Reverter o golpe

Eleições na Bolívia: país tenta resgatar democracia e soberania do voto popular

Ex-chefes de Estado responsabilizam OEA pelo golpe de 2019 e pedem respeito às eleições na Bolívia. Luis Arce, do Movimento ao Socialismo (MAS) é favorito

Governo da Bolívia/Divulgação
O longo período de inclusão social vivido pelos bolivianos, além do resgate da soberania econômica, incomodaram as elites locais e globais

São Paulo – Os bolivianos voltam às urnas neste domingo (18) para escolher presidente da República, deputados e senadores. As eleições gerais de 2020 na Bolívia ocorrem um ano depois do golpe que levou à renúncia de Evo Morales, em novembro passado. Além de Morales, uma associação entre Forcas Armadas e milícias paramilitares forçou – sob ameaças – as renúncias do vice-presidente Álvaro García Linera, dos presidentes da Câmara, Victor Borda, e do Senado, Adriana Salvatierra.

O golpe aplicado sob a alegação de que a eleição teria sido fraudada – versão contestada até hoje – teve o intuito de varrer da cena política o Movimento ao Socialismo. O MAS assumiu o comando do país em janeiro de 2006, após a primeira eleição de Evo Morales. Sem condições de segurança, as lideranças do partido tiveram de abrir mão da disputa institucional que os asseguraria a permanência na presidência.

A segunda vice do Senado, a conservadora Jeanine Añez, assumiu como presidente interina. Sua curta passagem foi um desastre. A economia, que vinha bem, desmoronou. O país sucumbiu também à pandemia da covid-19. E neste domingo, 7,3 milhões de pessoas aptas a votar – 41 mil delas vivendo no Brasil – esperam reabrir um caminho para a paz social. Isso se a vontade das urnas e a soberania do voto popular voltarem a ser respeitadas. Pois o ambiente, ainda sob o controle das forças que conduziram o golpe de 2019, é tenso a poucas horas nas novas eleições na Bolívia.

Favoritismo do MAS

As pesquisas apontam larga vantagem do candidato do MAS, Luis Arce, e seu vice, David Choquehuanca. Com mais de 40% da intenções de voto, a chapa tem chance de se consagrar vencedora no primeiro turno. Para isso precisa receber mais 50% do total de votos, ou alcançar 40% com vantagem de 10 pontos percentuais para o segundo colocado. O candidato da direita será novamente o ex-presidente Carlos Mesa. Ele aparece com cerca de 30% nas pesquisas. Se os levantamentos se confirmarem, o MAS pode consolidar a vitória já neste domingo, sem a necessidade de um segundo turno.

A segunda volta, porém, é tida com uma chance de a direita vencer as eleições na Bolívia. O país dividido é alvo de uma guerra híbrida e de desinformação – em parte capitaneada pela imprensa conservadora, em parte pela disseminação de notícias falsas por meio das redes sociais. Qualquer semelhança com o que ocorre no Brasil não é coincidência.

A Bolívia sob os governos do MAS ostentou um processo duradouro de inclusão social e de ampliação do acesso das camadas populares a direitos – como moradia e educação. O cenário incomodou a elite boliviana e a elite financeira liberal global. E a questão não é só essa. O país é um dos maiores produtores de gás natural do continente e tem o solo rico em lítio, um dos minerais mais cobiçados pela indústria da tecnologia.

Assim, o golpe aplicado após as eleições na Bolívia em 2019 – num momento de estabilidade – foi movido a interesses econômicos voltados, sobretudo, contra a soberania do país de Evo Morales em relação aos seus recursos naturais.

Alerta internacional

Na sexta-feira (16), uma delegação de parlamentares argentinos que desembarcaram para atuar como observadores foi tratada com hostilidade por militares de La Paz. Depois de desembarcar no aeroporto de Cochabamba, o deputado Federico Fagioli chegou a ser detido ao chegar à capital. O deputado, que já está seguro na embaixada argentina no país, disse em entrevista que agentes ligados ao governo boliviano tentaram sequestrá-lo. O gesto foi visto como tentativa de intimidação por parte das forças golpistas a uma equipe internacional empenhada na lisura do processo eleitoral. E causou protesto do presidente argentino Alberto Fernández.

A desvantagem nas pesquisas dos setores que depuseram Evo Morales do poder os tem levado a sabotar a credibilidade das eleições. O clima de desconfiança levou ex-presidentes, ex-chanceleres e parlamentares de diversos países latino-americanos e divulgar uma nota de alerta. No documento, responsabilizam a Organização dos Estados Americanos (OEA) pela crise na Bolívia, por ter insistido no argumento de fraude nas eleições de 2019 que levou ao golpe.

“A OEA tem uma grande responsabilidade pela deterioração da democracia boliviana”, diz a nota. O texto lembra que a postura da Missão de Observação Eleitoral da OEA nas eleições de outubro do ano passado serviu de base para o golpe. E observa ainda que o processo eleitoral de outubro de 2019 foi amplamente examinado por especialistas. Acadêmicos de vários centros de estudos e universidades dos Estados Unidos, diz a nota, identificaram que uma suposta “mudança de tendência” denunciada pela OEA não representou nenhuma irregularidade. Isso porque os votos de áreas geográficas favoráveis ao MAS foram apurados no final e viraram o resultado até então favorável a Evo.

Evidências

“Dadas as inúmeras evidências de seus erros, a OEA deveria rever o ocorrido. Porém, longe de assumir seus graves erros, o secretário-geral da organização, Luis Almagro, nomeou como chefe da Missão de Observação Eleitoral a mesma pessoa que chefiou sua missão em 2019. Essa decisão mina a confiança na transparência, neutralidade e natureza técnica da Missão de Observação Eleitoral da OEA. E constitui uma provocação aberta e irresponsável do secretário-geral”, afirmam. Os ex-chefes de Estado conclama a comunidade internacional a “estar ciente de que as eleições na Bolívia devem ser realizadas de forma transparente e que seus resultados sejam respeitados”.

Assinam o documento Cristina Kirchner (ex-presidente e vice-presidente da Argentina), Luiz Ignacio Lula da Silva e Dilma Rousseff (ex-presidentes do Brasil), Ernesto Samper (ex-presidente da Colômbia e ex-secretário-geral da Unasul), Rafael Correa (ex-presidente do Equador), Manuel Zelaya (ex-presidente de Honduras), Salvador Sánchez Ceren (ex-presidente de El Salvador), Jorge Taiana (ex-ministro das Relações Exteriores da Argentina), Celso Amorim (ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil), Ricardo Patiño (ex-chanceler do Equador), Jorge Lara Castro (ex-chanceler do Paraguai), Hugo Martínez (ex-chanceler de El Salvador), Guillaume Long (ex-chanceler do Equador).