Paralelos

Diferentemente do Brasil, lideranças militares se afastaram de Trump nos Estados Unidos

Professor Giorgio Romano (UFABC) diz que a derrocada do governo Trump deve fragilizar Bolsonaro, mas destaca que ele ainda mantém apoios nas Forças Armadas e nas polícias

Alan Santos/PR
Militares brasileiros ainda não perceberam que governo Bolsonaro está destruindo o país, diz especialista

São Paulo – São inúmeras as semelhanças que unem Jair Bolsonaro e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como o ataque às instituições democráticas e o negacionismo em meio à pandemia. Como também os valores que movem seus respectivos grupos de apoiadores. Assim, a derrota de Trump nas eleições, que ainda pode culminar com seu afastamento definitivo depois da invasão do Capitólio, deve enfraquecer Bolsonaro e o bolsonarismo. Contudo, há diferenças fundamentais importantes no caso brasileiro. “Há uma diferença que é preciso enfatizar: o fato de que as lideranças militares, nos Estados Unidos, se distanciaram publicamente de Trump. Isso ainda quero ver no Brasil”, destacou o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), Giorgio Romano. O professor falou na manhã desta quinta-feira (14), em entrevista ao Jornal Brasil Atual.

O Estado-Maior, conjunto das Forças Armadas dos Estados Unidos, divulgou nota na terça-feira (12). Afirmam que os violentos distúrbios da semana passada foram um ataque ao processo constitucional dos Estados Unidos. Os atos culminaram com a invasão do Capitólio por apoiadores de Trump.

“No Brasil, temos algumas sinalizações, algumas vozes isoladas. Mas não há essa clareza entre a cúpula militar de que se trata de um momento político que está destruindo o país e a vida. O mínimo que se espera dos militares é a defesa da vida”, afirmou Romano.

Ele destacou que, além da presença de milhares de militares no governo, Bolsonaro ainda conta com apoio entre os integrantes das polícias militares. Nesta semana, inclusive, vieram a público duas propostas defendidas pelo governo que enfraquecem o controle dos governadores sobre as forças de segurança e ampliam a autonomia administrativa, financeira e até funcional no caso da polícia militar.

Autonomia policial ou emancipação predatória? Os riscos para a sociedade

Perspectivas

Apesar dessa diferença essencial, segundo o especialista, a abertura de um processo de impeachment contra Bolsonaro ainda vai depender da eventual queda de popularidade do governo, em função do fim do auxílio emergencial e da deterioração geral da economia.

Romano aponta que as políticas ultraliberais do governo Bolsonaro começam a trazer desgastes para o governo. Foi o caso, por exemplo, das 5 mil demissões anunciadas pelo Banco do Brasil. Como também no caso do fechamento das fábricas da Ford no país. Esse discurso liberal está sendo “deixado de lado” nos países desenvolvidos, que apostam no papel do Estado e nos investimentos públicos para a retomada no pós-pandemia. Mas, no Brasil, segundo ele, não há um “plano B”.

Assista à entrevista

Redação: Tiago Pereira