América Latina

Eleições no Equador opõem visões econômicas e sociais distintas em momento de crise

O candidato de centro-esquerda Andrés Arauz, herdeiro de Rafael Correa, enfrenta o banqueiro de direita Guillermo Lasso, que já foi segundo colocado em duas eleições presidenciais

Fredy Constante / Presidência da República
O presidente do Equador, Lenín Moreno, no primeiiro turno das eleições do país

São Paulo – As eleições deste domingo no Equador vão opor dois candidatos com perfis distintos, mas que representam os principais embates da história política recente do país. De um lado, o candidato de centro-esquerda da Revolução Cidadã, o movimento do ex-presidente Rafael Correa, agora com o nome de União pela Esperança, Andrés Arauz. Ele foi o vencedor no primeiro turno realizado em 7 de fevereiro. Do outro lado, o banqueiro de direita Guillermo Lasso, da Aliança Creo-PSC, segundo colocado nos dois últimos pleitos presidenciais.

As pesquisas mostram uma aproximação entre os dois, com Arauz à frente. O vencedor herdará um país em crise. Em 2020, a economia equatoriana contraiu 9% e o país recebeu US$ 4 bilhões de um empréstimo de US$ 6,5 bilhões junto ao FMI. O atual presidente, Lenín Moreno, renegociou a dívida e conseguiu economizar um ponto e meio do PIB que teria sido pago em juros ao Fundo em 2021. O que não chega a amenizar o desastre de sua gestão. Ex-correísta, o mandatário ostenta parcos 8% de aprovação, de acordo com as sondagens.

Após uma crise que levou o país a dolarizar sua economia em 2000, o produto interno bruto do Equador aumentou de US$ 18,3 bilhões naquele ano para US$ 101,7 bilhões em 2014. Desde 2015, o choque nos preços internacionais do petróleo, principal produto de exportação, levou o Equador a “uma desaceleração econômica significativa e um aumento da pobreza, apesar dos esforços do governo”, de acordo com o Banco Mundial.

Rafael Correa, presidente de 2007 a 2017, continua sendo uma figura de referência no país, mesmo exilado na Bélgica depois de ser condenado por corrupção e sentenciado a oito anos de prisão, em um processo que o ex-mandatário e muitos juristas denunciam como lawfare. Arauz é seu ex-ministro da Economia e sucessor escolhido por ele. O site Al Jazeera lembra que na capital Quito muitos murais pintados em apoio a Arauz exibem o perfil de Correa ao lado de seu nome, mas não contêm o nome ou rosto do candidato.

Lasso foi ao segundo turno após o que foi considerado uma espécie de empate técnico no primeiro com o líder indígena Yaku Pérez, candidato do partido Pachakutik. Ao final, o triunfo de 19,74% contra 19,39% resultou em longas marchas indígenas na região da Amazônia do país e nas montanhas, além de uma névoa de desconfiança em torno do Conselho Nacional Eleitoral de Quito.

Alegando fraude, Perez cogitou abertamente uma greve geral e pediu também a seus apoiadores que anulassem suas cédulas marcando vários candidatos ou prejudicando-os em protesto, já que a votação é obrigatória no Equador. Nenhum dos dois candidatos conta com o amplo apoio do movimento indígena do país.

Guillermo Lasso é de Guayaquil e foi um líder e defensor da próspera cidade portuária, na prática, a capital econômica do país. É socialmente conservador, economicamente liberal e está em um território onde é forte o Partido Social Cristão (PSC), liderado pelo ex-prefeito (por 18 anos) da cidade litorânea Jaime Nebot, que não apresentou candidatura presidencial, mas se juntou a Lasso nesta eleição.

Mulheres e jovens nas eleições do Equador

O jornal britânico The Guardian chama a atenção para o papel decisivo que podem ter os jovens e mulheres na disputa entre Arauz e Lasso. Os dois segmentos foram duramente atingidos pela pandemia, tanto do ponto de vista sanitário como do econômico.

Os eleitores entre 18 e 30 anos representam cerca de um terço do eleitorado do Equador e sofrem com o desemprego crescente e os cortes no financiamento das universidades. As mulheres também foram vítimas das dificuldades econômicas em um cenário no qual impera a desigualdade de gênero. Além disso, o número de feminicídios subiu de 71, em 2019, para 118 em 2020, segundo a Associação da América Latina para Alternativas Desenvolvimento.

Lasso, que é integrante do grupo católico ultraconservador Opus Dei, visitou ativistas pelos direitos LGBTQI+ e apresentou propostas voltadas ao combate à violência de gênero. Contudo, organizações feministas lembram a oposição do presidenciável à descriminalização do aborto em caso de estupro.

Já Arauz prometeu pagamento de US$ 1.000, a título de bônus emergencial na primeira semana de governo, para cada uma das 1 milhão de mães do país. Para tanto, ele quer o repatriamento de uma parte dos mais de 5,3 bilhões de dólares que o Estado tem depositado num banco na Suíça.

A covid-19 no Equador

Neste semana, o governo de Lenín Moreno demitiu o ministro da Saúde, Mauro Falconí, que ficou no cargo por apenas 19 dias. Um dos motivos da demissão foi a falha no processo de agendamento que causou inúmeras filas de idosos na imunização contra a covid-19. Camilo Salinas assumiu a pasta, o terceiro titular em 40 dias e o quinto desde o início da pandemia em março de 2020.

O processo de vacinação no Equador contou com escândalos como o fato de o ex-ministro Juan Carlos Zavallos ter “furado a fila” de prioridades ao garantir a imunização de parentes, o que motivou a Assembleia do país a aprovar um pedido de resolução pela sua saída em janeiro. Até agora, aproximadamente 1% da população recebeu a primeira dose da vacina.

Até quarta-feira (7), as mortes relacionadas à covid-19 no país chegavam a 17.115, com 12.208 óbitos confirmados devido ao coronavírus e 4.907 prováveis. O Equador enfrenta a maior onda de hospitalizações pela doença, com 1.680 pacientes em todo o país: 1.098 estão estáveis ​​e 582 têm um prognóstico reservado. Este é o maior número de pessoas gravemente doentes em toda a pandemia e, desde o início do ano, o número de internações dobrou.

As suspeitas de fraude eleitoral

Na quinta-feira (8), o jornal argentino Pagina12 divulgou uma matéria na qual denuncia uma possível tentativa de fraude em andamento para as eleições deste domingo no Equador. A informação viria de fonte da liderança do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), após reunião realizada no sul de Quito e a manobra favoreceria Guillermo Lasso.

Parte da fraude se daria nos centros de votação. O CNE possuiria aproximadamente 600 mil boletins eleitorais não declarados, obtidos antes do primeiro turno, já que, por conta de um erro na impressão de mais de seis milhões de cédulas, houve uma nova compra de papel regulado no Canadá, criando um excedente não auditado. “Eles podem injetar cédulas originais com papel de segurança em diferentes províncias em favor de Lasso”, explica a fonte.

Diante do cenário de “excesso de votos”, os coordenadores poderão escolher entre duas possibilidades: reconhecer o número total de votos em vez do número de eleitores, ou anular o excesso de votos em relação ao dos eleitores. Neste caso, os coordenadores, em especial da zona rural onde a fiscalização é mais difícil, retirariam aquele total de votos de Andrés Arauz, deixando o candidato com menos votos que os obtidos por Lasso.

A outra forma de alteração dos resultados programados seria desenhada para ocorrer em uma contagem de votos das atas. “A ordem dentro da CNE é, primeiro, que Lasso ganhe. Em segundo lugar, se a percentagem de votos for um empate técnico a favor do Lasso, a CNE publicará os resultados imediatos, e se o empate técnico for a favor da Arauz, eles não publicarão e será definido na recontagem, e lá vão para mudar os resultados ”, afirma a fonte, ao jornal argentino.

“Eles podem modificar de 1,3 milhão a 1,5 milhão de votos” com a combinação dos diferentes mecanismos de fraude, segundo a fonte. O cadastro eleitoral no Equador aponta para 13.099.150 eleitores, dos quais 10.616.263 participaram em 7 de fevereiro do primeiro turno presidencial e legislativo.