'irresponsabilidade'

Lula afirma que espionagem é ‘desatino’ e cobra desculpas dos Estados Unidos

Ex-presidente considera que Snowden presta serviço ao mundo. Ao comentar política externa, diz que ninguém gosta de 'lambe-botas' e que seu governo superou complexo de vira-lata

Ricardo Stuckert/Instituto Lula
lula2.jpg

Lula afirmou que enquanto Bush queria guerra ao Iraque, ele preferiu combater a fome

São Paulo – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou hoje (18) a recente revelação de um esquema de espionagem norte-americano contra governos, cidadãos e empresas de todo o mundo e afirmou que o ex-técnico da CIA Edward Snowden presta um “serviço” à humanidade ao trazer à tona esta história. Durante debate no ABC paulista sobre os dez anos de política externa de governos do PT, ele avaliou ainda que seu governo rompeu com o complexo de vira-lata de que sofria o país.

“Não é aceitável”, disse o petista ao responder à pergunta de um estudante sobre o esquema comandado pelos governos dos Estados Unidos, incluindo o de Barack Obama. “Os países do mundo inteiro têm de exigir dos Estados Unidos uma explicação. É um desatino. É uma irresponsabilidade.”

Lula evitou comentar a decisão do Itamaraty de rejeitar o pedido de asilo a Snowden, que está desde 23 de junho no aeroporto de Moscou à espera de um salvo-conduto para se transferir a um novo local de moradia. O mais provável é que o ex-técnico responsável pela revelação do esquema vá para a Venezuela, que não aceitou as pressões dos Estados Unidos no sentido de que o jovem deva ser encaminhado diretamente a Washington. “Esse rapaz está prestando um serviço à liberdade democrática, denunciando um comportamento não recomendável a um país comandado por um companheiro como o Obama.”

O ex-presidente adotou tom informal ao conversar com os estudantes durante quase duas horas no campus de São Bernardo do Campo da Universidade Federal do ABC (UFABC), passando a limpo a política externa de seu governo e contando casos centrais durante a gestão, deixando de lado o longo discurso preparado por assessores. O petista começou pelo programa de governo, em 2002, para dizer que as relações exteriores empreendidas durante seus dois mandatos não são fruto de boa “maré”, como dizem os críticos, mas de uma preocupação genuína com a América Latina e a África, que tomaram a maior parte de sua fala.

Para ele, os oito anos de governo conseguiram garantir avanços em dois dos três pilares a que se propôs: o combate à fome e a inserção do país no cenário internacional. “Nós não eramos levados a sério. E não éramos levados a sério porque não nos respeitávamos. Vamos falar sério. A gente teve durante muito tempo uma elite com complexo de vira-lata”, afirmou. “Tinha aprendido aqui na direção do Sindicato dos Metalúrgicos que em qualquer tipo de política ninguém respeita quem não se respeita. Ninguém respeita lambe-botas. Vamos ser francos. Aquele cara puxa-saco ninguém leva a sério.”

Nesse sentido, Lula recordou duas histórias que dizem respeito à relação dos Estados Unidos. A primeira foi a visita que fez ao então presidente George W. Bush, “muy nervoso”, em 2002, logo após ser eleito. “O Bush falando, falando do terrorismo, falando e falando. Para mim era tudo novidade. Eu tinha poucos dias que tinha sido eleito presidente e o presidente mais importante que eu tinha visto na minha frente era o da Volkswagen”, recordou. “Depois de ele falar, eu disse que humildemente precisava falar uma coisa: ‘O Brasil não tem nada contra o Iraque. O Iraque fica a 14 mil quilômetros do Brasil. Nunca me fez nada. Não quero fazer guerra contra o Iraque. Minha guerra é contra a fome. Portanto, o senhor faça sua guerra que eu faço a minha’”.

Em seguida, Lula lembrou quando foi pela primeira vez a uma reunião do G-8, grupo de oito nações que até então comandava os rumos do planeta, e que ao longo da década passada acabou substituído pelo G-20, mais amplo, representando a nova distribuição de forças na economia mundial. O ex-presidente disse que se sentiu diminuído no começo por não falar nenhum idioma estrangeiro. “Pensei: ‘Acho que aqueles caras que falavam que não devia ser candidato porque não falava nenhuma língua tinham razão. O que tô fazendo aqui?’”, contou, acrescentando que rapidamente entendeu que o intérprete conseguia suprir sua falta de conhecimento em idiomas.

Fome

Lula relatou que estavam todos os presidentes já reunidos em uma sala de audiência em Evian, na França, quando chegou o chefe de Estado dos Estados Unidos. “Quando ele chegou, todo mundo levantou. Porra, ninguém levantou pra mim. Falei ‘Celso (Amorim), não levanta’. Por que vou levantar para o Bush? Dentro da minha soberania sou mais importante que ele.”

O ex-presidente disse que segue incomodado com a “subserviência” de parte da imprensa brasileira que continua a acreditar que a aliança preferencial com os Estados Unidos é o melhor caminho para o Brasil, que deveria deixar de lado as parcerias na América do Sul. “Obviamente que nós não queremos romper com os Estados Unidos, mas não se pode ficar dependente de um país, de dois países, de um bloco. É gente pobre de espírito. Briga para ver quem é o serviçal mais importante.”

Ao comentar o segundo pilar da política externa empreendida por seu governo, o ex-presidente afirmou considerar vitoriosa sua decisão pessoal de colocar a fome no centro dos debates multilaterais. “Então, tô lá conversando e cada reunião dessas eu introduzia a questão da fome. Eles queriam discutir comércio exterior e eu falava para antes discutir a fome. Eu enchi tanto o saco deles que até anteciparam o almoço porque ficaram com fome”, brincou.

Ele acredita que o ganho de patamar do país se refletiu nas recentes conquistas diplomáticas, com as eleições de José Graziano para comandar a FAO, a agência das Nações Unidas para a alimentação, de Roberto Azevêdo para a direção-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), e de Paulo Vannuchi para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Lula considera que em todas as vitórias a parceria conquistada pelos governos do PT com as nações da América Latina e da África foram o passo fundamental, ao romper com a ideia de que o Brasil era um “império regional”.

O ex-presidente admite, porém, que não houve êxito no terceiro pilar da política empreendida por ele e Amorim, que é a reforma de representatividade das organizações multilaterais. Até hoje Estados Unidos e Rússia, principalmente, barram a possibilidade de mudar a correlação de forças do Conselho de Segurança da ONU e do Fundo Monetário Internacional (FMI), órgãos criados no contexto do pós 2ª Guerra Mundial. Para Lula, a questão é que a “turma” que já frequentava estes “bairros” veta mudanças, levando o mundo a uma perigosa gestão que pode colocar em risco a paz. “Avançamos muito pouco na governança mundial. Os cinco de antes continuam mandando”, lamentou, evocando em seguida a dificuldade das nações europeias de escapar da crise iniciada em 2008-09.

Para o ex-presidente, essa dificuldade reside na aplicação de fórmulas equivocadas e na concentração de poder na tomada de decisões que acabam sendo impostas ao continente inteiro, com reflexos em todo o planeta. Lula recordou que já foram aplicados US$ 9 trilhões de dólares, especialmente em instituições financeiras, na tentativa de resolver um problema que só se agrava. “(Angela) Merkel (chanceler da Alemanha) está com um poder tão grande que conseguiu fazer com a Europa o que duas guerras não fizeram.”