaria a legítima defesa”. Vannuchi lamentou: “Não ficou bem na foto, nem um pouco, o secretário de segurança de São Paulo, que já teve algumas atitudes boas, acatando uma antiga reivindicação dos direitos humanos, que era mexer no processo em que parte grande das mortes por policiais se dava no trajeto em que o policial fazia com a pessoa ferida até o hospital.” Para o analista, não cabe à polícia, num contexto daqueles, formar uma prova sobre se a vítima oferecia ou não risco aos policiais.

“Chegou a ser ridícula a foto na mídia com o ‘material suspeito’ apreendido com o jovem. Um celular com aqueles fios para colocar no ouvido. Me lembrou muito... uma famosa exposição que a ditadura organizou ali no antigo Diários Associados, na rua 7 de Abril”, comparou. “Foi exposto o material apreendido na ocupação do conjunto residencial da USP, tido como aparelho subversivo. Ali, no material apreendido, havia pílulas anticoncepcionais. Na mentalidade da ditadura pílula anticoncepcional era uma coisa subversiva, comunista, perigosa.”

Segundo Vannuchi, há uma memória da ditadura que não foi bem trabalhada no Brasil, e governos como o de Geraldo Alckmin refazem a imagem do período. “Vamos lembrar aquela quinta-feira à noite da repressão em junho, em São Paulo, que foi o rastilho de pólvora para explodir o Brasil em milhões de pessoas protestando, inclusive contra a violência da polícia paulista.”

O jornalista avaliou a manifestação do sábado como uma complicada “mistura” de aspectos legítimos com antidemocráticos. “Por exemplo, a palavra de ordem ‘não vai ter Copa’. A melhor esquerda luta pela democracia e se convence de que ela constitui uma espécie de valor universal, não tem classe. É um bem civilizatório. Dizer ‘não vai ter Copa’ é um pequeno grupo sectário que diz ‘não me interessa se a maioria do Brasil quer, eu não quero e pronto’.”

Ele considera justa a manifestação contra a Fifa. “É um grande conglomerado privado, ultracapitalista e que tem atitudes extremamente excludentes. A Copa no Brasil tinha de ter um rosto próprio, dizer ao mundo ‘olha, esse país que é o campeão da luta pela igualdade econômica e social, combate à fome, quer uma Copa que tenha um rosto próprio’. Não será uma Copa em que o estádio será formado exclusivamente por pessoas branquelas, um país em que metade da sua população traz na pele as cores da África.”