Direitos Humanos no mundo

Derrota de Trump é ‘um grande alívio’ para organizações internacionais

Correspondente internacional analisa os impactos da mudança de comando dos EUA no campo dos direitos humanos. Vitória de Biden, contudo, não significa que “os problemas foram resolvidos”

United Nations
Jamil Chade destaca dúvidas sobre como o Brasil deve se comportar na ONU, por exemplo, agora que os Estados Unidos mudarão de postura

São Paulo – Enquanto a vitória de Joe Biden como presidente eleito pelo voto nos Estados Unidos repercute pelo mundo e Donald Trump nega a derrota, organizações internacionais reconhecem a legitimidade do democrata como o novo chefe de governo da Casa Branca. Nesta segunda-feira (9), o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, emitiu um comunicado felicitando a vitória de Biden. Um dia antes, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adahnon, também parabenizou o novo presidente. “Estamos ansiosos para trabalharmos com você e suas equipes”, anunciou Tedros pelo Twitter

Sempre as últimas a fazer qualquer tipo de reconhecimento, à espera do resultado oficial, as entidades internacionais pegaram de surpresas especialistas ao antecipar a parabenização. Para o jornalista, escritor e correspondente internacional Jamil Chade, a postura inédita revela o “grande alívio” dessas organizações com a vitória de Biden e derrota de Trump. Uma vez que, ao contrário de Trump, o democrata as “recoloca no centro do debate”. “Todos querem virar a página”, garante, advertindo que “não é que os problemas foram resolvidos com a chegada de Biden”.  

Correspondente na Europa há duas décadas, onde atua direto de Genebra, na Suíça, – a cidade símbolo dos organismos de cooperação multilaterais – Jamil Chade avalia, em entrevista a Rafael Garcia, do Jornal Brasil Atual, como derrota de Trump e a mudança de comando nos EUA deve impactar o campo dos direitos humanos. 

Direitos humanos no debate

Se Trump negava a OMS para lidar com a pandemia, ou o próprio Conselho de Direitos Humanos da ONU para lidar com as garantias fundamentais, Biden já indicou que para 2021 deve organizar uma cúpula pela democracia. De acordo com o jornalista, a agenda é positiva por reforçar a ideia de Estado de Direito e da participação de ONGs e da sociedade civil. “Para justamente frear esse movimento populista, de extrema direita, que de fato existe no mundo”, observa. 

A agenda recoloca a importância dos organismos e principalmente, dos direitos humanos. O que também pode ser visto como uma “forma de ingerência” dos Estados Unidos sobre a China, por exemplo, pondera Jamil. De toda forma, segundo ele, essa é uma “pauta que pode ser muito sedutora. Muita gente do campo de direitos humanos vai aplaudir a cúpula nesse sentido”. 

E o governo Bolsonaro?

Essa não será, contudo, a postura do governo de Jair Bolsonaro, conforme prevê o correspondente internacional. “Para o governo brasileiro, por exemplo, pelo que já temos de informações, tem muita gente preocupada com essa cúpula pela democracia. Porque ela pode se transformar num palco de constrangimento para o Brasil”, analisa. 

Isso porque, na cúpula, deve entrar temas como direitos humanos, combate à tortura, meio ambiente e combate à desinformação e fake news. “Ou seja, só esse pacote deixaria muita gente lá no Planalto bastante preocupada”, destaca. 

Jamil, que vem acompanhando de perto a atuação da representação brasileira sob Bolsonaro na ONU, não sabe, contudo como o país se posicionará agora que os Estados Unidos adotará uma nova postura. Até então, a embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo, vinha como um “braço auxiliar” dos interesses de Trump, como frisa. 

Ontem, durante uma sabatina dos EUA no Conselho de Direitos Humanos da ONU, a “submissão” foi mais uma vez exposta. O Itamaraty chegou a elogiar o governo Trump por supostos “avanços no combate ao racismo”. Na contramão do que se tratava a audiência que, de acordo com o jornalista, foi dominada por críticas à violência policial e ao que foi chamado de “racismo estrutural” da nação estadunidense. 

Nova posição pode frear desmonte

“Parecia que (a embaixadora) tinha desembarcado de outro lugar do mundo, porque a eleição americana foi em parte definida pelo movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). Se você ver a composição de votos, ao menos 80% de homens afro-americanos votaram no Biden. E 90% das mulheres afro-americanas votaram no Biden. E o governo Bolsonaro tem a coragem de ir no palco da ONU aplaudir Trump pelo avanço no combate ao racismo. Isso não tem explicação a não ser submissão total”, lamenta Jamil Chade. 

Atualmente, a imagem brasileira nos organismos internacionais passou de “choque”, para uma “piada” que virou “preocupação”. “Porque muitos países entenderam que essa postura do Brasil mina as bases dos direitos humanos no mundo”, explica o correspondente internacional. É por isso também que ele cita o “alívio” das entidades com a derrota de Trump. Uma nova posição do governo americano, conclui o jornalista, “pode justamente frear esse desmonte dos direitos humanos”. 

“Quero saber como o Brasil vai fazer para manter a sua postura de desmonte, que é essa postura que ele tem, se o seu principal aliado internacional agora vai tomar uma postura diferente. E não adianta a gente imaginar que o Brasil tem aliança com a Hungria e a Polônia”, ironiza. Até o momento, o governo Bolsonaro não cumprimentou Biden pela vitória.

Confira a entrevista na íntegra 

Redação: Clara Assunção – Edição: Helder Lima