Cúpula do clima

Celso Amorim: Bolsonaro pediu recursos para uma espécie de ‘aluguel da floresta’

Para o ex-chanceler, problema do presidente brasileiro e seu governo hoje é principalmente a falta de credibilidade junto à comunidade internacional

Reprodução/Alan Santos -PR (detalhe)
Biden convocou conferência e Bolsonaro, com o ajudante Salles, foiram atores secundários

São Paulo – A Cúpula do Clima convocada pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, foi encerrada nesta sexta-feira (23), com amplo descrédito do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. A falta de prestígio do atual mandatário na conferência já estava nítido antes mesmo da abertura, ontem. Na ordem dos chefes de Estado a discursar, Bolsonaro foi colocado apenas no 21º da fila, atrás dos representantes de Ilhas Marshall, Bangladesh, Indonésia, Coréia do Sul e a vizinha Argentina, por exemplo. Para o ex-chanceler Celso Amorim, o problema de Bolsonaro e seu governo é principalmente a falta de credibilidade. O ex-ministro critica ainda outro ponto do discurso do presidente. “A ênfase excessiva dada à questão dos recursos, que ele nem disse que são para projetos, mas praticamente para pagar, para manter a floresta em pé, uma espécie de aluguel da floresta”, diz. “Não é a melhor maneira de encarar o problema, mas eu diria que o problema principal é a credibilidade. Ele não tem credibilidade”, acrescenta.

Ao fazer uso da tribuna virtual, Bolsonaro pediu dinheiro para preservar as florestas, “justa remuneração pelos serviços ambientais prestados por nossos biomas ao planeta”, segundo suas palavras. Além disso, mentiu, afirmando que o governo brasileiro investiu no aumento da fiscalização contra crimes ambientais. E omitiu taxas de desmatamento na Amazônia (leia aqui)

O brasileiro se comprometeu em eliminar o desmatamento até o ano de 2030. Afirmou que “nos últimos 15 anos evitamos a emissão de mais de 7,8 bilhões de toneladas de carbono na atmosfera”, esquecendo-se de mencionar que estava incluindo nesse período os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. E assegurou que “continuamos a colaborar com os esforços mundiais contra a mudança do clima”.  

“Conversão tardia”

“O problema de credibilidade – continua Amorim – não desaparece com essa ‘conversão’ tardia de Bolsonaro aos objetivos do desenvolvimento sustentável. Simplesmente não é crível”, diz o diplomata, que, além de chanceler nos dois governos Lula, foi ministro da Defesa de Dilma Rousseff.

O ministro do meio-ambiente, Ricardo Salles, é grande ator da construção do descrédito brasileiro. Ficou famoso por sua defesa da estratégia de aproveitar a distração da opinião pública com a pandemia de coronavírus para implementar o desmonte das instituições ambientais. “Precisa ter um esforço nosso aqui, enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala de covid, e ir passando a boiada, e mudando todo o regramento (ambiental)”, disse, em abril do ano passado.

Biden nem estava presente

Bolsonaro não fez nenhuma proposta concreta à Cúpula do Clima que apontasse para o combate efetivo ao desmatamento e negou toda a trajetória destrutiva de seu governo. “As pessoas não olham para o que ele diz, mas para tudo o que fez. Tanto assim que o próprio promotor da conferência, o presidente norte-americano, Joe Biden, nem sequer estava presente no momento em que o presidente Bolsonaro falou”, destaca Celso Amorim.

Em oposição aos mais de dois anos de desconstrução e desmatamento bolsonaristas, em discurso e na prática, Biden sucede Donald Trump – ídolo de Bolsonaro – com uma agenda clara em relação ao meio ambiente. “Os sinais são inconfundíveis, a ciência é inegável e os custos da falta de ação continuam a se acumular. Quando as pessoas falam sobre clima, eu penso em empregos”, afirmou o presidente americano na Cúpula. Ele afirmou que, em seu país, a agenda verde é uma “oportunidade” de o governo criar “milhões de empregos”.

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