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Aliança desfeita entre PT e PSDB deve definir eleição no primeiro turno em BH

por Tadeu Breda, da RBA publicado , última modificação 21/09/2012 12h30

Apoiado pelo senador Aécio Neves, Márcio Lacerda (à esquerda) lidera pesquisas com 44% (Foto: Frederico Haikal/Hoje em Dia/Folhapress)

São Paulo – A pouco mais de duas semanas para as eleições municipais, marcadas para dia 7 de outubro, a corrida pela prefeitura de Belo Horizonte (MG) é uma das mais polarizadas do país. Sete candidatos disputam o governo da capital mineira, mas, de acordo com as últimas pesquisas de opinião, apenas dois concentram a preferência do eleitorado e têm condições de vencer.

Um deles é o atual prefeito, Marcio Lacerda, do PSB, que lidera as sondagens realizadas tanto pelo Vox Populi como pelo Instituto MDA com 44% das intenções de voto. Lacerda conta com o apoio do senador Aécio Neves, ex-governador de Minas Gerais pelo PSBD e político mais influente do estado. Em segundo lugar, com aproximadamente 30%, aparece Patrus Ananias, do PT, que governou Belo Horizonte entre 1993 e 1997 e, durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que lhe apoia, comandou o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome. A presidenta Dilma Rousseff também trabalha por seu nome.

“Os dois comitês de campanha avaliam que a eleição poderá terminar já no primeiro turno”, comenta o cientista político Rudá Ricci, que monitora a disputa em Belo Horizonte. “Quem ganhar em 7 de outubro provavelmente vai conseguir mais de 50% dos votos válidos, pois os demais candidatos não conseguem somar um percentual razoável para levar o pleito ao segundo turno.” De acordo com os institutos de pesquisa, a soma das intenções de voto de todos os demais concorrentes gira em torno de 3%. Brancos e nulos chegam a 9%.

Racha

A polarização escancara um racha político bastante recente na prefeitura belorizontina, uma vez que Marcio Lacerda fora eleito em 2008 após aliança entre PSB, PT e PSDB. Impensável em outras capitais, como São Paulo, ou mesmo nas esferas federais, a união eleitoral entre os dois maiores adversários da política brasileira não é considerada uma aberração em Minas Gerais. “O estado foi o que mais oficializou coligações entre petistas e tucanos nas últimas eleições municipais, há quatro anos”, anota Rudá Ricci. “Em 2012, PT e PSDB negociaram entrar juntos na campanha em mais de 70 cidades mineiras.”

O deputado federal Marcus Pestana, que dirige o PSDB em Minas Gerais, argumenta que a aliança – “incompreensível para quem olha de fora" – guarda relação com a boa experiência de cooperação política mantida no passado entre o governo tucano de Aécio Neves, à frente do estado, e a administração petista de Fernando Pimental na prefeitura de Belo Horizonte. “A coligação para eleger Márcio Lacerda em 2008 não veio com a chuva nem caiu com o vento”, define. “Houve uma parceria prévia, aprovada pelos cidadãos. Não foi um gesto de magia.” 

O cientista político Rudá Ricci afirma que Lula, então presidente na época da aliança belorizontina, também auspiciou o casamento como estratégia para dividir nacionalmente o PSDB no início de seu primeiro mandato. Ao atrair a simpatia do governador mineiro, diz o analista, o presidente tentou enfraquecer o bastião paulista do tucanato, representado por seus opositores mais radicais: Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Geraldo Alckmin.

Atraso

Apesar de estar 14 pontos atrás do PSB, o PT não parece muito preocupado com a segunda colocação: pelo contrário, diz ver com 'naturalidade' o resultado das pesquisas de intenção de voto realizadas até agora. “Nas últimas cinco eleições, Belo Horizonte viveu um fenômeno de virada às vésperas do pleito”, lembra o coordenador da campanha de Patrus Ananias e vice-prefeito da cidade, Roberto Carvalho. De acordo com o petista, nenhum instituto detectou, por exemplo, a vitória de Marina Silva (PV) na capital mineira nas eleições presidenciais de 2010. Em 2008, continua Carvalho, todas as previsões indicavam que o atual prefeito Marcio Lacerda venceria no primeiro turno – o que não ocorreu. “Essas surpresas são um fenômeno comum na cidade.”

O petista acredita que a candidatura de Patrus Ananias ainda não decolou devido às disputas internas que distraíram o PT belorizontino no primeiro semestre. Isso teria retardado o início da campanha petista: enquanto setores do partido defendiam candidatura própria, outros queriam manter a aliança com Lacerda, cuja reeleição já era esperada. De acordo com Roberto Carvalho, porém, o melhor caminho seria desfazer a coligação, que já começara a dar sinais de fadiga ainda no primeiro ano de mandato. “Sempre denunciei o caráter privatista do governo e a transformação da prefeitura numa empresa”, diz. “Nossa intenção era estabelecer uma aliança que convergisse em função da cidade, mas a prática mostrou que é inviável unir PT e PSDB: são visões de mundo, objetivos e ideologias incompatíveis.”

O deputado federal Marcus Pestana, que trabalha na coordenação da campanha do PSB, discorda dessa tese. “A aliança entre PT, PSDB e PSB estava de pé até 30 de junho, último dia para a inscrição de candidatos”, resgata. “Prova disso é que havia sete petistas disputando o posto de vice-prefeito na chapa de Marcio Lacerda.” Pestana avalia que a coligação acabou devido à ação de um grupo minoritário e oportunista do PT belorizontino, representado por Carvalho, e critica o partido por ter acabado com uma coligação que estava funcionando bem. Mas o tucano está longe de lamentar o rompimento. “Eles jogaram o prefeito no nosso colo.” Desde então, diz, tudo tem ocorrido dentro do esperado.

Gestor

Por isso, a liderança de Marcio Lacerda nas pesquisas é vista também com 'naturalidade' por seus apoiadores. “Foi o prefeito mais bem avaliado de todo o Brasil nas capitais, fez um grande plano de investimento em parceria com os governos federal e estadual, avançou muito nas políticas sociais e é um bom gestor, com experiência empresarial e sensibilidade política”, diz Marcus Pestana. “É uma candidatura decantada, amadurecida pelo tempo. Ao contrário da candidatura do Patrus Ananias, que é improvisada e inconsistente. Ele apoiava o nome do Marcio para a prefeitura de Belo Horizonte até o último momento, e não se preparou para ser candidato.”

Ao comentar o favoritismo de Marcio Lacerda, o cientista político Rudá Ricci analisa que o prefeito não é uma liderança política em Belo Horizonte ou Minas Gerais – não porque não seja capaz de galgar essa posição, mas porque nunca se propôs a isso. “Desde o início se colocou como um gestor, dizendo que implantaria no governo municipal os modelos de gestão empresarial”, explica. A promessa de 'apenas' administrar a cidade, evitando conflitos, se traduziu, segundo Rudá, em pesados investimentos em infraestrutura e segurança pública. A dupla aliança – com os tucanos no governo de Minas e com os petistas em Brasília – ajudou o prefeito a captar recursos.

“O resultado dos últimos quatro anos é o seguinte: eleitor belorizontino não sabe porquê mudar. Tanto o governo federal como o estadual despejaram muito dinheiro na cidade, há obras espalhadas pelos bairros. A questão é: pra que trocar Lacerda por Patrus, que parece tão semelhante?”, atesta. “A tendência é conservar aquilo que não está ruim. Até porque a campanha do Patrus não conseguiu se posicionar como alternativa no confronto com o Lacerda.”