Observatório do racismo

Não se pode respirar sob a violência que matou João Pedro e George Floyd

A democracia, o direito, o desenvolvimento ou a justiça não socorrem os negros, como mostram as duas mortes sob ação policial no Brasil e Estados Unidos

Patrick Behn/Pixabay
Manifestação contra a morte de George Floyd: pagou com a vida a acusação de tentar passar uma nota falsa de 20 dólares

João Pedro e George Floyd. Dois personagens, duas realidades distintas, mas um mesmo caminho para sucumbir sob as garras do racismo. João Pedro foi baleado dentro de casa, em uma operação conjunta da Polícia Federal e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), da Polícia Civil do Rio de Janeiro, em 18 de maio, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ). 

George Floyd morreu em 25 de maio ao ser detido pela polícia em Minneapolis. George ficou 8 minutos e 46 segundos com o pescoço pressionado sob o joelho do policial Derek Chauvin, advertindo que não conseguia respirar. E não houve mesmo tempo para isso. Nos minutos finais, ele não se mexia mais. Essa foi a punição que ele recebeu, acusado por tentar passar uma nota falsa de 20 dólares no comércio. 

João Pedro foi morto no país tupiniquim, que resiste a discutir suas mazelas, e em que todos os dias nos telejornais autoridades bradam pela defesa da democracia e das instituições que a mantém. Floyd, por sua vez, no dito mundo desenvolvido, que viu em 1963 a Marcha Sobre Washington, liderada por Martin Luther King, no berço da liberdade e da democracia.

Estruturas e construções racistas

Em que pesem as diferenças históricas quanto ao modelo de colonização entre Brasil e Estados Unidos, para os negros, lá ou aqui, a democracia, o direito, o desenvolvimento ou a justiça não lhes socorrem. 

Assim como Floyd, imobilizado, oprimido, estrangulado, seja pela covid-19 ou por um agente do Estado, o negro continua vítima da mais pura maldade, maldade essa que já se tornou, banal, trivial, política e histórica. Sem nos darmos conta, validamos teorias construídas para justificar essa barbárie, encobrindo o lado mais perverso do ser humano. 

Por meio do racismo, antissemitismo, entre outros, o indivíduo sai de cena, passa então a operar sob o manto do racismo, do antissemitismo, sua ação animalesca é eclipsada por estruturas e construções que arrancam dele o protagonismo da maldade. 

O policial nunca tinha visto Floyd, o abordou, este sequer estava armado, o algemou e jogado ao chão, com as duas mãos para trás, sem a mínima possibilidade de defesa. 

Os policiais estavam todos em posse de suas armas de fogo. Ainda assim, sem qualquer justificativa, sufocaram-no covardemente, por motivo nenhum, a não ser a pura maldade enjaulada em outro ser humano, que, nesse caso, justifica-se por meio do racismo.

A premissa da superioridade acompanha a história. Em diferentes contextos e narrativas, há  aqueles que são salvos e os que vão para o inferno, é um combustível maléfico e perigosíssimo, de altíssimo contágio. 

A crise e os efeitos visíveis

A humanidade tenta a todo tempo diferenciar os superiores dos inferiores, os bons dos maus, os civilizados dos selvagens, e o racismo paira sobre esta ardilosa percepção: “Eu posso porque sou superior e você é inferior, além de me servir, talvez eu até disponha da sua vida imprestável e de menor valia”. 

As incontáveis pesquisas, os inúmeros estudos, as mortes injustificadas decorrentes das ações do Estado, uma inexplicável divisão territorial, econômica, educacional e os números gritantes que apontam para as desigualdades no Brasil, as quais afligem predominantemente os negros, não são capazes de mobilizar a Nação, o Estado ou mesmo todos os negros. 

Mas não sem motivo, há uma resistência evidente e declarada de parte considerável do establishment quanto ao tema racismo, negros e exclusão.  

Com o coronavírus não foi diferente. A crise tornou visíveis os efeitos que os mecanismos de resistência velada, contraditória, direta ou negacionista produzem sobre um tema, ainda que de interesse de saúde pública, com respaldo científico mundial e de grande parte dos formadores de opinião nacional. A adesão e a conscientização da população frente ao necessário isolamento social foi medíocre.

A explicação mais simples e condizente para parte da população é que o coronavírus é uma gripezinha, assim como a explicação mais condizente para o racismo é o vitimismo.  

O melhor cientista, médico, infectologista, ainda que apresentasse todas as evidências possíveis a uma pessoa que já tenha decidido que a covid-19 não é grave, ouvirá como resposta: “Entendi, mas acho que não é tudo isso”. Talvez o constrangimento não o permita verbalizar, mas o pensamento certamente será este. 

Luto pela vida

O momento é de luto e profunda consternação, seja pelas vidas perdidas para a covid-19, ou pela tragédia contínua que ao menos há 500 anos se abate sobre as pessoas denominadas negras e, assim, produzem casos diários como os de Floyd e João Pedro.  

Assim como os profissionais da saúde neste momento seguem firmes na luta pela vida, nós seguimos também, desde o desembarque do primeiro negro cativo, na incansável batalha que o alçara à condição de ser humano.  

Em momentos como este tenho sempre em mente uma frase simples e sequer me lembro onde li, que dizia mais ou menos assim: “Não permita que o mal lhe transforme em um malvado, porque este é o maior mal que podem fazer a você”. 

Foram sobre esses fundamentos que Martin Luther King, Mandela, Graça Machel, Zumbi dos Palmares, Dandara, entre outros, guiaram-se, principalmente em momentos de tragédias, seja a da covid-19, a de George Flyod, ou de tantos negros enforcados em troncos de árvores e que também não puderam respirar. 


Raphael de Lima Vicente é advogado, mestre e doutorando pela PUC-SP, membro do Observatório do Racismo

Edição: Helder Lima