Volta por cima

Vitória de Arce na Bolívia mostra reação ‘contundente’ contra o golpismo

Novo êxito do MAS um ano após o golpe deve influenciar toda a América Latina, e confirma Bolsonaro como “pé-frio”, segundo o consultor Kjeld Jakobsen

Reprodução/Luis Arce
Luis Arce deve conduzir a Bolívia "de volta ao bom caminho"

São Paulo – Os resultados oficiais das eleições na Bolívia confirmam a vitória do candidato do Movimento ao Socialismo (MAS), Luis Arce Catacora. Com 55,2% das urnas apuradas até a manhã desta terça-feira (20), Arce tem 48,7% dos votos válidos, bem à frente do ex-presidente Carlos Mesa (CC), que tem a preferência de 33,1% dos eleitores. A dianteira de Arce deve se ampliar, na medida em que forem apurados os votos das regiões mais distantes.

Para o consultor em relações internacionais Kjeld Jakobsen esses números inibem qualquer tentativa de contestar o resultado. “Era necessário que houvesse uma vitória contundente da chapa do MAS, para que não pairasse nenhuma dúvida ou qualquer tipo de justificativa que pudesse impedi-los de retornar ao governo. Esse resultado está sendo alcançado”, afirmou, em entrevista a Glauco Faria no Jornal Brasil Atual.

Ainda na madrugada de segunda-feira (19), a presidenta interina da Bolívia, Jeanine Añez, já havia reconhecido a vitória de Arce, com base nas pesquisas de boca de urna. Ao longo do dia, Mesa também reconheceu que “houve um claro vencedor nas eleições deste domingo, que foi Luis Arce”.

Até mesmo o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, felicitou Arce pela vitória. A OEA teve papel destacado no golpe de 2019, ao levantar dúvidas sobre a lisura das eleições realizadas naquele ano. Com base nessas suspeitas, parte da população boliviana realizou protestos violentos contra o então presidente. O golpe foi consumado quando o comandante-chefe das Forças Armadas, o general Williams Kaliman, exigiu a renúncia de Evo.

Mobilizações

Jakobsen destaca que foram as mobilizações populares, lideradas pela Central Obrera Boliviana (COB), que garantiram a realização das eleições neste domingo. Añez utilizou a pandemia como pretexto para os sucessivos adiamentos do pleito.

Ele refuta o argumento que utiliza a realização destas eleições para negar o golpe ocorrido um ano atrás. “É necessário, inclusive, que se investiguem e se punam os responsáveis devidamente. Obviamente com o espírito de reunificar a Bolívia. Mas golpes não podem ficar sem resposta”, afirmou.

Repercussões

O consultor diz que o resultado das eleições bolivianas devem repercutir em todo o continente latino-americano. Deve exercer especial influência sobre as eleições no Equador, marcadas para ocorrer em fevereiro de 2021. Lá, a situação se assemelha à Bolívia, pois setores tentam banir da vida pública o ex-presidente Rafael Correa, inclusive com a utilização doa lawfare. Por outro lado, também há a “vontade de trazer os bons tempos de volta”.

Bolsonaro “‘pé-frio”

Jakobsen destaca que a eleição de Arce na Bolívia confirma o presidente Jair Bolsonaro como “um baita pé-frio”. O ultradireitista Luis Fernando Camacho, que se autointitulava como “Bolsonaro boliviano”, está em terceiro lugar na apuração parcial, com cerca de 16% dos votos.

“Ele (Bolsonaro) apostou na vitória do Macri (na Argentina), e perdeu. Deve ter apostado no Camacho, e perdeu. Seguramente, vai perder em novembro na eleição dos Estados Unidos também. Quem sabe, a derrota de Trump possa trazer algumas mudanças de ordem política e nessa ingerência externa na América Latina.”

Assista à entrevista

Redação: Tiago Pereira. Edição: Glauco Faria