Dia de decisão

Eleições nos EUA, aguardadas pelo mundo, podem encerrar a era Trump. Ou não

O clima é a favor de Biden, contra o extremismo do atual presidente. Mas o democrata tem contra si o imponderável que parece governar as eleições dos EUA

Reprodução
Biden lidera, mas, como no futebol, as eleições norte-americanas só acabam quando terminam

São Paulo – Se confirmados os prognósticos, apoios e análises, o próximo presidente dos Estados Unidos será o democrata Joe Biden, que, segundo as pesquisas, segue na liderança contra o republicano Donald Trump. O atual presidente é considerado um “ponto fora da curva” na história recente do país. Mas, como no futebol, as eleições nos EUA – que se decidem no Colégio Eleitoral – “só acabam quando terminam”. Aguardadas com expectativa em todo o mundo, as eleições de 2020 acontecem nesta segunda-feira (3).

A provável eleição de Biden será uma espécie de retomada à normalidade no mundo, apesar de o candidato estar claramente à direita do Partido Democrata. Mas não é à toa que a revista britânica The Economist, uma das mais influentes publicações da Europa, esta semana, não apenas declarou seu apoio a Joe Biden nas eleições dos EUA como também justificou dizendo que Trump “profanou os valores que fazem da América um farol para o mundo”.

The Economist pondera que o democrata “não é uma cura milagrosa para o que atormenta os Estados Unidos, mas é um bom homem que restauraria a estabilidade e a civilidade à Casa Branca”.

Na verdade, o “bom homem” faz parte de uma poderosa elite financeira. A campanha do democrata mostra uma superioridade impressionante à do republicano. Segundo documentos oficiais, no final de setembro o time de Biden tinha US$ 177 milhões de dólares em caixa, quase três vezes mais do que os US$ 63 milhões de dólares do “Trump team”.

Eleições nos EUA: ilustração de capa na revista The Economist traz representação da bandeira do país esgarçada pela imagem truculenta de Donald Trump. Segundo a publicação, Trump entra nesta eleição pior do que há quatro anos

Por que Biden

A derrota de Trump representaria a derrota da extrema direita no, ainda, mais poderoso país do planeta. “Não só para nós, no Brasil. Mas se Biden ganhar faz diferença, porque, de uma maneira ou de outra, os Estados Unidos acabam afetando o mundo inteiro”, avalia Miriam Gomes Saraiva, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). “Já para o governo brasileiro, não exatamente para o Brasil – ironiza a professora –, se ganhar o democrata, é muito pior. Porque o governo de Bolsonaro só se relaciona com governos, e não com Estados, só se aproxima da ultradireita como a da Polônia, da Hungria, dos Estados Unidos de Trump.”

“Para a direita no mundo, a derrota de Trump vai ser muito ruim. Isso e a questão do meio ambiente são as mais importantes, se Biden vencer”, pontua Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Há quase um ano, por meio do secretário de Estado Mike Pompeo, os Estados Unidos de Trump notificaram a Organização das Nações Unidas (ONU) de que estava saindo do Acordo de Paris. O pacto ambiental entrou em vigor em novembro de 2016, a partir da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas de 2015.

Para Nasser, tanto Trump como Bolsonaro fazem “um tipo de politica que pode ter sucesso eleitoral imediato, mas a longo prazo não sobrevivem, porque não têm plano nenhum, em termos de construir uma corrente política. Se qualquer um deles sobreviver por mais de dois mandatos, pode rasgar os livros de história”.

Extrema direita brasileira “surtando”

“Biden já disse que o Brasil tem que se empenhar mais na questão amazônica”, lembra Miriam. “Esse é apenas um exemplo. Mas, nas questões de ‘marxismo cultural’, ser contra instituições internacionais, contra o que a extrema-direita chama de ‘climatismo’, em tudo isso o governo americano de Trump foi aliado do Brasil de Bolsonaro. Biden, que nem é um politico de esquerda, não será em nenhuma desses pontos.”

Apesar de representar a direita dos democratas, mesmo assim Biden causa calafrios nos extremistas brasileiros e norte-americanos.  “Veja, no Brasil. Só com a questão da Bolívia (onde Luis Arce foi eleito presidente) e o plebiscito no Chile (que aprovou uma nova Constituinte), a direita aqui está surtando. Imagine com a derrota de Trump”, diz Nasser.

Durante a última semana, o site FiveThirtyEight, especializado em análises de pesquisas, apontou que Joe Biden está ampliando as chances de vitória no Colégio Eleitoral desde o fim de setembro. No dia 28, teria 88% de chance de ser eleito. Trump, apenas 11%.

Mulheres, negros e pandemia nas eleições nos EUA

Segundo pesquisa citada pela CNN em parceria com a empresa SSRS, é enorme a vantagem pró-Biden entre as mulheres (61% a 37%) e negros (71% contra 24%).

A seu desfavor, o atual presidente tem ainda a pandemia do novo coronavírus, não por acaso um dos temas principais do debate entre os candidatos no dia 22. Os EUA lideram o ranking de infectados (9,3 milhões de casos) e de mortos (mais de 235 mil) e sua política é semelhante à de seu colega brasileiro.

Seja como for, as apostas de vozes comprometidas com a democracia apostam em Biden. O cineasta e ativista norte-americano Michael Moore, por exemplo, que em julho de 2016 previu a vitória de Donald Trump nas eleições daquele ano, está em campanha. “E, meus amigos, Trump e os republicanos ainda não acabaram de causar seu inferno e destruição, não importa o que o povo americano decida na próxima semana”, escreveu no Twitter durante a semana.

Para derrotar Trump, ele pede dedicação. “Abra o catálogo de endereços em seu telefone. Cada nome lá é mais um voto e mais perto de encerrar Trump! Reserve uma hora para ligar, enviar mensagem de texto ou e-mail”, exortou.

Ele sabe que, nos Estados Unidos, o jogo de fato só acaba quando termina. E, mesmo assim, na complexa eleição de seu país, nem sempre acaba de maneira clara. Em 2016, Trump perdeu no voto popular para Hillary Clinton, por uma diferença de quase 338 mil votos. Mas o republicano levou no Colégio Eleitoral. O clima é favorável a Biden, como há muito tempo não se via. Mas, contra si, o democrata tem o imponderável que parece governar as eleições dos EUA.