Oriente médio

‘Eles querem a Palestina sem palestinos’, diz embaixador no Brasil sobre novo conflito

“Não haverá paz naquela região, não haverá paz em nenhuma parte, nem paz social, sem justiça. Um país que não tem justiça, não vai ter paz”, diz Ibrahim Alzeben

Twitter/Israel Defense Forces
Alvo nesta sexta-feira foi o sistema de túneis do Hamas em Gaza, afirmam forças israelenses

São Paulo – Uma nova onda de violência entre as poderosas forças armadas de Israel – uma das mais bem preparadas do mundo – e a Palestina foi deflagrada na segunda-feira (10), após semanas de tensão. O novo conflito decorre de diversos fatores conjunturais e também históricos. Ainda em 23 de abril cerca de 100 palestinos ficaram feridos após confrontos com forças policiais. Eles protestavam contra extremistas israelenses que pediam “morte aos árabes” em marcha à Cidade Velha de Jerusalém.

A tensão explodiu após confronto na mesquita de Al-Aqsa, na segunda-feira, com saldo de mais de 300 palestinos feridos, muitos em estado grave. “Estão se acumulando muitas coisas ao mesmo tempo. O governo de Israel comete este crime quando decide impedir os fiéis de entrar em Al Aqsa (considerado o terceiro local mais sagrado para os muçulmanos). Isto está acompanhado da tentativa de arrancar 28 famílias do bairro Sheikh Jarrah”, diz Ibrahim Alzeben, embaixador da Palestina no Brasil. O bairro palestino é um dos principais em Jerusalém e o número de colonos judeus é crescente no local. “E tudo isto coincide com o Ramadã, o mês mais sagrado dos muçulmanos”, acrescenta o diplomata, o que parece configurar uma sucessão de provocações não casuais.

Por trás de tudo, de acordo com Alzeben, está o objetivo principal do Estado de Israel, hoje governado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. “Eles querem judaizar o território ocupado. Querem a Palestina sem palestinos. Querem manter a ocupação israelense condenada pelo mundo inteiro”, afirma o embaixador à RBA. Apesar do clamor contra a violência, o mundo se cala e as Nações Unidas se omitem. Por quê? “As Nações Unidas são um tigre sem dentes. Este tigre só tem cinco dentes: Estados Unidos, Inglaterra, França, China e Rússia.”


“Lamentamos sinceramente a perda de muitas vidas. Temos mais de 120 mortos. Hoje é o dia que coincide com o Dia da Catástrofe”


Esses são os países que compõem o Conselho de Segurança da ONU, cujas decisões têm de ser tomadas por unanimidade. Se um dos cinco usa seu direito ao veto, nada se pode fazer. “Normalmente, quando se quer punir Israel por cometer esses crimes, sempre os Estados Unidos usam seu direito ao veto”, diz o embaixador. Portanto, não há como implementar o capítulo 7 da Carta das Nações Unidas. O dispositivo prevê sanções econômicas e diplomáticas e até mesmo ações “por meio de forças aéreas, navais ou terrestres”, para “manter ou restabelecer a paz “.

O atual conflito – que opõe as sofisticadas forças militares, de um lado, e os militantes palestinos apoiados pelo Hamas com seus foguetes, de outro – é uma metáfora da passagem bíblica de Davi e Golias. Até esta sexta-feira, havia mais de 120 mortos entre os árabes, incluindo aproximadamente 30 crianças. Entre os israelenses, os mortos chegaram a sete. Nesta sexta-feira (14), o alvo foi o sistema de túneis do Hamas em Gaza, afirmaram as forças israelenses. Segundo elas, a operação contou com 160 aeronaves, tanques, unidades de artilharia e infantaria ao longo da fronteira.

Como esperado, o presidente Jair Bolsonaro tem um lado no conflito. Afirmou ser “absolutamente injustificável” o lançamento “indiscriminado de foguetes contra o território israelense”. Alzeben prefere não comentar a posição do chefe de governo brasileiro. “Deixo esta pergunta para os brasileiros responderem.”

Leia a entrevista do embaixador

Como o sr. avalia a atual onda de violência?

Estão se juntando muitas coisas ao mesmo tempo. O governo de Israel comete esse crime quando decide impedir os fiéis de entrar na mesquita de Al Aqsa. Isto está acompanhado da tentativa arrancar 28 famílias do bairro Sheikh Jarrah. “E tudo isto coincide com o Ramadã, o mês mais sagrado dos muçulmanos. A ida a Al Aqsa é um dos rituais mais importantes para os muçulmanos durante o Ramadã. Então eles cometem uma série de provocações. A isto se junta que eles abrem as portas para os colonos profanarem a região do Templo, com provocações muito agressivas como “morte aos árabes”. Isto começou a incendiar toda aquela situação. Israel reprime de maneira brutal, mata, e pela primeira vez – uma prática sem precedentes – atira dentro da mesquita com bombas de gás lacrimogêneo, munições.

Isso realmente acabou incendiando toda a situação e chegamos onde chegamos agora. Lamentamos sinceramente a perda de muitas vidas. Temos mais de 120 mortos. Hoje é o dia que coincide com o Dia da “Catástrofe” (da palavra “Nakba”, como é definido o êxodo palestino quando da fundação do Estado de Israel, em 1948). São quatro ou cinco fatores gravíssimos ao mesmo tempo, que levam nossa região a um ponto sem retorno. Chega de ocupação, chega de continuar tolerando esta intransigência, esses massacres contínuos contra o povo palestino, essa repressão por parte do exercito de Israel. É hora de pedir proteção internacional ao nosso povo.


“Os que não querem enxergar o que está acontecendo é porque não querem enxergar. A realidade é bem clara”

israel palestina
Guilherme Santos/Sul21
Embaixador Ibrahim Alzeben: “Em nenhum momento Israel esteve preparado para a paz. Forçam o povo da Palestina a aceitar o status quo, ou seja, como ocupantes”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Qual é o pretexto principal de Israel para deflagrar essas ações?

Eles querem judaizar o território ocupado. Eles querem a Palestina sem palestinos. Querem manter a ocupação israelense condenada pelo mundo inteiro. Absolutamente ninguém no mundo admite que a ocupação dos territórios palestinos seja legal. Todo o mundo reivindica que é hora de Israel se retirar do território palestino, e que se permita a criação de dois Estados.

Antes do conflito atual, havia perspectiva para uma situação mais pacífica na região?

De jeito nenhum. Em nenhum momento Israel esteve preparada para estabelecer a paz. Eles forçam o povo palestino a aceitar o status quo, ou seja, “aceitem-nos como ocupantes”. Querem manter esse Estado que ocupam, impõem suas leis, seguem confiscando territórios e terras palestinas. Os que não querem enxergar o que está acontecendo é porque não querem enxergar. A realidade é bem clara.

As Nações Unidas não poderiam adotar uma atitude um pouco mais firme?    

As Nações Unidas são um tigre sem dentes. Este tigre tem cinco dentes. Estados Unidos, Inglaterra, França, China e Rússia, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança. Para que este tigre tenha dentes e possa impor sua vontade precisa ter o consenso dos cinco, ter unanimidade. E até agora não temos esse consenso.


“Quando se quer punir Israel por cometer crimes contra a Palestina os EUA usam seu direito ao veto. Então, não tem como. Até agora, esse momento histórico que estamos aguardando não chegou”


As Nações Unidas emitem declarações, comunicados, recomendações, só que na hora de executar eles não conseguem implementar o capítulo 7 da Carta Magna (Carta das Nações Unidas), para pôr fim a uma tragédia, como em Ruanda, em Kosovo. Israel comete todos os crimes, todas as barbaridades, e até agora esses cinco não conseguem concordar para pôr fim a essa tragédia. Normalmente, quando se quer punir Israel por cometer crimes, sempre os Estados Unidos usam seu direito ao veto. Então, não tem como. Até agora, esse momento histórico que estamos aguardando não chegou. Lamentavelmente segue o derramamento de sangue e a destruição de Gaza. Eu lamento muito toda esta situação, obviamente lamento as mortes de ambos os lados, lamento a destruição que está ocorrendo na Cisjordânia, em Jerusalém e em Gaza especialmente.

Há alguma expectativa de mudar alguma coisa com o governo de Joe Biden?

Obviamente a nova administração é diferente da anterior. Esperamos que ele tenha boa vontade e tenha coragem também de estar ao lado da justiça. Porque não haverá paz naquela região, não haverá paz em nenhuma parte, nem paz social, sem justiça. Em nenhum país. Um país que não tem justiça, não vai ter paz. Uma região que não tem justiça, não vai ter paz.

E a posição do Brasil?

Deixo esta pergunta para os brasileiros responderem.


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