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Comissão no ABC poderá investigar ligação de indústrias com a ditadura

PT em São Bernardo do Campo debate apresentação de projeto no início da próxima legislatura, em 2013, para criar colegiado nos moldes do federal
por estevan publicado , última modificação 26/06/2012 16h30
PT em São Bernardo do Campo debate apresentação de projeto no início da próxima legislatura, em 2013, para criar colegiado nos moldes do federal

Cartaz contra a intervenção, em 1980, um dos acontecimentos que deveriam ser investigados na comissão (Foto:Metalúrgicos do ABC/Arquivo)

São Paulo – A cidade de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, pode criar no próximo ano uma Comissão da Verdade que investigue a relação das indústrias da região (montadoras multinacionais, na maior parte) com a ditadura de 1964 e seus crimes. O PT local iniciou na última semana um debate interno sobre a possibilidade de apresentar, na próxima legislatura da Câmara, projeto de lei para instaurar um colegiado nos moldes dos já criados nos âmbitos federal e estadual.

A iniciativa é encabeçada pelo ex-deputado e atual suplente de vereador Wagner Lino, que foi líder sindical nos anos 1970/1980 e hoje é anistiado político. “Os militares são os que aparecem na frente, mas a ditadura tem por trás dela os grandes monopólios que atuam dentro dessa região”, disse. Segundo ele, a força repressiva teria agido como segurança das fábricas. “A forma como eles agiam nos períodos de greve deverá ser investigada”.

Ele contou que as empresas tinham técnicas de sabotagem das greves para esvaziar os movimentos sindicais. “Na fábrica da Volkswagen, policiais, vestidos de operários, fingiam entrar na fábrica para trabalhar, protegidos pela Tropa de Choque, e ligavam as linhas , para fazer os trabalhadores acreditarem que ela estava aberta e que podiam voltar ao trabalho.”

O ABC paulista concentrou boa parte da indústria metalúrgica brasileira durante a segunda metade do século 20. O então Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema realizou greves por aumento salarial e melhoria das condições de trabalho entre 1978, 1979 e os primeiros anos da década de 1980, juntamente com outras entidades da região. Em 1980, diretores do Sindicato dos Metalúrgicos, entre eles Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República, foram presos. Eles eram acusados de infringir a Lei de Segurança Nacional (LSN)

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Exército ocupa sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, em 1980 (Foto:Sindicato dos Metalúrgicos do ABC/Arquivo)

 

Lino integrava o comando de greve desse sindicato. Disse que teria sido preso também naquele momento, não tivesse o Departamento de Ordem Política e Social (Dops) o endereço errado de sua residência. Após a prisão dos companheiros, liderou a greve de 1980, contra a LSN. Ele enfatizou que muitos dos crimes da ditadura ocorreram em São Bernardo do Campo. Para ele, é fundamental investigar o papel das grandes empresas que têm suas fábricas instaladas no ABC paulista durante o período. 

A proposta de Lino ainda vai ser discutida na executiva do PT. O presidente do partido em São Bernardo, Wanderley Salatiel, é a favor da criação da comissão. “Todos os municípios deveriam ter essas comissões", disse ele. “Quando o companheiro Wagner trazer isso para a executiva, vou dar todo apoio.” Salatiel acredita que a comissão é necessária diante do momento histórico que o Brasil vive. 

“Sou plenamente a favor disso, pra poder, inclusive, ajudar a Comissão Nacional da Verdade.” Ele não acredita que haverá oposição à empreitada dentro do partido. “A Comissão Nacional da Verdade veio tarde. Que filiado ou militante vai ser contra isso? Todo mundo é a favor de que se apure o que aconteceu nesse período da história”, comentou.

Além da comissão, Lino fala em criar um grupo de trabalho para recolher relatos de pessoas que testemunharam os crimes cometidos. “Será um comitê amplo, pela justiça e verdade do ABC, com o objetivo de congregar toda a sociedade civil, os sindicatos  e os partidos políticos que têm vontade participar”, disse.

A Comissão Nacional da Verdade foi instituída por lei em novembro do ano passado e instalada oficialmente em maio deste ano para investigar as graves violações contra os direitos humanos cometidos pelo Estado entre 1946 e 1988. 

Comissões em instâncias regionais têm sido criadas para contribuir com a apuração e cooperar com a comissão nacional. Em abril, a Assembléia Legislativa de São Paulo criou a Comissão da Verdade de São Paulo, presidida pelo deputado estadual Adriano Diogo (PT), e neste mês foi instalada a de Pernambuco. A comissão de São Bernardo seria a segunda municipal. A primeira é a de São Paulo, presidida pelo vereador Ítalo Cardoso (PT), também criada em abril.