Conflito iminente

Qual será a reação do Irã?

Líder supremo do Irã Ali Khamenei prometeu uma "vingança severa" após morte de Qassem Soleimani. "Trump pode estar prestes a descobrir que o problema dos mártires é que eles vivem para sempre", analisa pesquisador

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Iranianos saíram às ruas para protestar após ataque dos EUA

São Paulo – Especialistas em todo o mundo discutem como serão as possíveis respostas em uma reação do Irã para o ataque dos Estados Unidos a um aeroporto de Bagdá, no Iraque, que resultou no assassinato do chefe da Guarda Revolucionária do Irã Qassem Soleimani.

Ontem (2), o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, prometeu uma “vingança severa”. “Ele (Soleimani) se juntou a seus irmãos martirizados, mas vamos nos vingar vigorosamente dos EUA”, disse Mohsen Rezaei, ex-comandante do Corpo de Guarda Revolucionário Islâmico do Irã (IRGC). Khamenei nomeou Esmail Qaani como o novo chefe do braço de operações estrangeiras da Guarda Revolucionária.

O presidente do Parlamento do Iraque, Mohammed al-Halbousi, disse nesta sexta-feira (3) em comunicado que “o ataque a um comandante militar nas forças armadas do Iraque, perto do aeroporto internacional de Bagdá, é uma flagrante violação da soberania e violação de acordos internacionais”.

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Segundo ele, “o Iraque deve evitar se tornar um campo de batalha ou um lado em qualquer conflito regional ou internacional”.

Halbousi, principal político sunita iraquiano, pediu ao governo que tome todas as medidas necessárias para impedir tais ataques.

Rejeição popular aos EUA no Irã

Para Mohammad Ali Shabani, pesquisador de doutorado da Universidade Soas de Londres, em artigo escrito para o The Guardian, o assassinato de Soleimani pode reforçar a rejeição que os Estados Unidos enfrenta no Irã.

“Em um momento no qual sanções sem precedentes provocaram distúrbios no Irã, a elite política acaba de receber um grito de guerra. A morte de Soleimani, cujo status se aproximava ao de um ícone nacional, reforçará o sentimento popular contra os EUA e, ao mesmo tempo, fortalecerá o regime”, acredita. “Trump pode estar prestes a descobrir que o problema dos mártires é que eles vivem para sempre.”

A Al Jazeera informa que dezenas de milhares de pessoas foram às ruas no Irã para protestar contra os “crimes” dos EUA.
Cantando “Morte à América” e segurando cartazes do comandante morto, manifestantes encheram as ruas por vários quarteirões no centro de Teerã após as orações de sexta-feira. A agência de notícias estatal Irna relatou manifestações semelhantes nas cidades de Arak, Bojnourd, Hamedan, Hormozgan, Sanandaj, Semnan, Shiraz e Yazd.

A editora internacional do britânico Channel 4 News, Lindsey Hilsum, ressaltou a diferença entre o atual presidente dos Estado Unidos, Donald Trump, e seus antecessores em relação ao chefe da Guarda Revolucionária iraniana. “Eles não o mataram, Obama e Bush, porque temiam quais seriam as consequências. No entanto, parece que Trump não tem filtros”, avalia, ressaltando que diversas reações podem ocorrer de forma difusa, com ações que vão desde o fechamento do estreito de Hormuz a ataques às instalações petrolíferas sauditas, além de possíveis ataques às forças americanas e aliadas no Iraque ou do Hezbollah a Israel.

O jornal libanês pró-Hezbollah Al-Akhbar publicou o comentário de seu colaborador Hassan Alaiq sobre o assassinato de Soleimani com uma manchete sintética. “O martírio de Soleimani: é guerra”, estampou o periódico.

Ela ainda chama a atenção para outra consequência que afeta o equilíbrio geopolítico da região e fere os próprios interesses estadunidenses no Oriente Médio. “Se o governo iraquiano ordena que as tropas dos EUA e da coalizão deixem o Iraque, como parece provável, o Irã se torna o único poder militar em Bagdá. Difícil ver isso como resultado desejado do assassinato de Soleimani”.

Israel sob alerta

O exército israelense fechou a estação de esqui de Mount Hermon nas colinas de Golã, um território disputado que faz fronteira com a Síria e o Líbano. Os combatentes do grupo xiita libanês Hezbollah, apoiado pelo Irã e inimigo de Israel, com o qual travaram uma guerra devastadora em 2006, estão posicionados do outro lado da linha do armistício.

De acordo com a agência de notícias AFP, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu interrompeu uma visita à Grécia, enquanto o ministro da Defesa, Naftali Bennett, presidiu uma reunião de chefes de segurança, incluindo os chefes do exército, o Conselho de Segurança Nacional e a agência de inteligência Mossad.

Dezenas de cidadãos norte-americanos que trabalham para empresas petrolíferas estrangeiras em Basra estavam deixando o país. A embaixada dos EUA em Bagdá pediu a todos os seus cidadãos que deixassem o Iraque imediatamente.

As autoridades iraquianas apontam que a evacuação não afetaria operações, produção ou exportações.