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Proposta de Kassab afeta bolso e tempo de quem usa fretado em São Paulo

Usuários estimam que restrição a fretado pode até dobrar os custos com a viagem e aumentar o estresse com transporte público apertado ou carro parado no trânsito
por João Peres, da RBA publicado , última modificação 02/07/2009 19h05
Usuários estimam que restrição a fretado pode até dobrar os custos com a viagem e aumentar o estresse com transporte público apertado ou carro parado no trânsito

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)

Mais cansaço, menos dinheiro no bolso e muito tempo perdido no trânsito. Assim pode ficar a vida de ao menos 250 mil pessoas (de acordo com o setor, e 50 mil para a prefeitura) a partir de 27 de julho caso entre em vigor a portaria do prefeito Gilberto Kassab que restringe a circulação de ônibus fretados em São Paulo.

A demarcação de uma área de cerca de 70 quilômetros quadrados na qual esses veículos não poderão entrar mexe com os ânimos dos passageiros. Muitos deles vêm da Baixada Santista tendo como destino vários bairros paulistanos. Bruna Chiaroni, jornalista que hoje perde quatro horas diárias no deslocamento casa-trabalho-casa, prevê um futuro ainda mais complicado. Como trabalha na Avenida Paulista, a única alternativa interessante é que o ônibus pare na estação Santos-Imigrantes do metrô, de onde ela levaria mais 15 ou 20 minutos até o trabalho.

No entanto, se tiver que utilizar as linhas comuns, além de levar muito mais tempo desembarcando no Jabaquara e utilizando trens lotados, a jornalista vai sentir no bolso a mudança. A passagem São Paulo – Santos é de R$ 17,07 e o bilhete do metrô custa R$ 2,55. Calculando 22 dias de trabalho por mês, o desembolso será superior a R$ 800, contra R$ 375 gastos atualmente.

“Em termos de viabilidade, de conforto, não tem nem comparação. Uma das coisas que a gente cogita é vir de carro. A gente tem happy hour do fretado toda sexta-feira, é muito cômodo. Se eu for morar aqui em São Paulo, não vou gastar R$ 375 mensais nunca. É totalmente desgastante, não faz sentido nenhum”, afirma.

Situação ainda pior terão aqueles que trabalham em áreas que não são servidas por transporte subterrâneo e que sofrem com grandes congestionamentos. É o caso de milhares de pessoas que se deslocam até bairros como Brooklyn, Vila Olímpia e Morumbi, onde estão alguns dos escritórios de São Paulo.

Para o diretor executivo do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros por Fretamento para Turismo de São Paulo e Região (Transfretur), Jorge Miguel dos Santos, o usuário “vai perder na medida em que vai ter de complementar o gasto com o serviço de integração que a prefeitura está oferecendo", lembra. "Acreditamos que, dependendo do serviço, deve ter um acréscimo de 35% a 40% no gasto mensal de transporte", calcula.

Na verdade, é algo mais do que isso, como mostram os casos de Bruna Chiaroni e de Marcus Fidalgo, administrador de empresas que trabalha na Marginal Pinheiros, cujos gastos com deslocamento podem facilmente dobrar. Trabalhando em uma região sem metrô e com poucos ônibus, ele terá que descer na estação Jabaquara, ir até as Clínicas (com uma baldeação na Ana Rosa), de lá apanhar um ônibus, descer próximo ao Largo da Batata e caminhar alguns minutos. No mínimo, uma hora a mais na ida e outra hora na volta.

Em carro próprio, um dos grandes problemas é o aumento de custos. Segundo cálculos do Transfretur, os gastos indiretos, como depreciação do veículo, juros de financiamento e seguro são até 6 vezes mais altos que os custos diretos (combustível e manutenção).  Nas contas da entidade, rodar dois mil quilômetros por mês gera um impacto de R$ 1118. Quem vive em Santos e trabalha em São Paulo, no entanto, teria que dirigir no mínimo 3.200 quilômetros por mês, ou seja, o custo seria de R$ 1.788. Caso a decisão fosse dividir por cinco pessoas, cada um teria que desembolsar R$ 357. Gasto parecido com o do fretado, mas então entra outro fator: o estresse.

Fábio Alexandre Paixão, que preside a Associação de Fretamento de Executivos da Baixada Santista, não tem dúvidas de que a portaria mexe com a qualidade de vida dos usuários. “Você vem tranquilo no ônibus, é um momento de descontração e em que o pessoal está se ‘desestressando’. Eu gostaria de perguntar para o prefeito se ele já mensurou o tempo que os ônibus vão gastar para embarque e desembarque nos bolsões de estacionamento”, ressalta.

Luis Antônio de Lara, presidente da Associação dos Executivos da Baixada Santista (AEBS), aponta que está sendo realizada uma pesquisa com os usuários para saber quais soluções são estudadas individualmente. A entidade analisa recursos jurídicos para invalidar a portaria de Gilberto Kassab. “O prefeito não está preocupado com o meio ambiente, com o trânsito. Tanto que está tirando o fretado e colocando mais linhas urbanas, então não está preocupado com o meio ambiente”, afirma.

Entrevistado pela Rede Brasil Atual, o ex-presidente da CET Chico Macena está convicto  de que a medida terá impacto negativo sobre o trânsito da cidade. “Proibir jamais porque nós consideramos o fretado também um transporte público. Está sob a fiscalização da prefeitura e, se for regulamentado, gera imposto e presta serviço”, aponta. 

O presidente da AEBS reclama da falta de diálogo da atual gestão: “em nenhum momento fomos chamados para conversar. Só fomos comunicados. Para que se tenha uma ideia, a prefeita Marta Suplicy fez um decreto, mas a equipe dela chamava a gente para sentar e debater a portaria antes de ser lançada. Agora, não, estão com ditadura”.

Regularização

Usuários e presidentes de entidades que conversaram com a reportagem são unânimes em apoiar a regularização dos fretados.

“Se existe fretamento ilegal, você tem fiscal para isso. Quando há algo irregular, apreende o ônibus, isso é fácil de fazer. Eu não vejo essa vontade, vejo sim outros jogos de poder nesse sentido, uma tentativa de beneficiar interesses privados”, afirma Marcus Fidalgo.

Fábio Alexandre Paixão acrescenta que deve mesmo haver regulamentação “porque há uma pequena baderna por parte de alguns ônibus. O que não pode é a maioria pagar pelos erros da minoria. A prefeitura acabou colocando todo mundo no mesmo patamar”.

O ex-presidente da CET e hoje vereador Chico Macena defende que os fretados tenham apenas dois ou três pontos de parada pelo caminho ou ainda que seja realizada a viagem desde a origem até o destino sem paradas. 

A mesma opinião tem o deputado federal Carlos Zarattini,ex-secretário Municipal de Transportes, que considera que a medida de Kassab "mostra o grau de desorientação que a atual gestão tem em relação ao tema. Acham que o transporte público vai ser resolvido tirando um outro tipo de transporte público”.