Fome na quarentena

Governo do Chile criminaliza manifestação por medidas emergenciais

Manifestantes foram às ruas reivindicar políticas emergenciais para suprir a perda de emprego e de renda devido à crise causada pelo novo coronavírus

Reprodução
Carabineros chilenos reprimem com violência manifestação por assistência social. Muitas famílias já não têm empregos e recursos. Sobrou a fome.

São Paulo – Depois de mandar reprimir os manifestantes que pediam auxílio emergencial para enfrentar a fome e outras dificuldades em meio à severa quarentena contra a covid-19, na tarde desta segunda-feira (18), o governo de Sebastián Piñera resolveu criminalizar o movimento de moradores da comuna de El Bosque, na região metropolitana de Santiago.

Hoje (19), o subsecretário do Interior, Juan Francisco Galli, denunciou três manifestantes após os atos de ontem em El Bosque, que incluíram saques. De acordo com a CNN Chile, a Intendência Metropolitana detalhou que na segunda-feira havia 793 detidos por violação de quarentena e 146 por crimes comuns. Somente em El Bosque foram detidos 37.

Ainda segundo o canal de TV, o ministro do Interior, Gonzalo Blumel, sustentou que entre os manifestantes havia aqueles que procuravam “tirar proveito das circunstâncias atuais para insuflar, estressar e chamar as pessoas para se mobilizarem”. E chegou a acusar setores da oposição, como a Frente Ampla e o Partido Comunista, de tentar insuflar o ambiente social no país na segunda-feira, “onde as pessoas afirmavam protestar por estar com fome”.

“Ontem houve setores políticos, do mundo da Frente Ampla e do Partido Comunista, que se dedicaram a exacerbar as dificuldades, mas o que temos que fazer hoje é colaborar e criar um ambiente para dar tranquilidade aos cidadãos e não destacar as dificuldades”, disse o ministro.

De acordo com o Ministério da Saúde do Chile, o país tem 49.579 casos confirmados, 509 mortos e 21.507 pessoas que se recuperaram da covid-19.

Segundo os manifestantes que foram às ruas de El Bosque ontem, famílias inteiras passam fome porque faltam políticas de assistência para suprir a perda de emprego e de renda devido à crise causada pelo novo coronavírus. Nos confrontos com a polícia, os manifestantes usavam pedras e paus. E os carabineros (policiais militarizados) usavam gás lacrimogêneo e o carro de lançamento de água.

Alguns dos manifestantes atearam fogo a barricadas e interromperam o tráfego de veículos na área para expressar chamar a atenção de motoristas.

“O sistema chileno é mais cruel que o coronavírus”, gritavam alguns manifestantes. “Não é contra a quarentena, é contra a fome”, disse outro manifestante. “Estamos morrendo de fome”, disseram vários moradores da comuna de El Bosque, um dos municípios mais carentes da região metropolitana, em declarações a emissoras de televisão locais.

Este foi o primeiro confronto aberto entre manifestantes e forças de segurança desde a noite da sexta-feira passada (15), quando foi declarado confinamento total na capital do país.  

A um canal de TV, o prefeito de El Bosque, Sadi Melo, afirmou que a comuna está em quarentena há quatro semanas, e que os poucos recursos da população se esgotaram. E que a partir de então, o Estado deve fornecer os recursos necessários.

Segundo o jornal El Mercurio, a população está enfrentando uma situação difícil com a falta de trabalho. A extrema pobreza corresponde a mais de 10% da população de diversas comunas. Há estimativas de que 5 mil famílias, o equivalente a 20 mil pessoas, estejam passando fome.

No domingo passado, o presidente Piñera anunciou a implementação de cinco medidas de apoio às pessoas mais vulneráveis ​​e à “classe média carente”, entre as quais se espera a entrega de 2,5 milhões de cestas de alimentos e produtos básicos entre os mais pobres.

Embora até a semana passada Piñera tivesse evitado impor um confinamento mais severo, a suspensão de atividades econômicas como a construção civil e o comércio afetaram em cheio as famílias mais pobres.

Com informações da BBC


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