Argentina

Dia da Lealdade, 17 de outubro traz apoio a Alberto Fernández, alvo de sabotagem

Presidente diz que o país está “submetido a ataques que fazem parecer que os cuidados com a covid-19 não são necessários”

Página|12
"Vamos colocar esta Argentina em colapso de pé. Vamos curar esta Argentina que está doente", disse Alberto Fernández

São Paulo – Carreatas iniciadas no centro de Buenos Aires se replicaram em diferentes partes da Argentina, neste sábado (17), quando o peronismo comemorou o 75º aniversário do 17 de outubro. A manifestação que havia sido idealizada para ser virtual acabou ganhando as ruas e converteu-se num ato de apoio ao governo de Alberto Fernández. O presidente é alvo de movimentos desestabilizadores de um setor do poder econômico e da oposição. A pretexto de confrontar as duras medidas do governo no enfrentamento à pandemia, oposição – que fracassou como o governo de Mauricio Macri, tenta sabotar também a gestão da recuperação econômica do país.

O presidente Alberto Fernández acabou encerrando o ato central na sede da Central Geral dos Trabalhadores (CGT) com uma mensagem de unidade. “Nascemos do amor de Perón e Evita, vivemos o amor de Néstor e Cristina, só sentimos amor pelo nosso povo. Não há ódio ou rancor aqui. O que existe é o desejo de colocar a Argentina de pé de uma vez por todas”, disse Fernández. Governadores, prefeitos, sindicalistas e lideranças sociais, representando todos os setores de seu partido, foram apoiá-lo. O evento pôde ser acompanhado pelas redes, mas não no site de demonstração virtual 75Octubres.ar, que ataque cibernético e ficou fora de operação.

A história do 17 de outubro

O 17 de outubro é celebrado pelo movimento peronista desde 1945. Dois anos antes, a Argentina havia sofrido um golpe conduzido por militares simpatizantes do nazifascismo. Também militar, Juan Domingo Perón tornou-se ministro do Trabalho e aproveitou o espaço para adotar de expansão dos direitos trabalhistas e de aproximação com sindicatos. A exemplo de Getulio Vargas, no Brasil, o objetivo era conquistar apoio das massas e evitar que o movimento sindical fosse liderado por socialistas e comunistas. A elite argentina ficou incomodada. Perón acabou preso em 8 de outubro. O movimento operário desencadeou manifestações, com a CGT à frente, e o líder – que se tornaria presidente no ano seguinte – foi libertado nove dias depois.

O ataque, e a reação de Alberto Fernández

A manifestação deste 17 de Outubro estava prevista para ser virtual, em sintonia com as medidas de isolamento. O site seria lançado às 13h para que as pessoas pudessem escolher um avatar e um palco e começar a experiência de participar da mobilização on-line. A expectativa era de uma presença massiva, pois nos dias anteriores mais de 7 milhões de pessoas haviam passado pela página.

Mas, no momento da conexão, a página sofreu um ataque cibernético sincronizado por 40 servidores de diferentes partes do mundo. Depois de frustrada a experiência, o ato pôde ser seguido nas redes sociais sem problemas. Mas acabou sendo desencadeada a volta da militância do movimento peronista às ruas. A informação é do jornal Página|12.

“Vamos colocar esta Argentina em colapso de pé. Vamos curar esta Argentina que está doente”, acrescentou Alberto Fernández no mesmo tom. Ele mencionou o papa Francisco e sua expressão “primeiro, último” para explicar sua preocupação com a crise gerada pelo coronavírus. “Se você abandonar este último, essa sociedade nunca terá valor, será injust.”

O presidente comparou a situação atual com a causada pelo devastador terremoto de San Juan, em 1944, circunstância em Juan Domingo Perón e Evita se conheceram. “Uma vez e mil vezes já fizeram tudo para que o peronismo desaparecesse da Terra, mas não puderam, porque o peronismo atingiu as entranhas das pessoas e lhes deu direitos”, afirmou Fernández. Quando terminou, pouco depois das 17h, a Marcha Peronista deu lugar para que os militantes pudessem se manifestar em todas as partes do país. Ficou assim consolidada a celebração virtual programada para momentos de pandemia.


Um dos maiores isolamentos do mundo é alvo dos “antiquarentena”

BrasildeFato – A manutenção do isolamento social na Argentina, sete meses após sua implementação, tem produzido questionamentos sobre sua eficiência. Também tem sido constantemente atacada pelo movimento anti-quarentena. Nos primeiros meses, o país apresentava os índices mais baixos de evolução de contágio na região. Agora, e até o fechamento desta reportagem, ocupa a 6º posição no ranking mundial de contágios por covid-19, com 917 mil casos acumulados, segundo a Organização Mundial da Saúde. Como interpretar essa mudança de cenário?

Atualmente, Buenos Aires já tem seus comércios reabertos, e o fluxo de pessoas nas ruas da capital federal é notável. Uma queda semanal de 40% foi registrada nos índices de contágio na província, desde agosto. “Para isso serviu esse tempo de quarentena que tivemos. Isso fez com que nunca superássemos 71% de ocupação [nos hospitais]”, declarou o governador da província de Buenos Aires Axel Kicillof, em entrevista à Télam.

Os altos índices de contágio agora apontam para as províncias do interior do país. O próprio presidente Alberto Fernández afirmou, no último anúncio de extensão da quarentena até 25 de outubro, que o contato com a capital levou o vírus a zonas que antes apresentavam poucos casos de covid-19. “Outras províncias vieram buscar mantimentos, alimentos, necessidades de cada província mais pobre, e o vírus começou a circular localmente, praticamente em todo o país”, explicou ao apontar um gráfico que mostrava um aumento acelerado às províncias nos últimos meses.

Gráfico apresenta a evolução de casos confirmados de covid-19 em todo o território argentino / Reprodução

Maior quarentena do mundo

“Falar em ‘maior quarentena do mundo’ exige especificar bem a que nos estamos referindo”, aponta o infectologista Martín Hojman, do Hospital Rivadavia. “Na Argentina, como em todos os países, a situação é muito variável de acordo com a regionalidade. Há muitas atividades permitidas, segundo cada província. A utilização da pandemia politicamente foi brutal no país, identificando os que querem manter as medidas de isolamento com o governo e os que não com a oposição”, completa.

A Argentina foi o primeiro país a se adiantar com a chegada da pandemia no território. Nesse momento, sabia-se pouco sobre o comportamento e propagação do vírus, portanto, ao contabilizar três mortos e 128 casos confirmados, o presidente Alberto Fernández declarou o isolamento social na Argentina, preventivo e obrigatório para conter os contágios do coronavírus.

Desde o dia 19 de março até então, o cenário mudou radicalmente. Do reconhecimento internacional pela medida e alta popularidade do presidente, a pressão da oposição contra o governo aumentou – não só em relação à quarentena, mas com esta questão sempre presente – , assim como a do setor econômico.

No período mais recente, as manifestações anti-quarentena são cada vez mais frequentes e o que se tem chamado de “cansaço social” tem levado a população a sair de casa para além das atividades permitidas.

Um gráfico comparativo de número de mortes por covid-19 tem circulado nas redes sociais para apontar o caso do isolamento social na Argentina como um suposto fracasso. Porém, ele revela justamente essa mudança de comportamento da população no país, que correspondeu a um aumento de circulação das pessoas e, em consequência, do vírus.

medidas de alberto fernández
Gráfico difundido nas redes sociais aponta aumento de casos de morte por milhão de habitantes / Our World in Data

Plano de reabertura de Alberto Fernández

Em resposta às pressões sociais e do setor econômico, o governo anunciou no dia 17 de julho um plano de reabertura gradual, adaptado em fases distintas de acordo ao nível de contágios de cada província. A partir deste mês que se observa também a curva de mortes tem uma elevação mais acentuada.

Vale ressaltar que o pico, registrado no dia 3 de outubro, corresponde a uma atualização de mais de 3 mil óbitos por covid-19, na província de Buenos Aires, que ainda não constavam no registro oficial de mortes por atrasos do setor privado.

“Uma certa flexibilização provocou um novo surto de contágio”, avalia o analista político argentino Jorge Falcone. “A isso devemos somar a oposição, muito radicalizada, que confronta a quarentena como se se tratasse de uma política autoritária, arbitrariamente adotada.”

Segundo Falcone, uma crítica mais honesta se dirigiria a medidas que o governo não tomou, como a redistribuição de riquezas para conter o momento crítico da população.

“A conjuntura mostra um governo que se vê obrigado a flexibilizar a quarentena, evidenciando não ter muitas cartas para jogar com a cidadania que esgrimir uma suposta ética do cuidado”, afirma. “Sem dúvida, adotar uma política de isolamento preventivo foi, globalmente, um critério correto. Mas não complementar com medidas econômicas de redistribuição de renda está começando a mostrar as polarizações das suas consequências recessivas.”

Sistema de saúde

O Ministério da Saúde na Argentina foi retomado com o atual governo, uma vez que o ex-presidente Mauricio Macri desmontou a pasta, assim como cortou em 25% o orçamento destinado à saúde. Com a mudança de governo e a pandemia chegando a apenas três meses depois de Fernández assumir, o isolamento social foi fundamental para inaugurar novos hospitais e adaptar o sistema de saúde para o que estava por vir, como explica Martín Hojman.

“O objetivo dessas medidas sanitárias é fazer com que o sistema de saúde não colapse. E isso não ocorreu na Argentina, como aconteceu em outros países: pessoas morrendo nas ruas, internadas nos corredores dos hospitais. Isso começou a acontecer em algumas províncias onde o sistema de saúde sempre foi muito precário”, aponta.

A preocupação com o novo cenário na Argentina é o foco de contágios nas províncias do interior do país. Até então, a zona mais crítica se concentrava na área mais populosa, a área metropolitana de Buenos Aires, com 15 milhões de habitantes. Nas províncias, com menor capacidade sanitária, há um agravante. Portanto, as medidas restritivas de circulação foram novamente retomadas especialmente nestas regiões do país.

O presidente Alberto Fernández pediu compreensão a todos os argentinos para manter as medidas de segurança sanitária durante seu último anúncio. “Estamos submetidos a ataques que, às vezes, nos fazem acreditar que os cuidados e a prevenção não são necessários. Precisamos de governos que construam uma ação conjunta e de cidadãos que entendam o momento que vivemos”, concluiu.