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Protagonismo de Lula nas eleições encerra modo de fazer campanha

Principal cabo eleitoral da campanha não encabeçava candidatura pela primeira eleição presidencial desde a redemocratização. Comícios e candidatos carismáticos podem estar em extinção, dizem analistas
por João Peres, da RBA publicado , última modificação 02/10/2010 18h50
Principal cabo eleitoral da campanha não encabeçava candidatura pela primeira eleição presidencial desde a redemocratização. Comícios e candidatos carismáticos podem estar em extinção, dizem analistas

Lula em comício, modalidade de campanha que pode desaparecer (Foto: Roberto Stuckert/PR)

São Paulo – A eleição à Presidência da República de 2010 foi a primeira desde a redemocratização sem que Luiz Inácio Lula da Silva fosse um dos candidatos. Derrotado nas três disputas (1989, 1994 e 1998), ele venceu as duas últimas (2002 e 2006). Ainda assim, seu papel foi de destaque no pleito deste ano, já que se trata do principal cabo eleitoral por todo o país. Lula foi a liderança que mais participou de comícios, uma modalidade de se pedir votos à beira da extinção.

O candidato de oposição José Serra (PSDB) participou de apenas dois comícios (um na Paraíba e outro em São Paulo), enquanto Marina participou de um outro, na Bahia. Indio da Costa chegou a admitir, em agosto, que a falta de garantia de público era o motivo de não se adotar a fórmula, apesar de o comando da campanha alegar que se tratava de uma opção do candidato.

A tendência pôde ser vista em 2006 e mesmo em 2002. Entre os quatro principais candidatos, apenas Dilma Rousseff (PT) manteve uma agenda mais constante de comícios – ainda assim, sempre na presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sozinha, mesmo a candidata governista ou outras lideranças do PT teriam dificuldades de mobilizar tantos entusiastas por todo o Brasil.

Os eventos, capazes de reunir centenas de milhares de pessoas, foram adquirindo certo caráter mítico com o passar do tempo e ajudando a contar momentos fundamentais da história brasileira da segunda metade do século XX. O comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, às vésperas do golpe de 1964, os em defesa das Diretas Já e das primeiras eleições são exemplos.

Jorge Coelho, ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores de São Paulo (CUT-SP) e apresentador de alguns dos comícios da campanha de Lula em 1989, é um dos que esperam a retomada do romantismo na vida eleitoral. “O comício, para quem gosta e respira política, é o principal oxigênio. Num palanque você sente o retorno da massa. Percebe se o discurso está entrando bem no ouvido ou não”, afirma o atual secretário de Mobilização do PT.

Analistas apontam algumas causas para a diminuição da importância destes eventos na campanha eleitoral. A redução do número de militantes partidários é um dos fatores, junto da quase inexistência de líderes carismáticos, formados na política das ruas. “O que está acontecendo é uma concentração nos meios de comunicação”, avalia André Singer, professor da Universidade de São Paulo (USP) e especialista na análise do comportamento eleitoral. A entrada da internet tende a expandir mais o universo que é abrangido pelos meios de comunicação, e a tendência é haver cada vez menos eventos presenciais”, prevê.

O foco nos meios de comunicação se tornou maior a partir do início desta década, com a entrada mais forte das equipes de marketing nas campanhas. Se, por um lado, os chamados “marqueteiros” colaboram para o sucesso de algumas candidaturas, por outro eliminam uma parte da espontaneidade dos atos políticos.

“O pessoal ficou dependente dos estudos. A gente antes não tinha muito essa coisa de pesquisa, de qualitativa. A gente mesmo trazia a qualitativa da fábrica, do bairro, era uma coisa mais espontânea – e que poderia até estar errada”, relembra Coelho.

O secretário de Mobilização do PT reclama das amarras impostas pelas novas leis eleitorais, aprovadas na minirreforma de 2006. Uma das questões é a proibição dos showmícios. A campanha de Lula em 2002, por exemplo, contou com shows da dupla de sertanejos Zezé di Camargo e Luciano. Mas, desde 2006, showmícios estão proibidos pela legislação eleitoral. “Se o artista é engajado e vai participar por conta própria, não vejo problema”, critica Coelho.

Emmanuel Publio Dias, diretor corporativo da ESPM e especialista em marketing político, considera que esse é mais um fator que abala a realização de comícios. “O problema tem origem na desmobilização do eleitorado e na fraqueza dos partidos. Como os artistas hoje estão proibidos, o comício tende a morrer.”

Contato com o eleitor

André Singer acredita que há um setor do eleitorado que continua utilizando o contato direto para definir seu voto e conhecer melhor as propostas. “Minha impressão é de que a prática do comício vai continuar existindo, mas não acredito que sejam comícios multitudinários, de grandes presenças”, pontua.

O primeiro comício do PT em São Paulo na atual campanha reuniu alguns exemplos deste eleitorado citado por Singer. Neste momento, mais que definir voto, muitos dos que compareceram ao evento de 21 de agosto em Osasco queriam demonstrar apoio ao presidente Lula e à continuidade de seu trabalho. “Esse é um projeto único. Não vai voltar mais. A gente precisa continuar”, afirmava o sindicalista Nilton Arlindo de Lima.

Ricardo Kotscho, que acompanhou as campanhas de Lula em 1989, 1994 e 2002, entende que, no momento atual, é evidente que o comício em si não tem grande potencial na formação do eleitorado. “Mas o clima que se criava ali era usado no programa de televisão. A participação popular, a emoção, tudo vinha dali”, afirma. Diante disso, ele compara uma campanha sem comícios a um estádio de futebol sem torcida.

Rachel Meneguello, professora do Departamento de Ciência Política da Unicamp, entende que o comício tem um significado simbólico poderoso. “Apesar das formas contemporâneas de fazer política terem ultrapassado em muito o espaço físico da praça pública, por meio das antigas (TV) e novas tecnologias (internet), os comícios devem permanecer, pois são eventos que agregam militância, atraem interessados pela política, permitem 'celebrar' o candidato”, defende.

Lula

A aprovação entre 70% e 80% colabora para que o presidente seja admirado e festejado, mas há fatores bem anteriores a isso. O fim do atual governo é o desfecho de uma era em que a política foi construída nas ruas. Lula fez-se líder político na vida sindical, nas assembleias dos metalúrgicos do ABC – que até pareciam comício –, e ampliou o protagonismo para o âmbito nacional na campanha das Diretas, em 1984, ao lado de figuras como Leonel Brizola e Ulysses Guimarães.

Naquele tempo, embora a contagem do número de militantes tenha ficado ao gosto de cada um, o certo é que se reuniam multidões: centenas de milhares de pessoas. E, como lembra Kotscho, Lula era o mais aplaudido. “Foi uma coisa absolutamente nova. Tem poucos casos no mundo de uma história assim. Conseguiu somar as duas coisas: é um líder de massas e é também um líder político. Teremos novos líderes políticos, mas não vejo no horizonte um novo líder de massas”, analisa.

Pouco antes, em 1979, Kotscho recebeu a missão de seu chefe na IstoÉ, Mino Carta, de ser uma espécie de especialista em Lula. A partir das greves do ABC, profetizava Mino, o Brasil começaria a mudar. “Ninguém poderia imaginar naquele momento que a história fosse seguir o rumo que seguiu. Mas dava para notar que era um cara diferente do que se conhecia”, afirma Kotscho, que dez anos depois, já amigo de Lula, seria o responsável pela relação da campanha do petista com a imprensa.

Lágrimas e golpe baixo

Alguns dos comícios realizados na campanha de 1989 entraram para a história. Diz a mítica lembrança que, no Rio de Janeiro, reuniram-se 800 mil pessoas na reta final das eleições. Em São Paulo, em frente ao Pacaembu, teriam sido 350 mil. Jorge Coelho, que foi o animador do evento na Praça Charles Miller, lembra que a montagem das barracas de candidatos teve início logo depois do meio-dia de um domingo. “Lá por uma seis horas a gente começou. O Lula deveria chegar às oito. Lembro que Mário Covas e Brizola estavam no comício. E nada de o avião do Lula chegar. Foi chegar 22h30. E nós fazendo graça, enrolando.”

Mas a emoção mais clara de Coelho é de um outro comício, em Campinas. Quando questionado sobre como é a sensação de ter o microfone nas mãos para mexer com as massas, os olhos ficam marejados. Como era necessário produzir imagens para a campanha na TV, o jeito foi pedir para que a plateia fizesse o L de Lula por três vezes, até ficar a contento. “Pessoal, a foto não ficou legal e a gente vai ter que repetir. Os companheiros que concordam colocam a mão pro alto e fazem o L de novo.” Todo mundo levantava a mão.

Mas nem tudo foi alegria. Os comícios eram muitos, às vezes mais de dez em um dia, e o cansaço prejudicou Lula em debates na TV – erro que não repetiria mais tarde, em 2002 e em 2006, quando preferiu repousar em dias assim. O pior momento, no entanto, foi visto no dia em que Fernando Collor, adversário de então, utilizou a vida familiar de Lula na campanha eleitoral, exibindo o depoimento de uma ex-namorada. O horário eleitoral havia acabado de ir ao ar quando começou o comício em Minas Gerais. “Aquilo o abalou muito, certamente influiu no ânimo do Lula; mexeu com a alma dele”, relembra Kotscho.

O tempo passou, Lula realizou centenas de outros comícios, seja em campanha, seja nas Caravanas da Cidadania, e chegou ao Planalto. Difícil, agora que se aproxima o fim deste ciclo, é imaginar se surgirá um líder capaz de atrair as massas como antes. “Lula talvez seja a única figura política atual que combine carisma,talento e conteúdo”, resume Rachel Meneguello.