Na Europa

‘A humanidade deveria exigir a liberdade de Assange’, diz Lula ao pai do fundador do WikiLeaks

Ex-presidente encontrou o pai de Julian Assange e várias personalidades, e falou na Suíça do combate à desigualdade no mundo

Ricardo Stuckert
Lula se reuniu com John Shipton, pai de Julian Assange, fundador do Wikileaks, preso desde abril de 2019, em Londres

São Paulo – O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em Genebra (Suíça), onde teve agenda intensa e vários encontros. A principal pauta discutida pelo petista foi o tema da desigualdade no mundo e a luta dos trabalhadores no contra a perda de direitos. Ele se reuniu com John Shipton, pai de Julian Assange, fundador do Wikileaks, preso desde abril de 2019, em Londres. “Toda minha solidariedade. A humanidade deveria exigir a liberdade de Assange”, disse Lula.

O fundador do Wikileaks está preso desde abril de 2019, em Londres, ao ser expulso da embaixada do Equador. A luta pela liberdade de Assange tem sido temas posto em discussão sempre que se discute o embate entre resistência da democracia e o avanço do autoritarismo. Pessoas próximas ao ativista têm relatado preocupação com seu estado de saúde em decorrência de um regime prisional que o estaria submetendo a tortura psicológica.

Antes, Lula encontrou o Richard Kozul Wright, diretor da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), órgão vinculado à ONU. E também com o ex-ministro dos Direitos Humanos do governo Fernando Henrique Cardoso, Paulo Sérgio Pinheiro, que o visitou na prisão em Curitiba, em maio de 2019, e dialogou com o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), que congrega mais de 340 igrejas em mais de 120 países, e participou de debate com representantes de sindicatos globais.

Entrevista ao Le Monde

Em entrevista ao jornal francês Le Monde, falou sobre o “perigo” que o presidente Jair Bolsonaro representa para o país. “A democracia corre um perigo real. Acho que Bolsonaro sonha em estabelecer um regime autoritário. É por isso que ele provoca o Congresso Nacional desse jeito. Ele sabe que isso, no Brasil, pega bem com a opinião pública”, disse.  

O ex-presidente lembrou ao jornal, conservador, mas um dos mais importantes da Europa, que Bolsonaro “formou um governo apoiado por milicianos. O Executivo nunca foi infiltrado por esses grupos violentos de ex-policiais e militares em nossa história. Tudo isso é muito perigoso”. Segundo Lula, “o remédio contra Bolsonaro é mais democracia”.

Na matéria, o diário francês destacou:  “Após uma primeira viagem ao exterior dedicada a uma visita ao Papa, em Roma, ele deixou Paris na quinta-feira, 5 de março, depois de passar quatro dias encontrando mulheres e homens, políticos de vários partidos, intelectuais, muitos apoiadores e diversos meios de comunicação, incluindo o Le Monde”.

Os bancos e a desigualdade

Lula e Richard Kozul Wright, da UNCTAD, conversaram sobre a desigualdade no mundo e a responsabilidade do sistema financeiro sobre essa realidade.

No encontro com o secretário-geral do Conselho Mundial de Igrejas, Olav Fylkse Tveit, defendeu que “é possível resolver o problema dos pobres no mundo”, acrescentando: “Não é teoria. Enfrentar ou não a fome é uma decisão política”.

No debate com representantes de sindicatos globais, Lula disse que a luta que quer fazer a partir de agora se relaciona ao combate da desigualdade. “Não tem nenhuma explicação você ter 800 milhões de pessoas que vão dormir toda noite com fome. Por que não têm acesso? (a alimento). Porque não têm dinheiro. Por que não têm dinheiro? Porque não têm distribuição de riqueza.”

Segundo ele, a superação da desigualdade passa pela valorização da educação pelos países. “Não tem nenhuma experiência no mundo de país que ficou desenvolvido com o povo analfabeto.”

O ex-presidente afirmou que não é revolucionário, mas “um democrata juramentado”, e que a democracia tem de garantir “que a gente tenha todos os direitos sobre as coisas que nós produzimos”.

Angela Merkel

Nesse contexto, elogiou a chanceler alemã Angela Merkel, que, apesar de conservadora, não desprezou a situação dramática dos refugiados, como os da Síria, que a Alemanha acolheu. “Nunca foi progressista, nunca foi de esquerda, é uma mulher conservadora, mas digna – e está sendo prejudicada porque não jogou fora os imigrantes, porque resolveu acolher, e a extrema direita está batendo nela. Que mundo estamos criando? Cadê os valores da solidariedade? Desapareceram?”, questionou.

Em seguida, falou sobre as fake news, fenômeno recente que tem influenciado eleições ao redor do mundo. “Acho que nós estamos virando algoritmos. Alguém está decidindo por nós muitas coisas. O Trump foi eleito com base numa mentira, com uma campanha de fake news, para derrotar o adversário (a candidata democrata Hillary Clinton). O Bolsonaro foi eleito com uma campanha de fake news que nunca tinha acontecido no Brasil.”