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Impasse na USP é sinal de autoritarismo do governo, diz Benevides

Para professora, inabilidade da reitoria e falta de diálogo provocam o impasse. “Não há salvação fora da política”, sustenta em entrevista à Rede Brasil Atual
por João Peres, da RBA publicado , última modificação 17/06/2009 18h00
Para professora, inabilidade da reitoria e falta de diálogo provocam o impasse. “Não há salvação fora da política”, sustenta em entrevista à Rede Brasil Atual

A professora Maria Victoria Benevides em debate ao lado de Marilena Chauí e Antônio Cândido (Foto:

A ação da Polícia Militar na semana passada, que deixou feridos e detidos, é uma prova da inabilidade da reitora e de um “renovado e constante autoritarismo” do governador José Serra. A afirmação é da  professora Maria Victoria Benevides, da Faculdade de Educação da USP. Ela afirmou reiteradas vezes ao longo dos 40 minutos de entrevista à Rede Brasil Atual que não há salvação para o impasse fora da política, com diálogo entre diretores, representados pela reitora Suely Vilela, e o de setores de manifestantes que tentam tensionar a situação.

Maria Victoria Benevides

Professora da Faculdade de Educação da USP, é uma importante cientista política brasileira e também uma das pioneiras na questão dos direitos humanos. Nos últimos anos, dedica-se à questão dos limites da democracia representativa e da educação como forma de cidadania.

Diferentemente de muitos setores, ela considera que a saída de Suely Vilela do cargo não seria o melhor neste momento. A professora classifica como fora do campo democrático qualquer tentativa de mexer com o mandato de reitora. “[Suely Vilela] deve ficar até o fim, enfrentando a situação de uma maneira democrática e abrindo espaço para o diálogo, imediatamente ordenando a saída da polícia do campus”, afirma. 

Sobre a possibilidade de eleições diretas para o cargo, Benevides acredita que a medida seria insuficiente para modificar a estrutura de poder. A greve atual também chamou atenção para a necessidade de garantir mais transparência à instituição.

Formada em Ciências Sociais, Maria Victoria Benevides dedica-se desde os anos 70 aos estudos políticos e da área de educação. Ela foi uma das participantes de debate na terça-feira (16), junto de Antonio Cândido e Marilena Chauí.

Confira os principais trechos da entrevista concedida à Rede Brasil Atual.

RBA: Como a senhora tem visto os desdobramentos dos fatos da última semana na USP?

O mais importante é dizer que os estudantes, os que estão participando, que são muitos, mas sempre uma minoria, estão conscientes da  necessidade de procurar caminhos de diálogo com os dirigentes universitários, com o sindicato de funcionários e com a Adusp [Associação dos Docentes da USP]. Isso é muito importante porque há sempre nesses movimentos ou agentes provocadores que apostam no “quanto pior, melhor”, ou grupos políticos minúsculos que usam esses movimentos para conseguir adeptos de uma maneira que, dentro do espírito universitário, não tem cabimento.

Vejo, principalmente a partir do evento de terça [16], em que compareci junto com nosso grande mestre, o professor Antônio Candido, e a professora de filosofia Marilena Chauí, que não houve nenhuma manifestação a favor de atos mais violentos. Sequer palavras de ordem no sentido de “fora, reitora”, esse tipo de coisa.

"Não há a menor dúvida sobre a inabilidade da reitoria em encaminhar todo esse processo de negociação. Eu costumo dizer que fora da política não há salvação porque a única alternativa que existe para a política é a violência. Foi isso que ocorreu no campus da USP." – Maria Victoria Benevides

Insisti particularmente na importância da política como busca do bem público que exige um respeito à posição da maioria, mas sempre com regras claras de deliberação e principalmente com o idêntico respeito aos direitos das minorias. Acho que esses momentos são pedagógicos no sentido de educação política, de educação para a cidadania democrática.

Agora, não há a menor dúvida sobre a inabilidade da reitoria em encaminhar todo esse processo de negociação. Eu costumo dizer que fora da política não há salvação porque a única alternativa que existe para a política é a violência. Foi isso que ocorreu no campus da USP.

RBA  – A inabilidade da atual gestão da reitora a que a senhora se refere havia sido demonstrada em outros momentos?

Sem dúvida. Desde o começo, a reitoria se mostrou longe da Universidade, longe do conjunto. Eu ouso crer, sem julgamento moral, longe disso, que [influenciaram] os fatos lamentáveis por ocasião do último movimento [em 2007], quando ocorreu a ocupação da reitoria. A inabilidade dos dirigentes para lidar com a situação ficou muito clara. O episódio trouxe muitas críticas, tanto pelo lado dos manifestantes, que reclamaram da dificuldade de diálogo, quanto pelo dos mais conservadores, que queriam uma atuação mais dura e repressora. Na ocasião, a reitora foi considerada fraca. Agora, provavelmente, ela e o grupo dirigente acharam que não era possível desistir da repressão, inclusive atendendo ao governador do estado [José Serra] que, numa prova de renovado e constante autoritarismo, enviou a Tropa de Choque. E considerou que foi uma atitude correta.

RBA – Como a reitoria poderia ter evitado a presença da PM?

"Pessoalmente, participo da greve como docente e como cidadã responsável. Reconheço o direito de greve, mas não aceito que, em nenhum momento, as possibilidades de diálogo sejam travadas, seja pela ação de dirigentes irresponsáveis ou inábeis, seja pela ação violenta de dirigentes grevistas." – Maria Victoria Benevides

O diálogo e o chamamento das entidades representativas evitaria a violência. Porque polícia – ainda mais armada –, no campus, em hipótese alguma [seria aceitável]. A Cidade Universitária já tem sua guarda, não existe razão para chamar a Tropa de Choque para resolver problemas com piquetes de greve. Este tipo de violência enseja a reação de alguns grupos no sentido de que esta seja a única saída, ou então, como alguns dizem, “agora, a única saída é ir para o pau”. Isso é absolutamente inadmissível no meio universitário. Pessoalmente, participo da greve como docente e como cidadã responsável. Reconheço o direito de greve, mas não aceito que, em nenhum momento, as possibilidades de diálogo sejam travadas, seja pela ação de dirigentes irresponsáveis ou inábeis, seja pela ação violenta de dirigentes grevistas.

RBA – Qual tem sido o peso das pressões externas na Universidade, principalmente do Executivo estadual? 

"A reitoria tem que prestar contas tanto de ações quanto de omissões. É interessante porque em todos os estatutos da USP não existe nenhuma referência a uma eventual sanção àqueles que ocupam os cargos mais altos de poder da Universidade." – Maria Victoria Benevides

O peso é muito grande. O reitor é escolhido pelo governador numa lista tríplice. Deve-se levar em conta que ele é eleito por um colégio eleitoral reduzidíssimo e que já representa o poder consolidado. Apesar de não ver as escolhas partidárias como o mais importante – mais ainda hoje, com partidos fazendo as alianças mais absurdas – quem está no poder na universidade é também ligado ao grupo político do governador.

O que vejo como importante é a concepção da democracia e, principalmente, a responsabilização dos governantes. Não apenas de prestar contas de seus atos, mas de ser eventualmente sancionado por suas ações ou omissões. A reitoria tem que prestar contas tanto de ações quanto de omissões. É interessante porque em todos os estatutos da USP não existe nenhuma referência a uma eventual sanção àqueles que ocupam os cargos mais altos de poder da Universidade.

RBA – Que tipo de sanção poderia haver à reitora?

Em hipótese alguma estou dizendo que a reitora deva sair. Pelo contrário, acho que ela deve ficar até o fim, enfrentando a situação de uma maneira democrática e abrindo espaço para o diálogo, imediatamente ordenando a saída da polícia do campus. Nesse ponto, concordo inteiramente com os manifestantes que não há possibilidade de diálogo com a presença da polícia. Qualquer tentativa de mexer com o mandato da reitora está fora do campo democrático. Sei que há gente que defende isso e gente com propósitos democráticos, mas eu não concordo com essa posição.

Mas deveria haver algum mecanismo na Universidade que tivesse o poder de exigir dos reitores não apenas transparência e prestação de contas, mas algo que fosse uma sanção, uma advertência. Se até o presidente deve prestar contas ao Supremo Tribunal Federal e pode sofrer um processo por crime de responsabilidade, por que o reitor da universidade não?

RBA – Eleições diretas para o cargo de reitor seriam uma forma de assegurar mais diálogo?

Não adianta só definir um reitor por eleição direta, temos realmente que modificar a própria estrutura de poder. O Conselho Universitário deveria rever muito do que se refere à própria estrutura de poder. Mas isso, sem envolvimento geral da universidade, vai ser muito difícil. Precisamos retomar espaços de discussão e de deliberação com todas as categorias da universidade para enfrentar o que eu considero o grande problema da USP, e de outras universidades, que é a extrema concentração de poderes em uma estrutura fechada. [Isso gera] inércia diante das necessidades de mudança e, principalmente, diante da necessidade de se abrir, para as diferentes categorias, espaços de participação mais condizentes com seu papel na Universidade. 

Aspectos importantes que também surgiram nessa greve se referem às dificuldades de se conhecer realmente o orçamento, os custos, as despesas e os investimentos da instituição. Os dados de um lado e de outro nunca batem, e é essa caixa preta que tem que ser mais transparente.

RBA – Como a senhora vê a cobertura da mídia desses episódios?

Esse foi outro tema que apareceu com força no debate de terça, contestar o que a chamada grande imprensa considera como um “viés corporativista da universidade” e o fato de [a mídia] considerar que, ao criticar os projetos de ensino a distância, os estudantes ditos “privilegiados” estariam contra os estudantes pobres. É algo absolutamente absurdo. As críticas feitas ao programa de ensino a distância são críticas de quem conhece bem o problema e que não significam uma aversão total ao tema, mas uma reivindicação para que essa discussão seja mais aprofundada, e que dela saia um projeto que realmente atenda às necessidades do país.

As [unidades de Ciências] Humanas acabam sendo estigmatizadas como a área dos baderneiros por parte da chamada grande imprensa e dentro da própria Universidade, o que é absurdo. É muito compreensível que as Humanas sejam mais participantes, a área que lida com a Filosofia tem de pensar a existência. Embora, aliás, isso seja obrigação de todos os universitários. Não é porque vem da faculdade de Engenharia que está dispensando de pensar o destino da universidade, nas políticas públicas necessárias para o desenvolvimento do país e na própria cidadania.

Temos que parar com essa mania de estigmatizar a área de Humanas e, ao mesmo tempo, temos que entender que, se defendemos a posição da maioria, temos que insistir cada vez mais nos direitos das minorias, dos que pensam diferente, e valorizar o diálogo, o entendimento.

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