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Líbano: ‘ajuda humanitária’ acoberta interesses econômicos, diz professor

Missão comandada pelo ex-presidente Temer serve apenas para dar satisfação a grupos árabes e libaneses que vivem no Brasil, segundo o professor da PUC-SP Reginaldo Nasser

Reprodução/TT/Al Jazeera
Governo do Líbano renunciou após explosão no porto de Beirute

São Paulo – A explosão que matou ao menos 182 pessoas na região portuária de Beirute, capital do Líbano, em 4 de agosto, é mais um capítulo na história do país marcado pela influência das potências estrangeiras e do sistema de divisão de poderes entre as elites locais. Por outro lado, os vizinhos do Oriente Médio e do Ocidente se empenham em enviar “ajuda humanitária” aos libaneses.

Mas, para o professor de Relações Internacionais da PUC-SP Reginaldo Nasser, esse tipo de ajuda serve para garantir influência sobre o país devastado. Além de “marketing social”, os recursos materiais e financeiros enviado aos libaneses preveem “contrapartidas”.

“Nesse mundo da globalização e do neoliberalismo, sempre as contrapartidas vêm em privatizações. Ninguém dá nada de graça”, afirmou Nasser, em entrevista à Marilu Cabanãs, para o Jornal Brasil Atual, nesta terça-feira (25).

Segundo o professor, tratam-se de ações imediatas, que não têm o objetivo de reconstruir e desenvolver o país. “Tão logo isso passe, o Líbano vai voltar ao que era.”

Brasil

No caso do Brasil, a situação é ainda mais contraditória. Quando o presidente Jair Bolsonaro convidou seu antecessor, Michel Temer, para liderar comitiva de ajuda aos libaneses, o Brasil já computava mais de 100 mil mortos pela covid-19. “Não sei se é para rir ou chorar”, comentou Nasser. Para ele, trata-se apenas de uma “satisfação” do governo brasileiro às elites árabes e libanesas que vivem no país.

Desafios

O professor explica que o Líbano é um importante centro financeiro do Oriente Médio, por onde passam transações oriundas da Arábia Saudita e Kwait, por exemplo. No entanto, o país conserva altos índices de concentração de renda. “É um dos países mais desiguais do mundo. O 0,1% dos mais ricos detêm quase 45% da renda nacional”.

A situação foi agravada durante as décadas de 1980 e 1990, quando tropas israelenses e sírias chegaram a ocupar o país. Posteriormente, outro ataque de Israel ocorreu em 2006, acarretando a destruição da capital. “É preciso lembrar de tudo isso. É um acúmulo de problemas, de desigualdades, de intromissão dos estados do entorno e também das grandes potências”, afirmou Nasser.

Assista à entrevista:

Redação: Tiago Pereira – Edição: Helder Lima