Reviravolta

Ruas vazias na Galícia. Na Espanha, sair pode dar prisão. População do país se adapta às regras

Com quase tudo fechado, morador da Galícia tem de aderir ao “Yo me quedo en casa”. Ele conta como tem sido a adaptação, juntamente com a família. Um amigo, morador em outra cidade, morreu há alguns dias

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Vista de Cangas, na Galícia: escolas e comércio fechados, transporte interrompido

São Paulo – “Mudou tudo”, diz, resumidamente, Francisco Peña Villar, contando que desde o estado de alerta decretado pelo governo central espanhol em função do coronavírus, no último dia 15, sair de casa pode resultar em multa ou mesmo prisão, por eventual resistência a autoridade. Três dias antes, Xico de Cariño, como é conhecido, comemorou aniversário e celebrou com a família a chegada dos 80 anos.

Ele mora em Cangas do Morrazo, pequeno município de 25 mil habitantes na província de Pontevedra, na Galícia – comunidade autônoma cuja maior cidade é Vigo, com 300 mil habitantes, e cuja capital é Santiago de Compostela, famoso local de peregrinação. Cangas fica no extremo norte da Espanha, perto da divisa com Portugal e a quase 500 quilômetros de Madri, uma região com muitos brasileiros. O próprio Xico é casado com uma brasileira, tem uma filha paulistana e uma neta “galeguinha”, como diz.

Agora, nada de passeios ao parque ou praia, ou qualquer espaço público. “Tudo proibido. Só se pode sair por motivo justificado e de necessidade evidente, como para comprar alimentos, ir à farmácia, ao médico, à banca de jornal, à oficina mecânica ou ao posto de gasolina. Saio de casa apenas para passear com meu cachorro, ir ao supermercado e comprar o jornal.” Desde sexta, oficinas são só para veículos como caminhões e ambulâncias.

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Jornal local fala sobre a quarentena na região da Galícia

A família também adotou algumas medidas preventivas, para evitar contágio. “Hoje (21) mesmo, por precaução, saíram do nosso apartamento, onde moravam conosco, a minha filha com seu marido e a minha neta. Foram para o casa dos meus sogros, onde têm mais espaço e um amplo quintal”, conta.

Estão fechados escolas, cinemas, bares, bibliotecas, pequenos comércios. Funcionavam áreas de alimentação, padarias, bancas de jornais, tabacaria, oficinas, postos. “Tudo em condições restritas de acesso, assim como o transporte coletivo.”

Morte e quarentena

Músico de profissão, Xico perdeu recentemente um amigo na Coruña (na província de Pontevedra, assim como Cangas), que havia passado por uma operação de próstata e contraiu o coronavírus. “A filha da minha sobrinha, de Vilagarcía (na mesma província) também pegou o vírus, mas sem necessidade de hospitalização. Teve de ficar em casa, isolada da família, que permanece em quarentena, pelo menos por 14 dias.”

Segundo Xico, assim como em outros lugares, inicialmente, na virada do ano, se ouvia falar de “um novo vírus mortal” na China, com capacidade de contágio rápido em outros países e continentes. No final de janeiro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência internacional.

“E foi no dia 31 de janeiro que se deu o primeiro caso nas Canárias, sendo os primeiros casos de pessoas regressando de viagens da China, ou da Itália e Alemanha. “A partir desse momento, o que parecia mais uma infecção em um país distante, virou assunto de interesse e preocupação, que aos poucos foi aumentando”, lembra o músico galego.

As ruas de Cangas vazias durante a quarentena (Fotos Xico de Cariño)

Problema menor

Mas ainda no começo de março, embora a imprensa espanhola destacasse o assunto, não se levava tão a sério a gravidade da situação. “Alguns comentaristas falavam em problema menor em comparação com outros, como o do ebola (2014 e 2018) ou do zika (2016), só para citar os mais recentes”, conta Xico.

Ainda no 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, houve grandes celebrações por todo o país – inclusive Cangas. “No dia seguinte, se dá a ordem de fechar os centros educativos de Madri e La Rioja (outras comunidades autônomas da Espanha, assim como a Galícia), e a seguir os eventos esportivos, de lazer, comércios, museus, bibliotecas e todo o gênero de festas profanas ou de caráter religioso.” Isso, lembra, foram decisões das comunidades locais.

Já no dia o governo central, em Madri, passou a gerenciar a crise, com discordâncias dos governos autônomos da Catalunha e de Euskadi (o País Basco), sob alegação de invasão de competência. Xico lembra que Madri, além de ser ela própria uma comunidade autônoma, é também a capital do reino da Espanha e sede do governo central, este com algumas competências exclusivas, enquanto as comunidades têm outras, específicas e mais limitadas – algumas regiões têm movimentos separatistas atuantes e questionamentos sobre a monarquia espanhola.

Hospitais no limite

Ele se considera “razoavelmente informado” pelas autoridades locais. “Também acompanho os acontecimentos pela imprensa internacional e pelas recomendações sanitárias da OMS, tomando minhas precauções.

Em geral, o atendimento médico é satisfatório. “Mas os hospitais estão chegando a níveis de saturação e reclamando da falta de recursos técnicos, produtos de limpeza, aventais, máscaras. Em muitos locais, lembra, aposentados ajudam em serviços de consulta e atendimento em postos.” O Ministério da Saúde chegou a falar na convocação de 50 mil profissionais, incluindo estudantes, no dia em que foi noticiada a morte de uma enfermeira no País Basco – até agora, a Espanha contabiliza 1.326 óbitos, no balanço mais recente.

A maioria dos hospital é pública, com divisão de competências entre governo e comunidades. Recentemente, informou-se que hospitais privados seriam “estatizados” para aumentar o atendimento, mas o termo não é muito preciso. Xico esclarece que foram “concertados”, ou seja, passaram a receber ajuda do Estado mediante acordos de cooperação.

“Agora estão sendo usados de acordo com as necessidades da população, incluindo os excluídos e sem-teto. “Proibido viver na rua, claro, eles se distribuem em centro públicos. E estão sendo montados hospitais de campanha pelos militares, todos mobilizados para atendimento das pessoas, mas também para controle a fim de cumprir as normas do governo.”

Produção suspensa

Segundo informam as autoridades, o pior ainda está por vir: “Ainda não chegamos ao pico, que será entre a primeira e a segunda semana de abril”. A coordenação cabe a quatro ministérios, principalmente o da Sanidad, que divulga informes diários, com recomendações. Também costumam se pronunciar os de Segurança, Assuntos Sociais e Relações do Trabalho.

Xico com seu livro-disco, recentemente lançado. Apresentações foram canceladas

Ainda ontem, o presidente espanhol, Pedro Sánchez, foi à TV para discutir – o país é o quinto em infecções e mortes pelo coronavírus. Entre as possíveis novas medidas, em estudo, está a suspensão de qualquer atividade produtiva não essencial, afirmando que as precauções de isolamento adotadas pelo país são, talvez as mais rigorosas do mundo.

“Estamos lutando contra um inimigo que vamos conhecendo aos poucos. Na medida em que o conhecemos, mudamos a forma de combatê-lo. Vimos aplicando a estratégia da OMS para conseguir tempo, é necessário para melhorar a resistência de nosso sistema de saúde e para que a ciência encontre a vacina”, declarou o presidente, que advertiu para a chegada, em breve, da “ola más dura”, pedindo força e união.

Casado com uma brasileira, Xico acompanha espantado e indignado declarações do presidente Jair Bolsonaro. “Suas declarações são um perigo, uma vergonha mundial”, comenta. “Anteontem, ele falava para a TV, eu vi, que na Itália era normal tanta morte porque eram todos velhos. Especialistas em saúde falavam sobre a Argentina e a Colômbia, que estavam reagindo corretamente, mas o Brasil ia muito mal. Ainda bem que se declarou estado de calamidade, depois da primeira morte por coronavírus, suponho que pela pressão midiática brasileira ou mundial.”

Xico lançou recentemente o seu livro-disco Na Harmónica, com algumas peças brasileiras, mas teve que cancelar apresentações programadas na Galícia e em Portugal. O lema, agora, é Yo me quedo en casa (“Eu fico em casa”, em galego).