Onda de protestos

‘Colombiano clama por comida, saúde e educação e governo responde a bala’

Em greve geral há sete dias, colombianos continuam protestando contra medidas neoliberais após recuo do presidente Iván Duque em reforma tributária. Em paralelo, denúncias de violência policial se multiplicam e repressão já deixa 27 mortos

Rubén Torres/Colombia Informa
Comitê Nacional de Greve também já contabiliza centenas de feridos e denúncias de violência sexual por parte da polícia. "Governo Duque reprime de várias formas o direito legítimo que os cidadãos têm de protestar", diz ativista

São Paulo – Milhares de manifestantes ocupam as ruas de diversas cidades da Colômbia desde o dia 28 de abril, quando foi iniciada uma greve geral contra as políticas econômicas e sociais do governo do presidente Iván Duque. O sétimo dia de protestos, nesta terça-feira (4), iniciou com camponeses da região de Catatumbo bloqueando rodovias. Novas manifestações já estão oficialmente confirmadas para esta quarta-feira (5) pelo Comitê Nacional de Greve na Colômbia, que convocou o país para mais uma mobilização geral. 

Na noite da segunda-feira (3), cidadãos colombianos também protestaram contra o governo nas cidades de Cali e Bucaramanga. No entanto, foram duramente reprimidos pelas forças de segurança controladas pelo presidente, que vem respondendo à onda de indignação popular com uma escalada autoritária. Organizações não governamentais nacionais e internacionais investigam e falam em “massacres policiais” praticados pela tropa de choque do Esquadrão Móvel Antidistúrbios da Polícia (Esmad). 

A ONG Human Rights International apura a morte de 6 pessoas, entre elas uma criança de 11 anos, somente nesta segunda. Outros 18 manifestantes ficaram feridos, no bairro popular de Siloé, em Cali. De acordo com a Guarda Indígena, que protesta na região e teve um membro ferido pela polícia, são inúmeros os abusos cometidos pelo governo da Colômbia. 

Total de vítimas chega a 27

“Enquanto o povo colombiano clama por comida, saúde e educação, o governo responde com a única coisa que tem: a bala”, contesta o Conselho Regional Indígena do Cauca em nota pública divulgada hoje. 

Até esta segunda (3), o Comitê Nacional de Greve já contava um total de 27 mortos e 124 feridos pela repressão das forças de segurança entre 28 de abril a 2 de maio. De acordo com o grupo, ao menos 1.089 casos de violência policial foram registrados e, entre os manifestantes assassinados, 12 deles foram mortos em Cali. O indício é que a cifra de mortos e feridos seja ainda maior. 

Há ainda denúncias de seis atos de violência sexual. Relatório do Comitê Nacional de Greve também detalha 726 detenções arbitrárias e 13 feridos com lesões oculares. Ao todo, 45 defensores e defensoras de direitos humanos também denunciam cerceamento de funções durante os atos.

Novas demandas

Apesar da violência, os colombianos não recuam dos protestos inicialmente provocados pela insatisfação popular com o projeto de reforma tributária do governo.

O presidente da Colômbia tentava aprovar o aumento dos impostos sobre as classes médias e mais pobres. A medida ainda incluía a tributação em 19% de serviços públicos como gás e energia. Mas logo os três primeiros dias de manifestações, – que ficaram marcados pela imagem da estátua do colonizador Sebastián de Belalcázar sendo derrubada por indígenas do povo Misak –, forçaram também Duque a desistir do projeto de lei, que acabou sendo retirado por ele do Congresso. A renúncia levou ainda à saída do ministro da Fazenda, Alberto Carrasquilla.

A derrota imposta à reforma tributária, no entanto, também não convenceu os colombianos a pararem os atos. Desde então, a população das principais cidades do país lista uma série de reivindicações contra outras medidas neoliberais do governo. Eles cobram a retirada de um “pacotaço” que altera leis trabalhistas e das áreas da saúde e da previdência social. Também exigem a aprovação de medidas sociais e o desmonte do Esmad e da militarização das cidades. 

Cerceando liberdades

Em paralelo, o Estado colombiano reforça o aparato policial para frear os protestos. A denúncia de que o governo está cerceando a liberdade dos manifestantes foi endossada na noite desta segunda pelo Escritório das Nações Unidas para os Direitos Humanos na Colômbia. Pelo twitter, a entidade escreveu que integrantes da comissão que monitoravam a situação na cidade de Cali “receberam ameaças e agressões. Além de tiros da polícia, sem que ninguém fosse atingido”.  

Em entrevista ao jornal argentino Página 12, o membro da Fundação Sumapaz pelos Direitos Humanos, Óscar Yesid Zapata, denunciou que o “governo Duque reprime de várias formas o direito legítimo que os cidadãos têm de protestar”. Segundo ele, “as pessoas continuam se mobilizando porque estão cansadas, acumulam cansaço dos últimos governo do país que nos empobrecem”. “Estamos sendo governados por algumas pessoas que continuam mantendo seus privilégios. Por isso os colombianos estão dizendo ‘não mais'”, enfatizou Zapata. A crítica faz referência também ao político de extrema direita Álvaro Uribe, que foi presidente do país entre 2002 e 2010 e até hoje continua sendo uma figura proeminente na política da Colômbia. 

Crise do governo se aprofunda

A onda de protestos, contudo, aprofunda a crise na qual o governo Duque está mergulhado desde 2019, quando milhares de colombianos também ocuparam as ruas do país contra o seu pacote de reformas trabalhistas e previdenciárias. De acordo com o senador Iván Cepeda, do Polo Democrático Alternativo, a condução da pandemia pelo governo também tem relação com a insatisfação popular. “É uma derrota política para Duque e para Uribe, que sempre vem promovendo essas reformas tributárias”, disse o senador ao Página 12 sobre o presidente cuja popularidade é de apenas 33%. 

Enquanto permanecem nas ruas, os manifestantes também cobram por vacinação em massa contra a covid-19, renda básica universal e subsídios às pequenas empresas. A população também exige que o governo defenda os empregos e a produção nacional e proíba pulverização aérea com agrotóxico glifosato. 

Redação: Clara Assunção
Com informações do
Brasil de Fato, Opera Mundi e TeleSur