Em Roma

Um dia antes de receber Lula, papa faz defesa da Amazônia

Pontífice criticou os interesses que, “legal e ilegalmente”, aumentam o corte de madeira e beneficiam a indústria da mineração

Vatican News
O Papa no Peru com indígenas da Amazônia, em 2018: alerta contra interesses econômicos

São Paulo – O papa Francisco receberá nesta quinta-feira (13), no Vaticano, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fará sua primeira viagem internacional em mais de quatro anos. Segundo sua assessoria, Lula falará sobre desigualdade e o combate à fome e à pobreza, uma das marcas de seu governo (2003-2010).

“Vou visitar o papa Francisco para agradecer não só pela solidariedade que teve comigo em um momento difícil, mas sobretudo pela dedicação dele ao povo oprimido”, declarou Lula na semana passada, lembrando da mensagem de apoio durante sua prisão. “Também quero debater a experiência brasileira no combate à miséria.”

O ex-presidente foi ontem para Roma, acompanhado do ex-chanceler Celso Amorim, entre outros. A última viagem de Lula para fora do país foi em dezembro de 2015, quando ele esteve na Alemanha e na Espanha. A confirmação da audiência teve participação do presidente da Argentina, Alberto Fernández, que foi recebido pelo papa, também argentino, em 31 de janeiro. Eleito no ano passado, Fernández já foi criticado por Jair Bolsonaro, que não foi à cerimônia de posse no país vizinho.

Na véspera da audiência com Lula, o Vaticano divulgou texto (Exortação) do Papa sobre o recente Sínodo da Amazônia. Usando os termos “injustiça e crime”, ele critica interesses que, “legal e ilegalmente”, continuam aumentando o corte de madeira e a indústria da mineração, “expulsando e encurralando os povos indígenas, ribeirinhos e afrodescendentes”.

Ele acrescenta que isso resultou em migração de indígenas para as periferias das cidades, onde “não encontram uma real libertação dos seus dramas, mas as piores formas de escravidão, sujeição e miséria”. “Nestas cidades caracterizadas por uma grande desigualdade, onde hoje habita a maior parte da população da Amazônia, crescem também a xenofobia, a exploração sexual e o tráfico de pessoas. Por isso, o clamor da Amazônia não brota apenas do coração das florestas, mas também do interior das suas cidades.”

O líder da Igreja Católica critica as “operações econômicas, nacionais ou internacionais”, que prejudicam a região e não respeitam os direitos dos povos nativos. “Quando algumas empresas sedentas de lucro fácil se apropriam dos terrenos, chegando a privatizar a própria água potável, ou quando as autoridades deixam mão livre a madeireiros, a projetos minerários ou petrolíferos e outras atividades que devastam as florestas e contaminam o ambiente, transformam-se indevidamente as relações econômicas e tornam-se um instrumento que mata”, afirma o Papa. Ele diz ainda que a globalização não pode se transformar em um “novo tipo de colonialismo”.

Leia aqui a íntegra do texto, denominado Querida Amazônia, na versão em português.

Também hoje, o jornal L’Osservatore Romano lembrou do assassinato da missionária Dorothy Stang, em 2005, no Pará: “Ela representa todos aqueles religiosos, sacerdotes, irmãos, diáconos, leigos, que todos os anos perdem a vida no mundo em nome da fé”. Também são citados, entre outros, o religioso britânico Paul McAuley, morto no Peru, e a líder do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) Dilma Ferreira da Silva, também assassinada no Pará, no ano passado.


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